A missa do pecado

Em outubro de 1975, a catedral da Sé estava abrindo suas portas para a missa de sétimo dia, que ia redimir pecados. Não de quem morreu, e sim de quem matou. Uma das coisas que na certa ia ser dito era: Senhor, perdoai, ele não sabia o que estava fazendo. Era a missa do jornalista Wladimir Herzog, covardemente assassinado nos porões do DOI-CODI. O único pecado de Wlado era ser ideólogo do comunismo.<br><br>Porém havia certo problema para que essa missa não se realizasse. Sempre quando havia um evento de repercussão, estavam presentes autoridades civis, militares e eclesiásticas.<br><br>Mas os militares não estariam presentes. Não se sabia se eles não tinham sido convidados, ou se estavam em greve. Línguas diziam que os paramentados de verde oliva achavam que essa missa era um pecado mortal.<br><br>Eles não estavam gostando que além do padre defensor dos torturados, outros clérigos se fizessem presentes. Como um rabino, um plesbitérico e um espírita. Quem sabe até um maçom poderia se fazer presente.<br><br>Na zona oeste, um monte de desobedientes queria ir à missa de qualquer forma. Para isso, os detentores do poder mandaram bloquear todas as pontes que passavam por cima do Rio Tietê e Pinheiros. Foi ordenado que se fizesse uma vistoria lenta em todos os veículos para saber se realmente as pessoas portavam velas e rosários, santinhos, peças indispensáveis para uma missa. A ponte mais vigiada era a da Cidade Universitária. Ali, bichos esquisitos poderiam fazer mal à igreja. Digo, ao regime.<br><br>Quem não estava sabendo o que estava acontecendo suava bastante dentro dos coletivos, somado ao stress, levava pessoas à loucura, pois tinham seus compromissos e estavam presos num congestionamento interminável na Avenida Francisco Morato. Uma mulher foi acometida por um infarto fulminante e faleceu dentro do veículo.<br><br>Quem não estava na missa, por bem ou por mal, relembrava a morte de Wladimir Herzog, sete dias antes.<br><br>Wladimir Herzog foi procurado por policiais federais na redação do departamento de jornalismo da TV Cultura para prestar declarações naquele mesmo instante, o que foi impedido pela diretoria da emissora por ser ele diretor e editor de notícias, o que poderia prejudicar os trabalhos daquele dia.<br> <br>Sendo assim, ele foi convidado a comparecer no dia seguinte, 24/10/75, para prestar esclarecimentos, devido a uma acusação feita no jornal Shopping News, por Cláudio Marques, que fazia uma campanha contra a "infiltração comunista" no departamento de jornalismo da TV Cultura de São Paulo.<br> <br>Ao sair de casa, animou sua esposa Clarice. Fique calma, vou lá só dar algumas declarações, logo estarei de volta. Só que voltou morto, pois foi torturado até a morte, fato que foi confirmado por um companheiro seu que estava preso numa cela ao lado e que ouviu seu último gemido. Quando o fato se consumou, os torturadores teriam dito:<br><br>- General, o omelete está feito, e agora? <br><br>- Agora digam à imprensa que ele se suicidou e pronto. <br><br>Isso foi dito, e o porta voz da mentira foi o governador Paulo Egidio Martins, perante as câmeras de TV, dizendo: – Lamento informar que o jornalista Wladimir Herzog suicidou-se nas dependências do DOI/CODI.<br><br>Até uma foto dele pendurado numa corda apareceu nos jornais, numa das mentiras mais vergonhosas desse triste período da história de nossa política.<br><br>Nota oficial do Exército. O comando do II Exército lamenta informar o seguinte:<br><br>1 – Em prosseguimento de diligências que se desenvolveram na área do II Exército, que revelaram a estrutura e as atividades do comitê estadual do "partido comunista", apareceu citado por seus companheiros o nome do Sr. Vladimir Herzog, diretor responsável de telejornalismo da TV Cultura, canal 2, de São Paulo, como militante e integrante de uma célula de base de jornalistas do citado "partido".<br><br>2 – Convidado a prestar esclarecimento, apresentou-se acompanhado por um colega de profissão às 8 horas do dia 25 do mês fluente, sendo tomado por termo as suas declarações.<br><br>3 – Relutando inicialmente suas ligações e atividades criminosas, foi acareado com seus delatores, Rodolfo Oswaldo Konder e George Benigno, Jataí Duque Estrada, que o aconselharam a toda a verdade, pois assim já haviam procedido.<br><br>4 – Nessa circunstância, admitiu o senhor Vladimir Herzog a sua atividade dentro do "PCB", sendo-lhe permitido redigir suas declarações de próprio punho.<br><br>5 – Deixado após o almoço e por volta das 15 horas em sala desacompanhado, escreveu a seguinte declaração: Eu, Vladimir Herzog, admito ser militante do "PCB" desde 1971 ou 1972, tendo sido aliciado por Rodolfo Oswaldo Koder; comecei contribuindo com Cr$ 50,00 mensais, quantia que chegou a Cr$ 100,00 em fins de 1974 ou começo de 1975. Meus contatos com o "PCB" eram feitos através de meus colegas Rodolfo Oswaldo Konder, Marco Antônio Rocha, Luiz Weiss, Antônio de Brito, Miguel Urbano Rodrigues, Alberto Prado e Paulo Marcum, enquanto trabalhava na revista Visão. Admito ter cedido minha residência desde 1972; recebi o jornal "Voz Operária", uma vez pelo correio e duas ou três vezes das mãos de Rodolfo Oswaldo Konder. Relutei em admitir nesse órgão minha militância, mas após acareações e diante de evidências confessei todo o meu envolvimento e afirmo não estar mais interessado em participar de qualquer militância político partidária.<br><br>assinatura ilegível<br><br>6 – Cerca das 16 horas, ao ser procurado na sala onde foi deixado, desacompanhado, foi encontrado morto, enforcado, tendo para tanto utilizado uma tira de pano. O papel contendo suas declarações foi achado e rasgado em pedaços, os quais, entretanto, puderam ser recompostos para os devidos fins legais.<br><br>7 – Foi solicitado à secretaria de segurança pública a necessária perícia técnica positivando os senhores peritos a ocorrência de suicídio.<br><br>8 – As atividades do senhor Vladimir Herzog, desde sua chegada ao órgão do II Exército, não faziam supor o gesto extremo por ele tomado.<br><br>9 – As prisões até hoje efetuadas se enquadram rigorosamente dentro dos preceitos legais, não visando atingir classes, mas somente salvaguardar a ordem constituída e a segurança nacional. Sendo membro da religião judaica, Vladimir Herzog teria direito a solenidade religiosa dentro dos preceitos normais do judaísmo. Chamou atenção de todos que os principais líderes da religião não compareceram ao enterro, sendo representados por membros subordinados, que forçaram o sepultamento às pressas, o que foi feito sem que homenagens fúnebres daqueles preceitos religiosos fossem realizadas. Diziam eles que eram ordens expressas.<br><br>Wladimir Herzog fica como lembrança de um ser prestante à sociedade, como todo jornalista é, independente da sua ideologia política. Esquece-se de muita coisa. De Wlado é difícil.<br><br>e-mail do autor: [email protected]