Um modismo dos anos 60

A "coisa" foi assim:
Usufruindo a vidinha de burgueses de fim de semana, eu e meu irmão acordamos tarde naquele sábado quente de verão. A "nonna" diz: "Só um copo de leite e uma fatia de pão com manteiga. Senão vocês não almoçam.".

Com o copo de leite e o pão na mão, corremos à sala para assistir à televisão. Meu irmão grita para a "nonna": "Dove stà la mamma?" (Cadê mamãe?). Vovó responde lá da cozinha: "Ela foi à cidade, com teu pai.". "Foram fazer compras.".

Lá pelas onze e meia, chegam "mamma e babbo". E duas sacolas de barbante cheias de compras!

Sempre tive grande fascinação por aquelas sacolas, feitas em casa, em trama de rede. Quando vazias, pareciam inúteis. Bastava enrolá-las e colocá-las no bolso, ou dentro de uma bolsa. Iam às compras, magrinhas como uma tripa enrolada, e aos poucos elas iam "engolindo" tudo o que se comprava. Voltavam gordas, e como cabiam coisas dentro delas!

Mas, voltemos à narrativa. Meu pai entra, coloca as chaves do carro no aparador e vai para o banheiro lavar o rosto e as mãos. Minha mãe, transpirando, desmorona na poltrona e tira da sacola dois pacotinhos da Kopenhagen contendo – sabíamos de antemão – "gianduias", bichinhos de marzipan e uma barra de chocolate meio amargo. Entregou-nos com a recomendação de só abri-los após o almoço. Pegou um outro pacotinho da Kopenhagen e foi para a cozinha. Sabíamos, nele estavam os bombons de cereja com licor – a paixão da minha avó! Havia outro pacotinho dentro da sacola. E também sabíamos que dentro dele estavam os charutos de marzipan, comprados para o tio Amedeo, a criança-grande lá de casa… Esquecidos da televisão, eu e meu irmão "atirávamos olhares compridos" sobre as sacolas. O que haveria lá? Só depois do almoço saberíamos.

Findo o almoço, "barriga forrada", nós fomos para a sala, "desvendar" os mistérios das sacolas. Delas saíram cortes de calças e de camisas comprados à Eron Têxtil; uma infinidade de miudezas; meias e "mutandi" (cuecas) compradas na Casa São Nicolau; sabonetes ingleses (eram caros, mas duravam quatro vezes mais que os sabonetes nacionais), comprados na Casa Fretin; cortes de seda, nylon; revistas de tricô e crochê, compradas na Casa Genin. E dois pacotes das Lojas Americanas! O "moderno" batia à nossa porta e entrava em casa… Do primeiro pacote das "Americanas" sai um grande vaso alto, transparente, do tipo tulipa de beber chope, todo lapidado. Era da Cristaleria Prado? Não, era vidrão mesmo! Vidrão com pretensões a cristal. Do outro pacote saem duas dúzias de rosas de plástico, perfumadíssimas.

Minha mãe falava à vovó que tudo agora (naquele tempo) era mais simples. Nunca mais flores de papel-crepom, que aturavam pouco; nunca mais flores de seda ou pano, que logo sujavam e perdiam a "goma"; nunca mais flores de cera ou massa, que precisavam de redomas de vidro e emboloravam com facilidade. E que, mais baratas, as rosas de plástico poderiam substituir muito bem as flores naturais. Falou o quanto eram duráveis, e bastava lavar, ficavam novinhas "em folha", e elas não perdiam o perfume! Minha mãe daria uma ótima vendedora ou garota-propaganda, como a Idalina de Oliveira. Foram para a cozinha lavar o vaso.

Minutos depois, encimado por duas dúzias de rosas vermelhas perfumadas, jazia o vaso sobre a mesinha de centro.

Na cozinha, minha "mamma" e a "nonna" lavavam a louça. Meu pai, na sala, lia o jornal junto à janela. Eu e meu irmão, finda a emoção provocada pelo conteúdo das sacolas, devorando os doces, voltamos a nossa atenção para a TV. Tio Amedeo, depois de umas caipirinhas e do almoço, foi para o quarto tirar um cochilo. O "nonno" foi jogar "bocha". E rosas vermelhas de plástico perfumavam o ambiente.

E como perfumavam! O perfume das rosas alastrava-se pela casa, como que a dizer: "Estou aqui.". Mas, nem precisava "dizer", o cheiro era forte demais… Meu pai levanta-se da poltrona e vai ler o jornal no quintal. Tio Amedeu sai do quarto, de mau humor, e grita para minha mãe e para vovó: "Que "cazzo" de cheiro é esse!". "Esta casa tá cheirando a perfume de putana de zona". Pega a carteira e diz: "Vou lá no bar, jogar dominó.". Eu e meu irmão, sofrendo o efeito do "aroma" embriagador, desligamos a TV e fomos para a rua.

Lá fora, o sol ardente estatelando-se por toda parte. Quase nenhuma sombra onde se abrigar. Nem vento, nem brisa sobre árvores. De repente tudo muda. Nuvens altas e escuras que se via ao longe foram trazidas por um vento forte e repentino. As nuvens baixaram e o céu abriu-se em forte tempestade. Desaba o mundo entre raios e trovões. Corremos para dentro de casa. Tio Amedeu entra "molhado como um pinto" – não queria perder o jogo na TV. Meu pai entra também e o "nonno" liga, dizendo que vai ficar por lá, na "bocha", até a chuva passar. Trovões fazem a casa tremer. Portas e janelas são fechadas. Lá fora, o dilúvio. Dentro de casa o ar tornara-se quente e abafado, difícil até de respirar. E, sobre a mesinha de centro, um vaso com duas dúzias de rosas vermelhas perfumadas…

Como nas flores naturais, parece que aquele "clima de estufa" foi benéfico às rosas de plástico. Seu perfume ascendeu, intensificou-se mais e tomou conta da nossa casa. Impregnou tudo. Ou melhor: Empestou o ambiente.

O "babbo" levantou-se e abriu a janela da sala. Minha avó grita que a chuva vai molhar tudo, ao que meu pai responde: "Que inunde! Eu é que não vou morrer sufocado!". Meu irmão empalidece e lança sobre o tapete um jato de vômito. Eu já estava com o nariz escorrendo e espirrando muito. Minha mãe pede à minha avó para trazer um pano para limpar o vômito e o vidro de Benadril para "cortar" a minha rinite. Aproveita e toma uma colherada – sujeita às reações alérgicas, minha mãe estava vermelha como um pimentão.

A chuva fazia grande estrago na cidade. O jogo fora adiado até quando parasse a chuva. E tio Amedeo desanda a brigar com a TV: "Isso, adia o jogo!" "Esses "finocchi" (viados) não podem tomar chuva, vão ficar resfriados!". "Mà, "putana troia", se tivessem culhões jogariam até em meio a um terremoto.".

Minha avó chama-lhe a atenção e tio Amedeo pede desculpas e vai dizendo: "É o jogo que para. É essa chuva e esse maldito cheiro de "putana" de zona!". "Sabe o que eu vou fazer, mamma?". "Sabe?". Levantou-se, pegou as rosas do vaso, e completou: "Vou jogar essas malditas no lixo!".

Minha avó grita em desaprovação: "Não faça isso! A Annamarì as comprou com tanto carinho…".

Minha mãe corta a fala da minha "nonna" e diz rápido: "Vai, Medé!". "Pelo amor de Deus, joga no lixo e fecha a tampa.". "Eu não aguento mais!". "Vai, tira isso daqui!". Tio Amedeo não perde tempo, sai para o quintal no meio da chuvarada e joga no lixo as modernas e práticas rosas vermelhas de plástico perfumadas.

Assim como veio, a chuva parou de vez. Foram-se as nuvens e o sol apareceu. E foram-se as rosas… Portas e janelas da minha casa foram abertas para que o ar entrasse. Na TV, tem início a partida, o "nonno" chega e as atenções se voltam para o futebol. Na cozinha, a "nonna", que parecia ter passado incólume ao efeito das flores, manda goela abaixo duas aspirinas para curar a dor de cabeça que sentia. E vovó dificilmente se queixava de dores de cabeça.

Dormimos com as janelas abertas, sujeitos aos ataques das graciosas "Periplanetas Americanas" – aquelas baratonas voadoras que surgem, aos montões, nas noites de verão. E sujeitos, também, às picadas dos pernilongos que enchiam os nossos quartos com sua alegre sinfonia. Não havia "Flit" ou "Detefon" que os abatessem.

Na manhã seguinte o perfume das rosas se fora, mas deixara no ambiente um bodum enjoativo. Vovó não perde tempo, ajunta em maço os ramos de alecrim seco, põe fogo e defuma a casa. "Melhorou um pouco.", diz a minha "nonna". Ao que tio Amedeo responde, com uma das suas tiradas hilárias: "Sim, agora tá cheirando a "putana" perfumada, em fim de noite, numa cantina do Brás!”.

Na segunda-feira, o lixeiro levou as rosas. Benditos sejam!…

Aqui eu encerro a minha história com uma advertência: se a modernidade bater à sua porta, não atenda, não abra.

E deixo também, em uma frase, a moral dessa história: cuidado! Modismos podem fazer mal à saúde.

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