(ou, Como um estúpido bocudo perdeu o seu ovo de Páscoa)
O velho ditado vitoriano deveria ser dito ao contrário: Adultos são para serem vistos e não ouvidos!
Fosse assim, as crianças estariam a salvo de muitos males. Principalmente eu que vivia prestando atenção ao que os adultos diziam. E os tais adultos, nesse caso, eram os amigos do meu tio Amedeo. Falavam eles sobre as procissões e se divertiam descrevendo os "santarrões" e as beatas que as integravam: Eles, uns paus d'água , desbocados que viviam mexendo com as mocinhas. Elas, todas "mexeriqueiras". E os "amicci" falaram muito, muito mais… Davam uma visão diferente daquela que eu tinha sobre as procissões. Contavam certas passagens que me faziam rir desbragadamente.
Há muito tempo as procissões foram banidas dos grandes centros, e algumas foram restringidas a um quarteirão no entorno das paróquias.
A que eu sempre via passar, aqui na Mooca, tinha um percurso longo: era a procissão da "Chiesa della Madonna del Buon Consiglio" (Igreja de Nª. Srª. do Bom Conselho). Um quilômetro e meio de percurso. E na procissão, toda uma rica parafernália representativa dos passos e morte de Jesus.
Nesta Sexta-Feira Santa de 1960, fui preparado para ver a procissão por outro ângulo e para constatar se certa passagem era falsa ou verdadeira… Ah! Esses adultos!
O trajeto da procissão começava a ser interditado às cinco da tarde. Às seis saía a procissão. Eu, minha mãe e minha avó estávamos desde as seis junto ao cordão de isolamento, na esquina da rua de casa… Algum tempo mais, ouve-se o cantochão fúnebre; mais um minuto e a procissão surge diante de nossos olhos. O padre, os coroinhas, o sacristão; pálios e bandeiras de irmandades; imagens identificam os "passos" de Jesus. No andor, carregado e ladeados por membros da congregação de Cristo, vem a imagem de Jesus açoitado. Mais além, surge, após a representação da queda de Cristo, a Verônica que, abrindo um pergaminho, canta com voz carregada de dor e sofrimento. E atrás da Verônica estavam várias mulheres, todas de preto, com véu espesso sobre as cabeças…
Foi aí, nessa passagem que eu, nos dizeres atuais, "dancei bonito". É que os amigos do meu tio contaram que atrás desses espessos véus estavam as 'biscates' mais conhecidas da Mooca, as 'putane' de vida alegre, as moças que deram um (para eles bom) 'mau passo' e certas senhoras casadas (na opinião deles muito gostosas) que haviam praticado o adultério. Elas expunham-se ao "julgamento público" (Expostas? Como assim? Cobertas até os pés? Nem as mãos se podiam ver?)… Eram as tais 'Madalenas Arrependidas'. Arrependimento que os "amicci" do titio diziam durar até o fim da procissão.
Eu, querendo mostrar que tinha mais conhecimento que a minha mãe e vovó (aqui foi a minha queda), digo, gritando de satisfação: "Nonna! Mamma! Guarda le putane!" (Vovó! Mamãe! Olha as putanas!). Um forte tapa na boca, dado pela minha mãe, quase me faz engolir os dentes. Olhei ao redor e vi mulheres me olhando com olhos que diziam "Massacra!" e vi homens que mordiam o lábio inferior para não explodirem de rir. Mudo assisti à procissão até o final da sua passagem. Só em casa minha mãe percebeu que meu lábio sangrava.
Tratam o corte do meu lábio, dão-me um pano com uma pedra de gelo para pôr em cima e evitar o inchaço e começam as perguntas: Quem foi que te ensinou essa barbaridade? Quem disse isso a você? Quem daqui, quem dali… Quem de lá… E eu, "mudinho da silva". A paciência limitada da minha avó se extingue: "Não vai falar, não quer falar e eu sei por que! Esse "bestia" está protegendo o Amedeo! Uma coisa dessas só pode ter vindo daquele "stronzo"!".
"Amedeo! Amedeo!" – lá se vai a "nonna" até o quarto do meu tio. E o bate-boca que começa lá termina na sala. Meu tio olha na minha cara, como quem perguntasse algo. Eu movimento a cabeça em negativa. E a "nonna" falando, falando. Jogou na cara do meu tio que ele era uma influência nociva para mim. Titio ofendeu-se. E eu gritei, calando a minha avó: "Juro por Deus que não foi ele! Ouvi a história de uns homens que estavam jogando "trucco", lá no bar.". Menti. E, sob pressão, como eu era bom nisso!
"E por que não disse antes, "stronzo"?", pergunta a minha mãe. "Porque sei que nem a senhora e nem a "nonna" gostam que eu fique na porta do bar e nem que eu fique vendo os homens jogando.".
A "nonna" desculpou-se com o meu tio, não sabia o que fazer para reparar as palavras duras que havia dito a ele. Desculpou-se como podia e, para se safar, direcionou toda a sua raiva contra mim. Ouvi palavras dramáticas do quanto eu a fazia sofrer e o quanto ela se sacrificava por mim, pelo meu bem-estar… Coisas que mães, avós de todos os tempos diziam, dizem e dirão…
Aproveitando um momento de calmaria, meu tio diz: "Vem "Ciccio". Vamos ver se a padaria está aberta. Eu quero comprar sorvete." Saímos.
Na rua, ele me diz: "Mentirinha mais esfarrapada aquela tua. Quem foi que te contou essa história da procissão?". Eu respondo: "Foram os teus amigos!". O "zio" cai na gargalhada: "Mas que amigos mais f… d… p… que eu tenho!"… "Eles te falaram sobre 'as mulheres de padre'?". "Não?". "Então eu te conto…".
E lá estávamos nós, descendo a rua, eu ouvindo e ele enchendo a minha boca dolorida de risos e a cabeça de "cacca"… E a padaria estava fechada.
Em casa, meu "nonno" e meu pai nos esperavam. Pensei comigo: "É hoje que o couro vai cantar". O "babbo" fala comigo em voz pausada: "O que você fez hoje foi muito grave e triste.". "Foi uma falta de respeito a Jesus.". "Não vou bater em você e nem castigar. Mas pelo que você fez hoje, não vai ganhar um ovo nesta Páscoa.".
Pensei "Como não vai me castigar? Está me dando o pior castigo.". Nada a fazer, senão resignar-me. Meu pai nunca voltava atrás.
Antes de sair da sala, vi papai e vovô olhado um para a cara do outro, mordendo os lábios inferiores – como os homens na procissão – para não caírem na gargalhada. Desabafei com o meu tio: "Cazzo! Eles me castigam e ainda riem da minha desgraça!". O tio pisca um olho para mim e diz: "Agradece a Deus por ter perdido o ovo de Páscoa e não os "teus"…".
Tio Amedeo era um sábio. Muito sensato.
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