Faz-se amizades lá nas alturas, voando enclausurados num tubo metálico cortando a noite estrelada sobre o deserto do Saara! Assim como os povos primitivos se ajuntavam por proteção em tribos, as pessoas se ajuntam com as suas ‘tribos’ para beber vinho lá nas alturas, para um bate papo às 3 da manhã, pois no calor humano fica mais fácil se esquecer quão alto realmente voamos, quão longe estamos do Brasil, e como a cada minuto a distância dos amigos, de São Paulo e da família, aumenta!
Somos, portanto, uma ‘tribo’ de Paulistas, varando a noite contando casos, uns juntos dos outros, todos indo embora. Lá naquele pequeno espaço viramos uma família, desterrados, já saudosos, um pouco amedrontados com os diferentes barulhos dos motores do avião, lembrando rostos e paisagens da nossa cidade lá longe.
Ah, São Paulo! Barulho, calor, bandeiras ao vento, quinquilharias à venda na 25 de Março, palmeiras no Anhangabaú, bancas de revistas e pão de queijo com cafezinho. Comida por quilo na Sete de Abril, o catador de papel sob o peso do seu carrinho, a criança vendendo doces, o carrilhão da São Bento. Avenida Paulista vestida de Natal, tão linda! Reveillon de luzes e sons, de fogos iluminando o céu do verão nesta mesma avenida que é a cara de São Paulo. Amigos se reunindo para uma pizza, tanta gente boa. Ah, São Paulo!
Mas precisamos ir. Lá embaixo, o deserto continua, sabemos disto porque o painel nos mostra onde estamos. Aqui dentro, porém, a confraternização continua. Tomamos mais vinho. Juramos amizades eternas que não sobreviverão ao próximo aeroporto. Mas somos todos Paulistas, e isto nos une contra o negror desta noite lá fora, contra a vastidão do deserto e contra os temores e incertezas do futuro.
Aqui dentro somos realmente irmãos.
e-mail do autor: [email protected]