O bolo de abacaxi da tia Norma

Eu sempre tive a certeza de que a tia Norma era a melhor madrinha do mundo. Eu já escrevi sobre ela nesse site, mas como a tia Norma é especial demais, volto a falar sobre ela.

A tia Norma é minha madrinha duplamente: de crisma, na catedral e de casamento, na Rua Frei Caneca, há 26 anos. Eu jamais conheci uma pessoa como ela, tão interessada pelos outros, pelas famílias, pelos estudos, pelas atitudes. Muito presente e tem um brilho no olhar que pode até dar inveja a muita gente jovem. Um olhar interessante e interessado.

Sempre participativa na vida da gente, esquenta pouco a cabeça, simplifica a vida.

Eu me lembro muito bem das festas na casa dela, muitos anos atrás, quando os seus dois filhos eram garotos; o Marco Antônio e o Carlos Alberto. Iam alguns poucos parentes, a minha família, algumas comadres e a festa ia muito bem, e numa das vezes chegou a ter um bailinho na garagem ao som da Jovem Guarda. Eram tempos de Roberto Carlos, da Ternurinha e do Tremendão.

As festas eram invariavelmente regadas a Coca-Cola. Mas o mais encantador, a sua marca registrada, era o bolo de abacaxi, grande, retangular, imponente e intocável no centro da mesa. Eu achava esse bolo mágico, lindíssimo! A cobertura dele era de um creme especial, elegante e que envolvia suavemente os cubinhos do abacaxi, e eu nunca comi nenhum bolo que parecesse com aquele. Pequena, eu olhava candidamente para ele, enquanto a mesa se mostrava farta de brigadeiros. Os melhores brigadeiros do mundo!

Num dos aniversários, os docinhos estavam tão bons que cheguei a perder a vergonha e me deleitei mesmo. Nunca mais me esqueci. Estavam lindos, redondamente apetitosos, perfeitos.

Cabe um pequeno relato sobre a história desse maravilhoso docinho: devemos, antes de tudo, agradecer ao sr. Eduardo Gomes, que, em 1950, disputou as eleições para a Presidência da República e foi derrotado pelo gaúcho Getúlio Vargas. Na época, o brigadeiro era considerado muito bonito e as moças o admiravam. Era uma paquera à distância, cheia de um romantismo tolo, idílico. As jovens resolveram, então, inventar o doce, pequeno, para consumo individual, vender por aí, na tentativa de arrumar algum dinheiro para engordar a sua campanha. Na capital, algumas moças mais atrevidas para a época chegaram a escrever nos muros: "Vote no brigadeiro. É bonito! É solteiro". E aí as moças, loucas por casar, iam falando dele, fazendo a sua modesta participação na vida política… e vendendo doces.

Assim, o doce genuinamente nacional, que veio das eleições de 1950, ganhou espaço garantido no nosso paladar. Viva Eduardo Gomes! Não chegou à presidência, mas por sua causa podemos nos deleitar… Voltemos à casa da tia Norma!

Ela sempre soube presentear muito bem. Ia à Praça da Árvore, visitava as lojinhas, fazia suas compras, e lá ia ela, entregando amorosamente um a um: "esse é pra ti, esse pra ti…". Como, numa das vezes, levou apenas uma lembrancinha para a minha irmã, disse: "isso, filha, é pra não ficares de beicinho pendurado!".

Dela, já ganhei de tudo: perfumes, roupas, maiô vermelho, que tenho guardado até hoje, anel e um broche de ouro, muitos livros, bijuterias. Ganhei o chá de cozinha completo, acompanhado de um fogão.

Adora dividir suas deslumbrantes experiências culinárias. Ela até faz algumas cópias em xerox para dividir as receitas com as afilhadas e comadres. Numa das cópias, ela terminava assim a redação: coloque a massa na forma, asse e depois coma, que é muito bom.

Nessa minha última viagem a São Paulo, me esperou com um arroz delicioso. O arroz que o Biro-Biro gosta, segundo ela. Uns ovos previamente fritos com pouquíssimo óleo divididos um a um, e, depois, o arroz já cozido é adicionado à mesma panela. Comemos em plena 3 da tarde porque foi a hora que pudemos chegar até a sua casa.

Eu espero ter a tia Norma comigo para muitos anos, mas tenho certeza de que, quando ela resolver ir embora, vai alegrar o céu como ninguém, vai fazer festa com a máxima alegria e oferecer seus quitutes e dar largas gargalhadas, conversar com todos, dando muitos palpites. Ela vai cuidar muito bem do fogão celestial. Até o mais depressivo vai se alegrar com a sua presença, achando a vida mais interessante e criativa. Vai fazer o arroz do Biro-Biro para os mais entristecidos, brigadeiro para os saudosistas que não conseguiram abandonar o paladar infantil, casquinhas de siri para os apaixonados pelo mar, mas o bolo de abacaxi vai diretamente ocupar um lugar de destaque no banquete celestial, celebrando as grandes tomadas de decisão, unindo risos, abraços calorosos, o grande sentido da felicidade, afagando o paladar de anjos, arcanjos, querubins e serafins.

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