Sindicalistas e seus seguidores

Nos anos 1940-50 era um tal de se dizer que era comunista que não tinha tamanho.<br><br>Era comum ver um trabalhador, e naquele tempo todo mundo era trabalhador, porque se via poucos desocupados, a maioria tinha uma profissão, coisa necessária para se pedir a mão de uma moça em casamento.<br><br>Com a aglutinação de operários nos pátios das fábricas, e também na Praça da Sé, principalmente nas manhãs de sábado, ou então de segunda a sexta, depois que todos estavam a caminho de casa, só se falava em aumento de salário, greve, e ofendendo os patrões, de burguês f.d.p., que ficam desfilando com seus carrões.<br><br>Todos se diziam vermelhos, ou seja, comunistas. Os nomes pronunciados eram de estrangeiros de cachecol vermelho. Marx, Lênin, Stalin, Mickail etc. Para quem tinha faixa verde e amarelo no peito só um nome era dito: Getulio Vargas. E assim foi se produzindo no Brasil, digamos, aqui em São Paulo, o maior pólo industrial de um monte de pessoas que disputavam, e muitas vezes a tapas, uma cadeira na diretoria dos sindicatos.<br><br>Quando explodia uma greve era para se perder de vista quanto aos dias parados, como aconteceu na grande greve de 1952 ou 53. Os marceneiros estavam quase três meses em greve, segundo dona Laura, que tinha seu filho Berto como marceneiro, e dona Elvira, que também tinha seu filho que trabalhava na Carpintaria do Fontes, na Rua da Ponte, em frente à travessa da ponte.<br><br>Eu entrei para o sindicato como simples mensalista e comparecia nas reuniões, mas não fui muito bem quisto no seio da "velharada", porque numa conversa em que "os vermelhos" diziam que na Rússia (União Soviética) todos tinham casa própria de graça e eram tratados com igualdade, eu, muito burro, perguntei: – Todos ou quem é do partido do governo ou da KGB? Pronto, os palavrões que antes só ouvia do meu pai ouvi de muita gente que nem ou mal conhecia. E ainda tive que ouvir: Que é, garoto, imperialista? Confesso que nem sabia o que era imperialista. Para mim era Dom Pedro I e também o segundo.<br><br>Mas o caminho vermelhaço, como a gente dizia na gozação, não parava por aí. O Jaurindo, meu colega de escola e já rapaz de seus vinte anos, também meu colega de trabalho, era um "vermelho" de mão cheia. Era um negro oriundo de família simples, que tinha essa preferência "vermelha", tinha raiva de seu irmão Jaci, que, também negro, era americanalhado, segundo ele. Isso só porque se casou com uma branca e tinha duas filhas com nomes americanalhados. Shirley e Jéssica. Quando o Jauro (como o chamávamos) foi servir o exército e lá falava abertamente que o sistema em comuna era o melhor para se viver, com isso arregalava os olhos de todos os praças, que apesar de ignorantes no assunto sabiam que a palavra comuna ou comunista era pecado capital, que os padres falavam muito nas missas de domingos, de festas e guardas, e também ojeriza de militares.<br><br>Um dia, quando a caminho da caserna, passou por um sebo na Praça Clovis e viu um livro "vermelho" bem grosso que tinha a foice e o martelo na capa, chamou sua atenção. Não quis saber o preço, mandou para baixo do braço e já foi lendo no bonde, parecia crente lendo a Bíblia. Como ele gostava de ler aquela joça.<br><br>No exército colocou o livrão no armário e lia a conta gotas. Um dia foi surpreendido pelo sargento, que numa pegada forte tirou o livro das mãos de Jauro. E olhe que o Jauro tinha tutano, chegar nele de alegre era levar um monte de porradas na cara. Não sei por que o sargento ficou livre disso.<br><br>Ao desfolhar páginas, o sargento o pegou pelo braço, levou a um canto e lhe passou um sabão. Meu amigo, eu também sou adepto dessa linha, mas, por favor, não leia aqui, senão além de você eu também me fodo.<br><br>Até eu era chamado de comunista. Só porque, como descendente de italianos, falava alto, ou gritava. Mas quando isso acontecia ofendia a senhora genitora dos caras, e aí a coisa parou.<br><br>Mas os comunistas também foram motivo de muita refrega na política. Em 1946, com a Assembléia Nacional Constituinte, os comunistas ficaram livres da perseguição a que estavam como clandestinos, porque o PCB (Partido Comunista Brasileiro) tinha sido incorporado no sistema partidário legal. Seu líder maior, Luiz Carlos Prestes, tinha sido libertado meses ou um ano antes.<br><br>Os políticos de outros partidos sempre namoravam os comunistas. Parecia uma glória ter os votos dos comunistas e a imprensa sempre divulgava que alguém ia ser eleito, ou tinha sido eleito, com a ajuda dos comunistas. Quem se aproveitou dessa ajuda foi o doutor Adhemar de Barros, um dos maiores democratas que tivemos na nossa política.<br><br>Em 1947, Adhemar namorava os comunistas, que o ajudaram bastante, e ele foi eleito governador em janeiro daquele ano. Mas pouco tempo depois Adhemar ajudou a colocar os comunistas na clandestinidade, dizendo que a União Soviética era um perigo à nação e poderia qualquer momento invadir isso aqui.<br><br>Pronto, quem acreditou na sinceridade da assembléia constituinte ficou com o mico na mão. Qualquer coisa, quando se tinha a raiva da derrota, colocavam a culpa nos comunistas. Carlos Lacerda era um que usava até binóculo para ver se achava comunistas. Quando Juscelino foi eleito ele fez as contas e viu que a diferença era de 500 mil votos, e que o Brasil tinha 500 mil eleitores de fachada vermelha. Pronto, já quis impedir a posse de Juscelino por causa disso. Então voltou tudo como era antes. Conversas, discussões e artimanhas eram em reuniões feitas nos porões.<br><br>Quando os anos 1960 estavam pela metade, aí vieram os militares do momento para caçar comunistas onde eles estivessem. Para isso foi concebido o C.C.C. (Comando de Caça aos Comunistas). E isso foi até os anos 1980.<br><br>Até o futebol era motivo de vasculhação em busca de comunistas. O selecionado brasileiro em 1969 teve um técnico altamente comunista. Era o jornalista João Saldanha. Bom, isso já era motivo para que o presidente futebolino Emilio Garrastazu Medici se metesse onde não era chamado. Para querer tirar o técnico João Saldanha da direção técnica do futebol. Depois de o comunista se dar bem dirigindo a seleção classificando para a copa, estava meio difícil tirá-lo de lá.<br><br>Aí o presidente futebolino achou por bem pedir a presença de Dario peito de aço para ser o centro avante da seleção. Segundo dizem, o presidente mandou um recado para Saldanha, que devolveu a resposta: “Diga ao presidente que ele manda no Brasil. Na seleção mando eu.”. Adivinha se ele dirigiu a seleção na copa de 1970. Quando se percebeu que ser comunista dava muita dor nas costas, os velhos camaradas preferiram ficar somente como sindicalistas. Mas como fazer greve se o poderio militar estava de cassetete nas mãos e o desciam a rodo?<br><br>Em Osasco (1968) os trabalhadores metalúrgicos da Cobrasma desafiaram os milicos e tomaram um sonoro pau.<br><br>Já no ABC (1978) teve alguém de cabeça fria que fez uma greve que deu certo. Foi uma greve em que toda a fábrica de automóveis da Ford (se não estou enganado) foi trabalhar e, silenciosamente, todos ficaram parados em seus lugares sem erguer uma palha, foi a chamada greve muda. Ficou na história em se fazer a maior greve sem que houvesse um ai. Isso encorajou um nordestino que, com cara de raiva, falou tudo o que queria, insuflando o povo trabalhista numa greve que marcou época, em 1979. Quase quarenta dias parados, quando se chegou a um acordo.<br><br>Mas no ano seguinte voltou novamente o movimento paredista. Os dias se passavam e não se chegava a um acordo. O estádio de Vila Euclides, que eu nunca soube quem lá jogou, foi o palco de um dos maiores discursos sindicais. Mas, como sempre, a maioria das pessoas vai sem saber bem o que lá foram fazer. Então, em vez de ficar prestando atenção no que o líder sindical Lula dizia, ficavam de olho pra cima vendo um helicóptero passando com gente de uniforme verde desfilando poderosas armas. Foi quando ele ficou furioso e gritou: “Gente, quer prestar atenção no que estou falando! Pare de olhar nessa porcaria que fica aí querendo assustar a gente”. <br><br>Aí a porta ficou aberta, era greve para todo lado, perderam o respeito pelos militares. É aquele negócio: onde passa um boi, passa a boiada.<br><br>Em São Paulo tivemos uma greve que mexeu com todos os paulistanos. Uma semana sem ônibus. O sindicato estava irredutível em suas pretensões. A nossa sorte era que o nosso prefeito era um homem sério e de facilidade em lidar com as pessoas. Era o senhor Olavo Setúbal, que chamou os dirigentes sindicais à mesa de negociação e se chegou a um acordo. Foi aí que os milicos se tocaram que existia alguém que resolvia as coisas sem o uso de armas. Tudo era motivo para greve.<br> <br>A palavra mais usada era “pacote”. A partir do pacote de abril de 1977.<br><br>Um dia foi feita uma greve de 24 horas. A chamada greve de advertência. Coisas de sindicalistas vagabundos que tem estabilidade e não perdem o emprego.<br><br>Onde eu trabalhava era comum um perguntar ao outro: “Vai fazer greve amanhã?”. Na hora do almoço disse com todas as letras: “Gente, não entra nessa. Conheço esses vagabundos dos sindicatos. Quem ganha são somente eles. Nós nos danamos. Querem apostar que muita gente vai ser mandada embora depois de amanhã?”.<br><br>No dia seguinte somente um não foi trabalhar, um "baiano".<br><br>No dia seguinte da greve frustrada, o faltoso veio trabalhar, perguntamos por que ele não veio no dia anterior, ele, com ar de glória, disse que tinha feito a greve como um cidadão que sabe dos seus direitos. Aí um colega perguntou: “Mas qual foi o motivo da greve?”. Ele, com ar de civismo, disse: “Foi uma greve contra o Pacote!”.<br><br>Não deu mais para segurar os movimentos e os milicos estavam caindo de podres. Mais uma vez coube aos sindicalistas a abertura da porta da democracia, aí eu estava presente.<br><br>Era a metade do mês de janeiro de 1984 quando fui pagar minha mensalidade, e fiquei sabendo que haveria uma festa dia 25 aniversário da cidade de São Paulo. Na saída me deram um panfletinho que dizia simplesmente "Eu quero votar para presidente".<br><br>A festa foi muito legal, como sempre a Praça da Sé estava cheia de gente. Viva São Paulo. Parabéns São Paulo, e aproveitaram para dizer que estava na hora de elegermos o presidente pelas urnas, pois era tempo de eleição (ou melhor, nomeação) pelo colégio eleitoral. As emissoras de rádio e televisão fizeram suas reportagens, mas não se deram conta de que dali partia o movimento das diretas já. Muitos políticos presentes, como sempre, copiaram a receita e meses depois tínhamos um comício na Praça da Sé sob a chancela das diretas.<br><br>Foi muito bonito e emocionante aquele mundaréu de gente nas praças públicas, que a Rede Globo insistia em não transmitir, até que uma das suas contratadas, a Fernanda Montenegro, meteu a cara de fronte à câmera de outra emissora e gritou: “Gente da Rede Globo, quando vocês vão vir aqui mostra essa festa democrática?”. Aí, timidamente, o Jornal Nacional começou a mostrar o show de democracia com as velhas raposas da política juntamente com os artistas falando um monte de coisas. A Globo, para dizer que foi a arauto das diretas, mostra uma reportagem comum do Ernesto Paglia sobre a festa de aniversário de São Paulo em 1984.<br><br>Mas o movimento sindicalista, popular e político para a eleição direta não deu certo. Foi preciso que um patrão (Paulo Maluf) e membro do sistema ditatorial entrasse de atrevido na convenção do PDS e desse um empurrão no milico Andreazza, pondo fim na ditadura militar. E a democracia veio por meio da traição de outro adepto da ditadura (Sarney), que deu um soco na mesa e se aliou aos "democratas" Ulisses, Tancredo, Montoro e companhia bela. Entrou como vice e foi presidente depois de se levantar, no dia 22 de abril de 1985, com os olhos de ontem.<br><br>e-mail do autor: [email protected]