Da janela do Sebo do Messias

Pelo segundo ano consecutivo tive a feliz oportunidade de entrar e me deixar cativar pelo Sebo do Messias. Na Praça João Mendes, bem ao lado da ilustre Padaria Santa Tereza, lá está o espaço acolhedor e fascinante.

Após um lanche saboroso na tradicional padaria, fomos direto ao nosso destino previamente estabelecido. O meu filho entrou primeiro, feliz e meio apressado, e olhou para o mezanino. Ouvi a sua exclamação: "não é possível!". Ele procurou, rapidamente, o violinista que, no ano passado, estava ali, no mesmíssimo lugar, executando belas músicas, acolhendo simpaticamente os visitantes. Era o mesmo rapaz. Do mesmo jeito, magrinho e compenetrado, lá estava ele cumprindo a sua doce tarefa.

Caminhamos pelos espaços possíveis, deslumbrados, e lentamente olhávamos tudo.

Na parte dos saudosos discos de vinil, consegui algumas preciosidades de Pedrinho Mattar. Comprei todas. Fui muito bem atendida pelo Carlos, prestativo e atencioso e que me disse o quanto gostava do Pedrinho. Conversamos um pouco sobre a sua vida, a arte e simpatia e também sobre a sua morte. Conversamos sobre a falta que um musicista daquela grandeza nos faz.

Ouvindo as considerações sobre o nosso artista, um senhor negro veio conversar comigo porque me entendeu sendo professora. Pegou minha mão, em sinal de cumprimento, e me agradeceu, dizendo que é necessário se agradecer a todas as professoras do país. Esse senhor tinha um olhar meigo e acolhedor. Operário, autodidata, conhecia muito bem a história do Brasil e me contou como, no seu tempo de infância, no interior da Bahia, chegou a primeira professora e passou a ensinar os pequenos. Ele jamais se esqueceu da primeira professora, sobretudo naquelas condições precárias, e passou a ser eternamente grato pelo esforço e competência despendidos pela mesma.

Continuei andando, visitando as estantes. Parei para folhear carinhosamente os livros de Mário Lago. Fui subindo e, pela primeira vez, tive a oportunidade de avistar a Praça João Mendes de cima. O movimento, a catedral, as pessoas andando apressadamente, os ônibus. Olhei para a esquerda, onde ficava a antiga Livraria do Povo, onde minha mãe e eu compramos, nos anos 70, a primeira edição do Dicionário Aurélio. Fomos nós duas especialmente ao centro da cidade, de ônibus, para comprar o Aurélio. Na época ficamos orgulhosas e felizes e, à noite, desligávamos a televisão para consultar o dicionário que nunca nos abandonou. Até hoje tenho um exemplar na minha mesa da sala. É como se eu pedisse a presença do ilustre mestre para os meus momentos de dúvidas… que são tantos!

Voltemos ao Sebo:
Do andar de cima, olhando para os fundos da catedral, minha imaginação rapidamente se voltou para a data mais perversa da história recente do país: 13 de dezembro de 1968 – o dia da imposição do amaldiçoado AI-5.

Naquele final de ano, já em férias escolares, minha mãe e eu fomos ao centro fazer as compras de Natal. Que surpresa amarga e tensa! Chegamos ao centro e percebemos a catedral tomada por militares armados e apontando metralhadoras para os passantes. Ombro a ombro eles se enfileiravam ali, em pleno marco zero da capital, sisudos e mostrando ostensivamente que a ordem era a da violência e do arbítrio. As pessoas corriam aparvalhadas, as lojas iam fechando as suas portas. Não sabíamos o que era aquilo. Quantas dúvidas e sobressaltos! O que fazer? Voltamos rápido para casa.

Somente à noite, ao assistir o Jornal Nacional, é que soubemos que o sr. Presidente Artur da Costa e Silva baixara o Ato e que as liberdades individuais não eram mais garantidas, a censura aos meios de comunicação estava na ordem do dia e a repressão política passou a ser vista como legal no país. De imediato todos os esforços democráticos não foram ouvidos, sequer considerados pelo poder. O contrário do imposto era sinal de subversão e ponto final. Do AI -5 veio de tudo: a arbitrariedade, prisões políticas, exílio, ameaças, escuta telefônica, assassinatos, tortura física e psicológica, desaparecimento (como é que alguém pode, simplesmente, desaparecer, meu Deus!), humilhações de toda ordem, pavor, pânico, e sobretudo luto, na sua forma mais cruel e crônica. Foi aí que se acabou com a educação pública no país. Foi a partir dali que a alienação criou raízes, se criou e se estabeleceu como algo dito normal.

Foi da janela do Sebo do Messias, em poucos minutos, que revi as coisas do tempo, de um passado que não pode ser esquecido, tem que ser mostrado, criticado, combatido. Deve ser sempre analisado, explicado, com a amplidão da letra de "O bêbado e a equilibrista", com a abertura impecavelmente sentimental: "caía a tarde feito um viaduto e um bêbado trajando luto me lembrou Carlito". Eu vi essa tarde caindo como um viaduto, o 13 de dezembro. O peso de um viaduto e os estragos duradouros, que não se apagaram.

Que bom que, antes das minhas amargas recordações, aquele senhor negro, operário e autodidata, sorriu para mim, conversou… e me agradeceu, muito embora eu seja tão pequena. Que bom que, naquele mesmo lugar, onde no passado o medo e as incertezas haviam tomado conta, eu pude comprar discos do Pedrinho com sabor de vida e esperança.

A mesma esperança que, um dia, dos lábios do grande Carlos Drummond, saiu a preciosidade: é preciso esquecer… para lembrar.

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