Quando as estátuas falavam…

E ainda algumas continuam falando. Quando começaram a escavar metódicamente a velha Roma, maravilhas surgiam da terra. Estátuas tão preciosas, que nem parecia terem sido
esculpidas por povos pagãos e guerreiros,ímpios que não deveriam poder mostrar tanta arte e sensibilidade.

Mas, elas ali estavam, e rapidamente viraram presas de ricos colecionadores do Renascimento.
E se todos os caminhos levavam a Roma, grande parte deles passava pela Praça de S.Pedro.
Daí, adentrarem os muros dos Museus Vaticanos era só um pulinho.Algumas podem ser vistas em cópia,aqui em São Paulo mesmo. O Augusto da Prima Porta, no Lgo.do Arouche.

No Ibirapuera, o magnífico conjunto escultural de Laocoonte,o que teve a ousadia de avisar os troianos dos perigos de se receber um cavalo de pau de presente,e foi estrangulado por cobras divinas,junto com seus filhos.Creio que em Roma foi desencavado da inacabada Domus Aurea, de Nero.

Essas eram como a Vênus de Milo,a Vitória de Samotrácia e a Vênus Capitolina,obras primas em bom estado. Muita maravilha se perdeu para sempre,mas surgiam estátuas mutiladas, que nenhum museu aceitaria,e lá foram ficando expostas nas praças de Roma.Como ainda assim atraiam atenções, o populacho passou a usá-las como porta-vozes dos desprivilegiados.

Com cartazes portando dichotes e ironias,castigavam os poderosos e protestavam contra as desigualdades.Lá continuam,com nomes populares:Pasquino,Babuino,Madama,
Il Pie di Marmo.São as "estátuas falantes",tradicionais e motivo de grandes festas.

Carlos Heitor Cony publicou, na Folha, um artigo:"As estátuas falam". Mas não fala das estátuas paulistanas, que, ao que parece, permanecem mudas,abismadas com as transformações da cidade e as mudanças violentas a que são submetidas. Existem exceções; muita gente jura que as do monumento do Ibirapuera reclamam o tempo todo- "Ei,não me empurra"!

Mas que diriam as modestas ninfas do Trianon, retiradas da unidade de seu esplêndido cenário original?Aretuza,colocada dentro do parque,parece não ter do que reclamar.Como uma Eva no Paraíso,está em total harmonia com a natureza, e melhor,totalmente livre do terrível"pecado original".Exibe sua magnífica nudez,e os incomodados que se retirem.

Mas, e Nostalgia? Sua posição torcida e sua testa baixa demonstram enorme solidão e desolação.
Como uma versão feminina do Pensador,de Rodin..A dor do Paraíso Perdido,ou uma triste reflexão pelos rumos que São Paulo lhe destinou,entre caminhões e carros apressados,e pessoas de má catadura olhando-a com desejo,ou ódio.

Vê-la causa profundo sentimento de piedade,de tentar defender a pobre ninfa. da destruição iminente.Mas como?As estátuas aqui não falam,e as vozes levantadas por seus defensores perdem-se no ruído,que deixa as pessoas surdas.E cada vez mais cegas e insensíveis. Mais fechadas em seus pobres mundos,feios e mesquinhos.Até que a cidade toda fique assim, como êles.