Vindo da cidade de Teresina; Pi, cheguei à cidade de São Paulo em 28 de junho de 1972. Era inverno paulistano. Muito do que via era novidade para mim: O frio, a garoa, a fumaça que escurecia o ar, os edifícios que pareciam ir até o céu, o corre-corre das pessoas nas ruas, o trânsito engarrafado; o aglomerado de pessoas que pareciam caminhar juntas, e todas pareciam ir ao mesmo lugar. Mas, o que me incomodava mesmo era o fato de não poder ver o azul do céu. Tudo era cinza. Tudo era frio, até olhar das pessoas que me observavam, enquanto eu ficava ali parado com uma mala em uma das mãos. Na outra mão eu carregava um violão. O motivo da minha vinda a São Paulo foi a vontade de ser artista.
Meu primeiro desencanto já me espreitava a poucos metros dali, o taxista.
Percebendo que eu acabara de chegar, logo tratou de tirar vantagens de minha ignorância. Quando o perguntei se poderia levar-me à avenida São João, no número 1474, ele foi logo me dizendo que só poderia levar-me se fosse contratado por viagem, e não pelo taxímetro, pois eu tinha bagagem. Assim, entendi eu que aquela maneira seria uma regra, e não poderia ser diferente com outros taxistas, então, aceitei o acordo e pus-me adentrar no carro e acomodar-me, a mim e a bagagem: o violão, a mala e um saco de pano, onde eu trazia alguns apetrechos de nordestino como, queijo, rapadura, cachaça e umas lembrancinhas típicas do nordeste. Foi a viagem mais demorada e comprida que já fiz para chegar a um lugar tão perto; da antiga rodoviária da av. Duque de Caxias até o número 1474 da av. São João. O taxista deu uma bela volta pela cidade, e eu só percebi isso depois de algumas semanas, quando conheci melhor a região do centro e entendi que estava a poucos metros da rodoviária, e, naquela época a av Duque de Caxias era de mão dupla, que tornava o caminho mais curto ainda. Mas, enfim, lá estava eu em frente ao prédio cujo eu moraria por pelo menos, os próximos dois meses, com minha irmã por parte de pai, que por sinal nem sabia que eu estava chegando em sua casa, quero dizer, seu apartamento.
Ao chegar no prédio outro desencanto: um moço bem vestido com aparência de alemão e muito gentil veio ao meu encontro e perguntou-me o que eu desejava. Expliquei-o que procurava por minha irmã Neide que morava no apartamento 94, segundo o papel que eu tinha nas mãos. Ele abriu a porta do elevador e fez sinal para eu entrar. Entrei e fiquei lá parado, esperando que o elevador me levasse a algum lugar; nada aconteceu até a porta abrir-se novamente e lá estava ele sorrindo de minha ignorância, pois eu não sabia que teria de apertar o botão no painel, para que o elevador subisse ao andar desejado.
Por fim, eu imaginava que o tal homem era o dono prédio, e só descobri que ele não era o dono do prédio depois de uma semana, quando minha irmã me disse que ele era apenas o zelador. Então eu perguntei: e também tem isso é?
O tempo passou e 34 invernos se passaram. Fui Office boy, auxiliar de escritório, técnico de manutenção de máquinas de escrever, técnico eletrônico, motorista e serralheiro; menos artista. Pelo menos como eu imaginava ser. E São Paulo hoje é tudo isso que conhecemos e aprendemos amar. Mesmo com seus problemas, seus contrastes e suas controvérsias, São Paulo é a cidade que adotei e fundei minhas raízes, deixando aqui, minhas sementes que darão novas outras, e outras que, como eu, darão sua contribuição para a construção da maior e mais cosmopolita cidade da América Latina.