Já alfabetizado, aos sete anos de idade, iniciei a ler. Lia livros, isolado no meu próprio quarto. Mesmo soletrando tudo, o que via lia. Quando recebi a notícia, iria partilhar o cômodo com um tio meu, um tio que não conhecia.
Um dos doze irmãos da minha mãe receberia guarida em casa. Meu tio Miguel, um dos primeiros imigrantes da família a retornar da Espanha, se hospedaria no cômodo que até então era só meu. Arranjaria emprego, trabalharia, enquanto não trouxesse a namorada espanhola e casasse.
Todas as cartas que ele recebia da namorada da Espanha, e esquecia aberta, no criado mudo, eu lia. O que não entendia de castelhano, meu pai traduzia. Encantava-me com as juras de amor, o martírio da paixão, pactos de amor e afirmações de fidelidade. Tudo com um tempero flamenco. E o colorido de Almodóvar. Nas correspondências de retorno ele a convidava a casar no Brasil. Em todas as cartas enviadas havia um clamor, um convite, uma chamada. Até que a carta saiu. Saiu a Carta de Chamada. Documento fundamental para se conseguir entrar no Brasil. Havia a necessidade de alguém se responsabilizar pela vinda do imigrante. Foi o que ele fez.
Conchita desembarcou no porto de Santos. Chegara do município de Salobreña, da província de Granada, comunidade autônoma da Andaluzia, na Espanha. Foi morar no bairro do Brás, em quarto e cozinha que haviam ajeitado para o casal, em frente à minha residência, o cortiço onde morava.
Era uma linda morena, cabelos negros, exalava ternura, doçura, suavidade, apesar de toda simplicidade e ingenuidade. Viera de um pequeníssimo povoado da Espanha.
Deslumbrou-se com o bairro. Saía com as blusas de cavas, que deixavam escorregar as alças do soutien. Minha mãe advertia: Concha esconde lãs tirantas que és muy feo. Meu tio a advertia. No quiero que salga de casa (Não quero que saia de casa).
A avidez em conhecer o bairro não permitia que obedecesse… Até que um dia perdeu-se. Entrava na Rua Carneiro Leão, seguia pela Azevedo Junior, saía na Rua da Figueira, retornava pela Rua Visconde de Parnaíba, entrava novamente na Carneiro Leão, saía pela Rua Sobral, desembocava na Rua Caetano Pinto. Perdida, e sem recordar o nome da rua em que morava. Encontrou-se, eram 19h00. A rua escura, iluminação reduzida, veio chegando aos poucos depois de andar horas. Meu tio, possesso, sentado em volta da mesa do cômodo da casa (era sala e quarto ao mesmo tempo), acendia um cigarro em outro. De cima do teto de madeira pendia um fio, que terminava próximo à mesa, com a lâmpada presa a um interruptor de corrente elétrica com a forma da fruta do mesmo nome: pêra.
Eu entrava e saía do cortiço, aguardava o início da cena que se antevia, naquele romance latino, com aspectos da dramaturgia mexicana. Acompanhara o início do idílio, não pretendia perder o provável fim.
Ela entra no cômodo toda penitente. Ele dá um urro e um murro na mesa. Eu observava atrás da porta. Ela perde perdão em castelhano:
Perdona-me, Miguel. No iré más salir.
(Perdoa-me Miguel, não irei mais sair.)
No te perdóno, Concha te avisé para no salir de casa.
(Não te perdôo Concha, te avisei para não sair de casa.)
¡No! perdona me, Miguel.
(Não! Perdoa-me, Miguel)
Él contesta No:- ¡Ja no te quiero!
(Ele responde não: – Já não te quero)
Acabaram se perdoando, se amando, e tendo dois lindos filhos. Hoje o casal mora no céu, provavelmente juntos.
Eu nunca mais esqueci aquela passagem. Ficou gravado em minha retina o drama daquele bolero mexicano. Por isso, sempre que ouço "Cuatro Palabras" com Roberto Yanes, lembro da cena, de cinquenta e cinco anos atrás…
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