E num sábado do início de janeiro nos preparamos. Planejamos a saída e conseguimos chegar a Estação Pinacoteca, na Luz. Para nós, depois de tantos anos fora de São Paulo e com a revitalização do centro, este era um espaço cultural novo. Quando morávamos em São Paulo, ali funcionava o misterioso, hediondo e maquiavélico DOI-CODI.
Construído no início da I Guerra Mundial – 1914 -, o edifício que hoje abriga a Estação Pinacoteca serviria a questões relacionadas ao crescimento econômico e às transformações vivenciadas por uma São Paulo que se urbanizava com rapidez; isto é, seria um armazém para os produtos agrícolas provenientes do interior do Estado.
Com a conclusão da obra, em 1938, o edifício, projetado pelo conceituado arquiteto Ramos de Azevedo, foi colocado à disposição do Poder Público. Era época de ditadura – o Estado Novo de Getúlio Vargas se fazia presente. De um lado, o governo autoritário e centralizador era capaz de promover o desenvolvimento econômico do país, valorizando o nacionalismo com a construção, por exemplo, das indústrias de base. Por outro lado, as oposições eram duramente silenciadas.
Assim, o edifício passou a abrigar o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS) de São Paulo, órgão de repressão política que atingiu o auge de suas funções a partir do golpe militar de 1964. Com as longas lutas pelas liberdades democráticas, movimentos populares de várias ordens, movimentos operários e estudantis amparados pela Associação Brasileira de Imprensa, Ordem dos Advogados do Brasil e pela Igreja, o regime militar entrou em colapso e o edifício mudou, felizmente, de função. Dada sua relevante importância histórica e arquitetônica, o prédio foi tombado como um bem cultural em 1999 pelo CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo.
No local do extinto DEOPS funciona hoje o Memorial da Resistência – Rua Mauá, 51.
Bem na entrada, algumas publicações acerca de importância do assunto para o estudioso do tema. Aliás, o assunto deveria ser de interesse nacional sempre, jamais esquecido, sempre mencionado, discutido e contestado. Um material muito bem elaborado e ricamente ilustrado intitulado "A Ditadura no Brasil – 1964-1985 – Direito à memória e à verdade!", incontestavelmente uma obra de alto gabarito, com precisão histórica, elaborada com o intuito de provocar uma pesquisa ainda mais abrangente e, além disso, provocar a forte indignação que a negação do ser em benefício do estado forte impõe. Não se pode esquecer daqueles fatos e tragédias, do sangue que tingiu almas e deixou famílias sem norte e, muitas vezes, sem sonho. Eu conhecia essa obra graças à amizade e consideração de um antigo aluno, hoje estudante de Direito aqui em Florianópolis.
No entanto, fomos informados de que apenas um grande painel de entrada estaria disponível aos visitantes, pois as antigas celas estavam em reformas. Honestamente, senti calafrios ao pensar em entrar naquelas celas. Acredito ser impossível algum coração não estremecer, até duvidar da tragicidade daquele lugar, do que as paredes mudamente guardam.
Mas no painel pude ver com o coração as fotos de operários anônimos, trabalhadores simples, pessoas comprometidas com buscas sociais, como greves por melhores condições de trabalho e de salário, todos eles com um número e a data da foto grudada ao peito. Olhares vãos, indagadores do que aconteceria dali para a frente, medo, abandono, solidão, mas não senti nada que lembrasse a arrependimento pela sustentação de uma causa.
Pela primeira vez consegui olhar atenta e profundamente para a foto de Patrícia Galvão – a Pagu. Senti constrangimento por vê-la ali, futuramente barbarizada física e moralmente, como uma pessoa ameaçadora da ordem.
Considero que Pagu tenha sido o primeiro grande símbolo do feminismo no Brasil, visto que defendia ativamente a participação da mulher na sociedade e na vida política. Pagu foi a primeira brasileira do século XX a se tornar prisioneira política.
Conheceu o líder comunista Luís Carlos Prestes – o Cavaleiro da Esperança, no dizer do baiano Jorge Amado, e se comprometeu com o ideal de construção de uma sociedade mais justa, filiando-se ao Partido Comunista (PCB), junto com Oswald de Andrade, seu futuro marido.
Em 1931, Pagu foi presa como militante comunista, durante uma greve dos estivadores em Santos.
"Parque industrial", seu primeiro romance, foi publicado dois anos mais tarde, destacando a realidade social das operárias da cidade de São Paulo, num tempo em que as leis trabalhistas sequer existiam e a exploração era absurda. Comprometida com o ideário socialista, Pagu visitou a União Soviética, símbolo máximo de um projeto teoricamente justo para com os trabalhadores, mas sua decepção foi cruel, percebendo ali uma dura realidade, absolutamente distante das propostas marxistas, uma infância marcada pelo abandono, com a fome estampada nos olhares perdidos e desesperançados.
Como jornalista, Pagu produziu durante mais de três décadas consecutivas, sendo respeitada no meio cultural e artístico. Sua casa era frequentada pelo simpatizante das causas socialistas Jorge Amado, pelo regionalista sul-riograndense Érico Veríssimo, por Sábato Magaldi, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Antunes Filho. Pagu, além da militância, da crítica e de seu trabalho como jornalista, reconhecia e recebia muito bem os novos talentos de então, como Clarice Lispector e Plínio Marcos.
Obviamente uma pessoa assim seria vista como alguém extremamente perigosa ao regime. Muitas vezes torturada, acabou por morrer de câncer, em Santos, em 1962.
Confesso que entrar no Memorial da Resistência representa uma possibilidade ímpar de se revisitar o passado com os olhos no presente. Mas uma visita não com o olhar de um cientista, historiador ou pensador, mas com um olhar essencialmente humano, acreditando que devemos agradecer sincera e honestamente a todos aqueles que lutaram pela construção de uma democracia que, mesmo frágil, repleta de problemas, defeitos e senões, é um ensaio de participação popular, de construção de um tempo que pode ser mais digno e fértil no campo das possibilidades de viver.
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