Os cavalos

Recebi uma mensagem curtíssima sobre cavalos, minha mente se voltou aos tempos de criança quando nos mudamos do Itaim Bibi para a Vila Olímpia, nada mais do que a extensão do bairro anterior.<br><br>Era um descampado tamanho que se contavam as casas nos dedos. O que mais tinha era terrenos baldios, e neles muitos cavalos. Sim, porque a tração animal, naquela época, era maior do que a tração motorizada.<br><br>Às cinco horas da manhã, quando estava a caminho de pegar a condução na Avenida Santo Amaro, a gente passava pelas picadas que cortavam os terrenos, e no inverno rigoroso que tinha nos anos 1950, e que geava muito forte, que ao caminhar estralava a grama de tanto gelo. Tinha, ao longo da caminhada, muitos cavalos mortos, completamente congelados. Uma pena. Podia até andar por cima deles que não afundava os pés, devido à espessura de gelo por cima dos corpos dos animais.<br><br>A profissão de carroceiro era muito grande naquele tempo. A maioria das coisas eram entregues por carroça. O pão nosso de cada dia era entregue pelo seu Campos, um português que vendeu a casa para meu pai, com uma carroça e um belo de um cavalo tratado a pão de ló. Além do padeiro, tinha o tripeiro, peixeiro e o verdureiro. A coleta de lixo era feito por tração animal, na base de quatro cavalos, dois à frente e outros atrás.<br><br>Meu primo Chico tinha uma charrete onde vendia peixe. Seu cavalo era um Alazão, de pêlo marrom, muito bonito. Tinha gente que tinha carroça com o cavalo a sua disposição, para ir até algum lugar para não depender de condução. Outros tinham somente o cavalo para passear, como era o caso do Paulo Rota, que se exibia com seu cavalo pela Vila Olímpia. Dentre os carroceiros tinha um amigo nosso, o Bigode, que num dia em que a tempestade vinha a todo vapor, pegou o Bigode e seu cavalo de "calças curtas". Ao final da Rua Dr. Cardoso de Mello, perto da Rua Raja Gabália, ainda com poucas casas. Um raio bateu na ferradura do cavalo e levou os dois à morte.<br><br>Os animais eram tratados como gente. O curral do Totó, onde a gente pegava o leite fresquinho toda tarde, além das vacas tinha também dois cavalos. Totó ia em cima de um e seu empregado em outro. Para levar as vacas pela manhã, e buscar à tarde, depois de comer o capim de cada dia, e leitar o leitinho das crianças. Dentre as quais, eu.<br><br>Os cavalos eram banhados pelo menos duas vezes ao dia, seus pêlos escovados, os cabelos (a crina) do pescoço penteados e cortados como se fossem ao barbeiro. O rabo também tinha a crina aparada, tal era o amor que aquela gente tinha com os animais. Muitas éguas tinham trancinhas, na crina acima do pescoço.<br><br>Um dia aconteceu que nem a mensagem que recebi. Um cavalo de propriedade do Hercules caiu num buraco, não tão fundo quanto ao da mensagem, que era um poço, mas para tirá-lo de lá foi um sufoco, e tudo foi feito para não machucá-lo. Muita gente se cotizou a ajudar e depois de muitas horas o cavalo veio ao são e salvo.<br><br>Quando das enchentes que aconteciam no verão, em que o córrego da traição estava quase à boca de água, os animais atravessavam e as águas, e por incrível que possa parecer, sem que a enxurrada os levasse.<br><br>Mas quando o progresso veio (anos 1970) e o córrego não mais existia, e sim a Avenida dos Bandeirantes, um Galaxie atropelou um cavalo que o dilacerou, na pista. Coisas da vida, que o progresso vai mudando.<br><br>No Jóquei Clube eu, como turfista, via nas cocheiras da Vila Hípica o carinho que os treinadores e proprietários tinham com os cavalos. Na verdade eles ganhavam muito com eles, que disputavam prêmios valiosos.<br><br>Um dia depois de um páreo, quando eu voltava para pegar meu carro no estacionamento, um cavalariço levava o cavalo de volta à cocheira. Ele ia conversando com o cavalo. Como se estivesse conversando com um ser humano. Legal, hein? Hoje você fez um terceirinho, na próxima fazer um segundo e não vai demorar chega em primeiro. Parou no box e deu uma ducha no cavalo, levando-o para a cocheira. Coisa linda de se ver.<br><br>e-mail do autor: [email protected]