Exatamente onde hoje é o CEAGESP havia várias lagoas, uma das quais denominada “prainha”, nome dado pela sua beleza, águas calmas e límpidas e, principalmente, pela sua margem, gramada e arenosa. Na realidade a prainha era um conjunto de poços de onde fora retirada imensa quantidade de areia, e, displicentemente, abandonados pelos exploradores, formando com o tempo a grande lagoa.
Aliás, a extração de areia foi intensa nas margens dos rios Tietê e Pinheiros, e, se olharmos a localização do CEAGESP, veremos que está exatamente num enorme triângulo que pode ser compreendido entre a linha da C.P.T.M.; Avenida Imperatriz Leopoldina; Pça. Apecatu; Avenida Pedroso de Moraes; Pça. Panamericana e ponte da Cidade Universitária. Neste enorme triângulo existiam dezenas de portos de areia que abasteceram a indústria da construção civil de São Paulo, principalmente nas décadas de quarenta e cinquenta. Após a exaustão desses portos de areia, a extração deslocou-se para Osasco, Carapicuíba e Barueri, e, atualmente, nossa areia vem das margens do rio Paraíba do Sul, principalmente de Jacareí.
Bem, voltando à prainha, podemos dizer que ela era paradisíaca, e, portanto, a preferida dentre as diversas outras lagoas que existiam no grande triângulo da foz do rio Pinheiros. No verão centenas de pessoas, famílias inteiras, grupos de amigos, aos domingos e feriados, demandavam à prainha e ali passavam o dia, curtindo suas águas límpidas e sua margem maravilhosa.
Entretanto, atrás da beleza encantadora da prainha, escondia-se armadilha mortal: os enormes poços de onde fora extraída a areia, e que tinham grandes profundidades, 10, 15, até 50 metros. Os banhistas, principalmente crianças que não sabiam nadar, ao perderem o contato com o solo apavoravam-se e eram tragados, quase que sempre fatalmente.
Era uma rotinha macabra dos domingos e feriados, a viatura do Corpo de Bombeiros em alta velocidade pelas ruas Barão de Jundiaí e Brigadeiro Gavião Peixoto; a sirene aberta e o barquinho sobre a carroceria da viatura denunciavam o afogamento, que no dia seguinte seria noticiado pelos jornais. Dezenas de vidas foram tragadas pela prainha até que a urbanização alcançasse aquela região, dando-lhe as feições atuais.
Minha mãe, como boa descendente de italianos, desesperava-se a cada "voada" que eu dava na minha infância e juventude, na maioria das vezes para jogar futebol, mas, para o cauteloso coração materno eu estaria na prainha. Aliás, na realidade, isto nunca aconteceu, mesmo porque até hoje não aprendi a nadar, e tenho verdadeiro pavor a água, talvez pela imagem tétrica da viatura vermelha com o barquinho em sua carroceria, a toda velocidade, sirene aberta pela Barão de Jundiaí a caminho de Vila Hamburguesa, para localização de mais um corpo nas águas limpas, serenas e assassinas da prainha.
e-mail do autor: [email protected]