Morumbi, era pleno campo. Um dos latifúndios estendiam-se nesse fim do mundo. Não havia estradas. Alguns esportistas, alguns apaixonados da natureza passeavam de quando em quando, a cavalo pelos atalhos, debaixo das arvores, descobrindo, a cada passo, panoramas maravilhosos, espaços imensos que as montanhas emolduravam sem estreitar. Como se respirava bem neste lugar! A cidade longínqua ficava esquecida. Jamais paulista algum imaginava que Morumbi chegasse algum dia a fazer parte da cidade, tornar-se um bairro habitado. Houve porém uma extensão: O arquiteto Osvaldo Bratke tanto se entusiasmou que pelo lugar que comprou um grande terreno em Morumbi e instalou um sitio onde vinha passar os fins de semana. Viu possibilidade imensas na região. Tanto assim que não se cansava de ficar propagando o lugar admirável que descobrira e incentivando amigos a comprar terrenos na região. Convenceu Fábio Prado e depois Oscar Americano. Então o arquiteto planejou o bairro do futuro. Nessa época, já pensava num bairro completamente autônomo, com escolas, hospital, um cinema, um centro comercial do tipo, dos "department Stores" americanos, que abasteceria mil famílias e evitaria a famigerada venda da esquina.
Em 1938 construi-se a primeira estrada com a ajuda do prefeito Prestes Maia, que demonstrou a maior boa vontade por um projeto que a maioria ainda achava inexeqüível e doido. Os poucos proprietários uniram seus esforços. Fizeram a primeira estrada asfaltada, instalaram luz e água. Alguns artistas já se estavam habituando a passar os fins de semana em Morumbi. O pintor Rebollo alugou uma casinha com Sérgio Milliet, Bruno Giorgi e Antônio Moura. Rebollo acabou ficando com a casa, há uns dez anos antes. Só lhe foi possível agüentar as dificuldades de toda ordem graças a sua mulher Elizabeth que tem alma pioneira conformou-se com o isolamento absoluto a falta absoluta, de condução, porque achava que a beleza ambiental compensava todas dificuldades por ser um lugar onde era possível respirar, porque a filhinha cresceria sadia e feliz no campo. Pouco a pouco, os amigos de Rebollo – e são todos artistas de São Paulo – começaram a freqüentar sua casa que a hospitaleira de Elizabeth tornava adorável. Já se falava no Morumbi. Não era mais um fim de mundo … Apesar das dificuldades de condução, que continuam ate hoje. (maio de 1954)
Depois a senhora Renata Crespi Paulo, tomou a iniciativa de oferecer uma igreja ao Morumbi, aproveitando as ruínas de uma pequena igreja que se erguia numa elevação com vista deslumbrante. Gregorio Warchawchik restaurou as poucas paredes ainda em pé e levantou o restante do edifício sobre esta base. A sua decoração foi confiada a Sunaé, que pintou cenas do evangelho, deliciosos anjinhos, cuja ingenuidade está de acordo Entre novos com o estilo primitivo da igreja e que retrata o Brasil com seus brancos, negros, índios.
E assim enquanto Warchawchik recriava a igreja que convinha ao Morumbi, pela primeira vez no Brasil era encarregada da decoração completa de uma igreja católica, ajudando a arquitetura religiosa em decadência a envelhecer a enveredar pelos caminhos novos da arte moderna. Depois Lina Bo Bardi construiu sua magnifica casa que só integra perfeitamente na paisagem, não somente porque permitiu aos moradores goza-la ao máximo, mas também porque faz parte dela, da mesma maneira que suas arvores, suas colinas, suas plantas. Outros arquitetos já escolheram o Morumbi para nele viver. São, Eduardo Kneese de Mello, Corona, Luiz Sala, sem falar em Profili, a alma dinâmica das bienais paulistas. E assim casas modernas vão se erguendo na paisagem de sonho que não se destruem, mas ao contrario, completam chácara onde faz cerâmica e cultura ao mesmo tempo, as plantas para colocar nos seus vasos. Esta é outra inovação que o ambiente do Morumbi incentivou: Zanine resolveu criar cerâmicas comerciais que ao contrario da maioria das cerâmicas, de preço acessível, são de linhas simples e cor preta, e de espírito moderno.
Osvaldo Bratke, o descobridor das matas. O descobridor do Morumbi já tinha projetos mais ambiciosos. Na sua prancheta estavam um hospital, para crianças. Clinica, cirurgia, laboratórios, um pronto socorro. Enfim possibilitará um Check Up geral. Os laboratórios também atenderão aos clientes adultos do bairro. O hospital recusará as pessoas que atingidas por doenças contagiosas ou deformantes. Enfim a semente do Morumbi foi lançada.
Mário Lopomo