Nossa infância foi maravilhosa na Rua da Consolação, entre Avenida Paulista até a Rua Estados Unidos.
Foi uma turma de sucesso, mas hoje eu vou falar de um amigo. Apelido: Salsicha. Crescemos juntos, veio a mocidade, ele casou, teve filhos, um bom pai, trabalhador.
A gente bebia socialmente e, de repente, ele começou a beber demais, em pouco tempo já era alcoólatra. Como todo bêbado, perdeu o emprego e a família.
Por mais que nós ajudávamos, não tinha solução. Passou a dormir na rua e dentro do Cemitério do Araçá, dentro dos túmulos. Fazia frio, chuva, ele não queria sair.
Depois de alguns anos eu estava sentado dentro de um ônibus, e ao meu lado um cidadão lia o Noticias Populares, e na primeira página, em letras garrafais, “Morre de frio dentro do Araçá”. O cidadão comentou comigo sem saber que era o meu amigo: “um indigente a menos para encher o saco, o Lacerda que estava certo no Rio de Janeiro, jogou todos no mar.”.
Desci do ônibus em lágrimas, entrei na primeira igreja, na Santa Generosa, no Paraíso, rezei por sua alma.
Descansa em paz, meu amigo.
e-mail do autor: [email protected]