Memórias Paulistanas II

Hoje tive de ir novamente ao Poupatempo da Praça da Sé, depois de resolver o problema que me levou até lá, me preparei para ir à Ferraz de Vasconcelos, onde, atualmente, estou executando um trabalho profissional.

Atravessei a Avenida Rangel Pestana e ganhei a calçada do outro lado, fui em busca de uma banca de jornais para comprar um exemplar, o trajeto até a empresa é longo e o jornal me ajuda a passar o tempo.

Compro o matutino e, antes de guardá-lo na pasta, olho ao meu redor, uma imagem se forma, eu me assusto e volto olhar para o mesmo ângulo, nada vejo agora, mas tenho a certeza de ter visto um monumento bem no início da praça, na altura da Rua Direita.

Será que minha imaginação me traiu? Tenho certeza que não. Forço pela lembrança e vejo, então, a imagem que me abalou. Era, sim, um velho monumento, ou melhor, um velho relógio que por muitas décadas ali ficou encravado.

Era o relógio da Praça da Sé. Aquele que dentre muitas e variadas homenagens foi cantado por Caco-Velho no samba que dizia: "Não faça hora comigo que eu não sou o relógio da Praça da Sé… pois é…".

Era um marco da paisagem central da nossa São Paulo. Como também foi um marco paulista o cantor Caco-Velho, o "Sambista Infernal", o cantor que tinha uma cuíca encravada na garganta.

Caco-Velho, nascido Matheus Nunes, lá pelas bandas de Porto Alegre, que muito cedo se radicou nesta cidade (morou até na Bela Vista), fez sucesso, viajou pelo mundo e faleceu nesta terra de Piratininga, em cima do leito 141 do HC, em 14.09.71.

Este negro, alinhado e vaidoso, levou o nome de São Paulo aos píncaros da glória, E, lógico, acho que se faz justa esta homenagem. Cantor querido que teve seu nome artístico plagiado de uma música de Ary Barroso, que abaixo transcrevo a letra para, também, homenageá-lo nesta semana do aniversário de Sampa.

CACO VELHO

Reside no subúrbio do Encantado
Num barracão abandonado
João de tal, cabra falado.
Dizem que viveu fora da lei,
Foi um rei
Que zombava da morte
E tinha um santo forte
No meio da gente bamba
O seu prazer era tirar um samba
Pulava, dava rasteira
Topava briga de qualquer maneira
Mas hoje é um caco velho
Que não vale nada
Tem a cabeça branca e a pele encarquilhada
Faz até pena ver o seu estado.
Pobre coitado
A vida é essa,
É um segundo que se esvai depressa.
Todos nós temos o nosso momento
E, depois dele, só o esquecimento…

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