Os tempos já se vão muito longe, e eu não mais estou naquele que fora o meu bairro de origem, o Bixiga (paixão recolhida que guardo no peito). Não "dessãopaulatizei" e nem "desbixiguei". Ainda tenho a mesma aura "paulistana" que, como Gilberto Gil, me deu a régua e o compasso e, daqui, de terras soteropolitanas, mando minhas memórias pra este site.
Com isso, venho atravessando 35 anos de sofrida ausência, sem que, neste período, botasse os pés na paulicéia. É saudade, viu, seu moço.
E das muitas saudades que acalento na alma, uma delas era de quando, ainda garoto, no café da manhã, minha mãe preparava a nossa refeição matinal (café com leite – de garrafa -, pão com manteiga – vez por outra uma fatia de queijo e presunto), com o "filão" quentinho, da fornada da padaria da esquina (que não, variavelmente, pertencia a um português e, nesse caso, era o "seu Manoel").
Mesa posta, café quentinho, leite fervido, a contenda com o meu irmão Fernando (o velho "Bugega") se dava pelo tal "bico do pão". Claro. O "filão" tinha dois bicos, mas um era sagrado de meu pai. Já o que sobrava ficaria para ser disputado entre eu e meu irmão que, na maioria das vezes, sagrava-se vencedor.
Já um pouco maior (de idade e tamanho), a sapiência aguçou meu raciocínio pleno e me perguntei: Qual o fascínio que existe em um bico de pão "filão?
Não demorei muito em desvendar tamanho "mistério" e, com análise fria e calculista, cheguei à conclusão final e me dei por satisfeito. Senão vejamos:
Motivo nº 1 – Todo pão "filão" tem dois bicos (factus incontestis);
Motivo nº 2 – Toda família que tenha mais de dois apreciadores de bico de pão "filão" (ou mesmo bengala ou baguete), os demais serão "sumariamente excluídos" deste prazer;
Motivo nº 3 – Um bico de pão "filão" sempre foi um "patrimônio" de hierarquia (passa de pai para o filho mais velho e deste para os irmãos mais novos. Ressalva: a não ser que o filho caçula seja o "xodó" do pai ou da mãe ou de ambos, essa hierarquia poderá ser quebrada).
Conclusão final: A "contenda" pelo bico de pão não tem sentido, a não ser psicológico, "maníaco opressivo frugal trigal sovado". O bico de pão, em sua forma triângulo-rotundocônico afunilado, não oferece a área plena que o meio do pão, e nas mesmas proporções, cuja capacidade do "bizuntamento das pastas acessória", tais como manteiga, requeijão cremoso, pasta de amendoins, geléias etc. oferecem.
O meio do pão oferece ainda ao feliz degustador a possibilidade de iniciar a mastigação (com maior tempo de delitamento) em qualquer de suas extremidades, eliminando, de imediato, qualquer tipo de indecisão do feliz degustador, do tipo: começo pelo bico, ou não!?
Hoje, passados os muitos anos deste cenário pitoresco, não mais vejo os "filões" e as "bengalas e as baguetes". Raramente encontro, quando vou a Salvador, em uma "Bread Store" dos "shoppings" da vida.
A maioria das padarias daqui da Bahia (principalmente as do interior do estado) só comercializam o pãozinho francês, que aqui é denominado como "cacetinho" ou "pão de sal".
Como bom apreciador da arte do "bem comer", destaco aqui algumas regras básicas para melhor aproveitamento do paladar. Prefira sempre o meio do pão "filão", por motivos aqui já destacados. Em um almoço ou jantar cerimonioso, nunca aceite a cabeceira da mesa (a menos que seja você o anfitrião, aí, azar o seu). Prefira as laterais e bem próximas do meio da mesa. Assim, você terá possibilidade de se servir de todas as iguarias que estejam ao seu alcance, e em ambas as extremidades.
Nunca jejue antes de qualquer principal refeição. Faça, antes, um lanche leve para motivar as enzimas digestivas, e depois complemente com um leve exercício para a queima das calorias excessivas. Você aproveitará melhor os alimentos.
Nunca use líquidos entre uma garfada ou outra. Compromete a digestão. Aperitivos são excelentes instantes antes de qualquer principal refeição.
Abuse das frutas (coma-as todas). São ótimas para a flora intestinal e muitas delas têm propriedades terapêuticas. Além do que, você com isso dará uma "aula" de conhecimentos naturais.
Do filão, da bengala, do baguete e até do pão italiano (o redondo, muito gostoso com salame ou queijo) tenho saudades. O nordeste do Brasil não tem essas tradições, mas temos aqui alguns similares que também são uma delícia. Broa de milho, pão fatia (no Pernambuco chamam de pão de caixa), pão de leite, "bolado", alguns tipos de roscas e outros mais que as atuais "delicatessens" de hoje nos ofertam.
Tenham um bom apetite. Comam para viver e não vivam para comer.
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