Pegando mulher

Vamos pegar mulher? Era assim que se falava antigamente quando íamos tentar conquistar uma moça. Diferente de hoje, que se diz paquerar.<br><br>Eu um dia me olhei no espelho e vi que era feio. A dona Iésse, nossa vizinha, tinha razão. Eu tinha cara de macaco. Então tive que bolar uma estratégia para conseguir ganhar uma "mina". Na frente do espelho, esquentando o "melão", cheguei à conclusão de que se fosse esperar uma mina me dar bola ia morrer solteiro.<br><br>Então o negócio era ir com a cara e a coragem, com tudo pra cima delas. Fiquei especializado em falar algo diferente do que diziam muitos rapazes, que quando se aproximavam das moças diziam: – Que dia bonito, não? Será que não chove amanhã? Eu inventava assuntos relativos ao momento que estava passando. Por exemplo, passando um cachorro buldogue, com rabo cortado, ia dizendo: – Que belo para de bago, hein?<br><br>Gostava de ir à cidade (centro) para pegar mulher. Adorava quando estava garoando, coisa muito comum naquela época. Ficava de olho numa moça que estava de guarda chuva. Uma que fosse bonita, é lógico. Feia na Vila Olímpia tinha aos montes. Então eu me aproximava e dizia: – Posso pegar uma carona em seu guarda chuva? Normalmente a resposta era sim.<br><br>Então, papo vai, papo vem, e pronto, uma amizade estava se iniciando. Dali pra frente tudo dependia de um acórdão, coisa de sindicalista.<br><br>Fui para tantos lugares que nem conhecia, porque estando no centro da cidade a gente podia ir para qualquer zona da cidade, a que mais eu ia era para a zona leste. A Mooca era o bairro que mais visitava sem querer. O ruim é que na Rua da Mooca as casas não tinham quintal e muito menos portão. Eram casas italianadas, com a soleira já na rua. Então, uma conversa pela madrugada, mesmo em tom baixo, o que para mim era difícil, pronto: já vinha um gordo careca encher o saco. Já pra dentro, sua sem vergonha!<br><br>Outra coisa que eu gostava de fazer dentro do plano de estratégia era dar uma cabeçada na beirada do guarda chuva que protegia uma delas. Logo em seguida, colocava as duas mãos no rosto e a moça, apavorada, queria de todo jeito saber se não tinha furado o meu olho. Meus amigos. Quanto carinho recebi de mãos sedosas. Até beijo nos olhos recebi, sem falar nos seguidos pedidos de desculpas. Daí para frente o papo estava liberado.<br><br>Tinha também os contratempos. Muitas vezes surgiam xingamentos. Sai fora, cara, não se enxerga? Em algumas vezes a moça era casada, e não dava para ver a aliança. Pelo sim pelo não, vâmo que vâmo!<br><br>E assim rodava pela cidade. O dia mais gostoso e que fervia de mulher era aos domingos à noitinha, em que todos iam ao cinema.<br><br>Um domingo, lá pelas 21 horas, estava já indo pegar o buzão para a Vila Olímpia, surge uma daquelas de sacudir o coração. Como era bonita a "desgraçada", e muito educada, um sorriso angelical. O papo foi fácil, uma conversa gostosa. Paramos perto de um prédio no início da Avenida Nove de Julho, em frente a Praça da Bandeira. A conversa, bastante agradável, e eu, babando diante daquela beleza de mulher.<br><br>De repente, pelas minhas costas, vem um sujeito alto, gordo e careca, pega ela pelo braço chamando-a de vagabunda, e de dedo em riste na minha cara disse: E você, espera aí, seu f.d.p.! Levou-a prédio adentro. E eu ali, em saber o que estava acontecendo. Pensei: Vou embora, que katso vou ficar fazendo por aqui, dando uma de trouxa?<br><br>Mas deu um estalo. Vou pagar para ver, afinal já tinha encarado outras encrencas. Eu não ia perder aquela chance de ficar sem uma história para contar no futuro, e que estava acontecendo naquela noite de domingo de 1963.<br><br>Daqui a pouco surge ela com uma tremenda mala na mão, chorando copiosamente. Perguntei o que estava acontecendo e ela me disse que estava sendo jogada no olho da rua. Sabe, ele tinha dado um lugar para eu morar em seu apartamento até me arrumar na vida, e ficou enciumado ao me ver conversando com você, e me deixou na rua da amargura.<br><br>Aí que fiquei sabendo que ela era do interior e morava com ele, que na certa pensava em ser seu proprietário, e não gostou de o dégas aqui querer ser seu sócio. Fiquei penalizado e com a culpa pelo que aconteceu com ela. Afinal, se eu não fosse atrevido, nada daquilo teria acontecido com a coitada. Tinha que fazer algo para ajudá-la. Ela, por sua vez, dizia para eu não esquentar cabeça, pois daria um jeito na vida. Ia ficar num hotel e no dia seguinte ia pensar no que fazer. Mas eu, de qualquer maneira, queria ajudar, para pelo menos aliviar o estrago.<br><br>Ela trabalhava de garçonete num boteco na boca do lixo. Então marquei com ela ao final do seu expediente de trabalho no dia seguinte, segunda-feira, às 20h30min.<br><br>Fui para casa pensando no que ia fazer. Veio a minha cabeça de arrumar um emprego a ela. Aquela mulher não tinha perfil de garçonete. Ali eu não ia deixar ela ficar.<br><br>Comprei um jornal Diário Popular, que era o veículo em que os classificados de trabalho eram muito bons. Olha daqui e ali, vira páginas e vi um anúncio. Precisa de empregada doméstica para dormir no emprego. Tratar pelo telefone, com dona Laura. Pensei: Esse é jogo. Para quem não tem onde morar e trabalha num boteco da boca do lixo de garçonete, isso aqui é um filé.<br><br>Liguei para lá. Alô. É dona Laura? Sim, foi a resposta. Bom dia, senhora. Vi seu anúncio no jornal e quero saber se já arrumou a empregada que está pedindo.<br><br>- Não arrumei, não. Por que, é você quer trabalhar, por acaso?<br><br>- Não, senhora, estou ligando pela minha prima que veio do interior e mora com a gente provisoriamente até arrumar emprego. Olha, dona Laura, é uma moça prendada, sabe arrumar a casa, até comida sabe fazer, e nunca trabalhou na casa de ninguém, pois está chegando agora a São Paulo.<br><br>- Faz o seguinte, meu rapaz, traz ela aqui para falar comigo.<br><br>- Posso ir à noite? Pois eu trabalho e não posso ir durante o dia.<br> <br>Tudo acertado com dona Laura, só faltava saber se a Márcia ia querer. Cheguei no boteco às 20 horas e pedi um refrigerante, para não dar bandeira que estava esperando ela, que ao me ver era todo sorriso. Os caras olhavam para ela com a mão no bolso, mexendo em algo. Falei baixinho a ela. Olha, arrumei um negocião, acho que você vai gostar. Logo ela saiu, e eu contei que era um trabalho de empregada doméstica. E ela ia morar no emprego, que além de ganhar um salário não ia pagar aluguel. Coisa melhor vai ser difícil.<br><br>Ela aceitou na hora, esfregando as mãos, de alegria. Tomamos o ônibus e fomos para a Avenida Indianópolis, por perto do Colégio Alexandre Levi, se não errei o nome.<br><br>Chegamos depois das 21h30min, era uma mansão. Quem veio nos atender era uma menina moça, muito linda, que foi dizendo: Mamãe já está deitada, mas mandou você entrar e ir lá no quarto dela, conversar.<br><br>Enquanto a Márcia subiu a escada fiquei naquela enorme sala sozinho, com num silêncio de arrepiar. Ainda bem que tinha um jornal para ler. De repente ouço uma barulheira danada, era o marido de dona Laura que chegava com outros filhos, ao me ver na sala me cumprimentaram com sorrisos, sem perguntar quem eu era e o que estava fazendo ali. Foram todos a outro compartimento e continuei sozinho na sala. Aí vejo a Márcia, descendo a escada de mármore de carrara, com um sorriso nos lábios, acompanhada pela moça que nos atendeu, já sendo cumprimentada pelos recém-chegados da rua.<br><br>Ao sair ela me disse que tinha acertado tudo e que ia começar no dia seguinte. Bem, já estava contente por ter feito algo. Daí pra frente não mais a vi.<br><br>Eu trabalhava por perto de onde ela estava trabalhando, e um dia me encontrei com ela por acaso. Fiquei sabendo que ela estava se dando muito bem com a família que a tratava como se fosse uma filha.<br><br>- Mário, é uma família muito linda, muito católica. Até na missa vou todos os domingos com ela e as filhas. Confesso e comungo. Minha vida mudou muito, graças ter te conhecido.<br><br>Dai por diante não mais a vi. Um ano depois foi que a encontrei novamente. Então rolou, pela primeira vez, um idílio.<br><br>e-mail do autor: [email protected]