Nos anos 1940-50, casar era muito fácil, pois em pouco tempo que se pedia a mão da moça em casamento, tinha um curto espaço de tempo para namorar e logo em seguida ficar noivo. Em seis meses de noivado tinha que marcar a data do casório. Caso as moças ficassem com mais de 21 anos de idade e sem se casarem, as fofocas rolavam mais do que bola de neve. Essa aí, não sei não, tá com cara de…<br><br>Já quando era homem, sua masculinidade era posta em dúvida, até pelo próprio pai, que só se convencia de que não tinha filho veado quando contratava uma mulher para "trocar figurinhas na cama". Depois, na hora de pagar, não o fazia sem antes saber do desempenho dele na cama. Nossa, eram elogios até em demasia, por parte da mulher contratada.<br><br>Já a mãe, no entanto, tinha outra opinião. Meu filho é igual ao pai, não pode ver um rabo de saia que já fica assanhado, com a mão no bolso. E acha que enquanto tiver moças dando sopa no pedaço ele vai demorar a casar?<br><br>Sou do tipo de mulher que digo às minhas amigas: "Tire suas cabritas da rua que meu bode está solto".<br><br>Mas a coisa mais intrigante eram aqueles namoricos entre vizinhos, ou parentes de terceiro grau, primos e tios afastados.<br><br>Tinha homem que era um autêntico pedófilo. Bem mais velho que a garota, ficava aporrinhando ela quase todo dia, dizendo em seu ouvido: “Quando você crescer, vou casar contigo”. E ela na sua inocência levava a sério, e ele então ia em frente, convencendo os pais e daí saía um casamento, até aparecer um jovem bem afeiçoado dentro do seu padrão, tornando seu casamento uma coisa frustrante.<br><br>Teve caso de diferença de vinte anos, como foi o caso de Moacir com a Cida. Ele mais velho vinte anos, desde o tempo que ele tinha 32 e ela 12 anos. O namoro que era do gosto dos pais, por ele ter uma boa condição financeira, foi até quando ela, já com vinte anos, começou a perceber que Moacir não era o amor de sua vida. Isso porque ela, ao conhecer um colega de trabalho, sentiu que o coração se manifestou diferente de quando ela menina acreditou em suas palavras, que um dia ia se casar com ela, e então ela começou a namorar com ele. E pensava piamente que estava ao lado do "seu amor".<br><br>Ela era totalmente dominada por ele, que dava mais ordem a ela do que seus próprios pais.<br><br>Ele nem queria que ela trabalhasse por causa do ciúme violento que tinha da namorada. Só deixou ela trabalhar porque a vizinha, que era uma senhora, trabalhava na firma de propriedade de um amigo da família dela. Indo com aquela senhora ele permitiu, e recomendou a ela ficar de olho na moça. E foi justamente no trabalho que ela sentiu onde estava o seu verdadeiro amor. Convivendo diariamente com alguém cuja amizade foi se concretizando em uma grande afetividade, e sendo ele um jovem de sua idade, ela viu nele a cumplicidade que já não tinha com o veterano seu namorado. E aí criou-se um vínculo que foi crescendo, até ela sentir que tinha encontrado alguém que estava balançando o seu coração.<br><br>Cida já estava em desespero sem saber o que fazer. Sua amiga e vizinha, que com ela ia e voltava do trabalho, aconselhou ela a não terminar o namoro com Moacir, pois ele era capaz de terminar com a vida dela e de quem tivesse com ela, dado o forte ciúme que sentia.<br><br>Para cumprir direitinho sua tarefa em olhar a moça, a companheira de trabalho fez de tudo para tirar da cabeça de Cida aquele negócio de se desfazer do noivado.<br><br>Era uma senhora espanhola há muito radicada no Brasil, e com seu sotaque castelhano chegou a ofender sua colega de trabalho com palavras ásperas. És, Novia… És, uma sem-verguença. Cida chorou muito, e quando viu que nem sua colega a ajudava, deixou o barco correr e se casou com Moacir. Casamento que deve ter durado, quando muito, cinco anos, porque ela enviuvou. Aí ela já tinha perdido o caminho daquele que havia balançado o seu coração. Também o meu amigo Malvino, já com 44 anos de idade, foi se engraçar com uma garota de 22, e em pouco tempo estava no altar para estupefação de quem o conhecia e já fazendo previsões pouco favoráveis daquele já um solteirão convicto.<br><br>Depois de menos de dez anos a coisa degringolou, quando ela foi no bailão do Zé Bettio e conheceu um sertanejo que fazia versos amorosos em suas músicas.<br><br>Já Heleninha, uma linda moça do Brooklin, era uma daquelas criadas para ser uma madame, ou então uma rainha dólar que um dia poderia ouvir, no dia das mães, a música gravada por João Dias e Ângela Maria:<br><br>"Mamãe, mamãe, és a razão dos meus dias. Mamãe, mamãe, com avental todo sujo de ovo". Porém nada disso aconteceu. Ela foi gostar de um grande vagabundo do próprio bairro, que a única virtude que tinha era ser bonito. E por causa disso muitas outras tinham caído em suas garras e saído machucadas. Seu Antonio, pai dela, um senhor de alta respeitabilidade pelo fato de não conseguir persuadi-la desse desejo, pois ela era muito teimosa, teve que aceitar e, para ajudar ela a não se dar mal na vida, comprou um caminhão para que ele tivesse um ganho na vida e não ficasse na dependência do sogro.<br><br>Mas esse namoro não foi à frente, por motivos desconhecidos. Aí casou com um cara que tinha um certo parentesco com ela. Ele também era bonito, mas tinha a cabeça pendendo para um dos lados e era chamado de "galo de pescoço torto" pela rapaziada. Muitos deles morriam de amor por ela.<br><br>Um dia ela casou, e foi uma festança em sua casa, que ficava num terreno bem grande, e a casa nos fundos com um enorme quintal onde barracas de lona foram montadas para um festão. Ela, saída do altar e recebia os cumprimentos dos convidados. E na rua, com uma cara de quem comeu e não gostou, estava Toninho, aquele que não soube levar o namoro à frente.<br><br>Tinha gente que dizia que ela ainda amava e tinha se casado com o "galo de pescoço torto" para não ficar para a titia. Nos bares da vida, os homens com o umbigo encostado no balcão, nas goladas de pinga, diziam a quem interessar: “Chifres à vista, pessoal!”.<br><br>Esses anos eram de uma hipocrisia daquelas. A moça tinha que ser virgem. O moço não. Isso na concepção da sociedade machista, que até as mulheres aderiam, pois não tinham voz ativa. Caso fossem contra esse método, levavam umas bofetadas dos maridos.<br><br>Já a igreja não gostava dessa tese, pois o catecismo dizia que as moças deveriam ser virgens e o moço casto, até o dia das núpcias. Diziam os padres no sermão das missas dominicais.<br><br>Diziam também que o sexo era uma consequência do casamento para fins de reprodução, e que a luxúria era um pecado mortal. Muitas vezes se sabia que alguma moça tinha se casado fora da lei da igreja quando duas amigas que faziam confidências brigavam no portão da casa de ama delas.<br><br>- Fica quieta, sua vagabunda, que casou de véu e grinalda e já estava com filho na barriga.<br><br>Nessas duas décadas se teve notícia de casamentos desfeitos nas primeiras vinte e quatro horas após o enlace matrimonial, quando o marido ficasse sabendo que sua esposa já tinha sido violada, e que ele não tinha sido notificado por ela com antecedência.<br><br>Isso aconteceu no bairro do Itaim, nos anos 1940, foi notícia de jornal e aconteceu na Rua Iguatemi, em que o marido só teve ciência disso quando estava nos primeiros momentos de intimidade com sua recém esposa.<br><br>Ele simplesmente saiu de casa e ela, na janela, com lágrimas nos olhos, ficou talvez a pensar, “será que tinha sido melhor ter dito a ele antes?“.<br><br>Essa lei foi mantida por muitos anos, e quem lutou muito para revogá-la foi o deputado federal Herbert Levi, numa luta titânica e incansável, cuja tramitação sempre lenta na casa das leis foi sendo levada com a barriga. <br><br>Se ele conseguiu, eu não sei. Assim como também não sei se essa lei ainda está em vigor.<br><br>O namoro naqueles anos terminava quando a moça falava ao namorado: “Mamãe disse para você falar com papai”. Pronto, o namoro murchava.<br><br>Um dia comecei a namorar uma moça que até então era a garota dos meus sonhos, estava eu com vinte anos. E o namoro foi até quando o irmão dela, amigo de futebol, veio falar comigo:<br><br>- Mário, acho que já está na hora de você ir falar com papai.<br><br>Eu hein… Sartei de banda, como diziam os caipiras.<br><br>e-mail do autor: [email protected]