Personagens do camarote da vida

Pessoas, lugares ou momentos têm o poder de marcar a nossa vida de alguma forma, e na nossa memória está sempre lá pra relembrar e às vezes dar boas risadas.

Neste caso tenho a lembrança de duas figuras importantes na minha vida e na cultura teatral de São Paulo. Uma é Elvira Gentil, atriz/diretora conhecida nos meios teatrais pela capacidade de construir fantasia do nada, engajada, conquistando seu espaço com seus espetáculos e atuações. Ela tem frequentado os palcos paulistas deste os anos 70, quando foi vencedora do Prêmio APCA de diretora revelação, e a partir daí vem trazendo muitos mais na sua bagagem teatral.

Outro personagem que aqui me refiro é o hoje saudoso ator Laerte Morrone, tão conhecido por interpretar o Garibaldo do Vila Sésamo, como também em novelas da Globo e Record, filho da pianista Ines Morrone e do grande escultor Luis Morrone, responsável pela estátua de Cabral no Ibirapuera.

Bom, introduções feitas, friso que estes dois personagens marcaram a minha vida de maneira singular. Assisti à relação profissional e de amizade dos dois de muito perto e posso definir já de antemão que dava pra fazer umas daquelas comédias italianas. Nos ensaios não era raro sair uma pequena discordância entre ator e diretora, mas não era briga não, era mais como um pastelão. Ele, paulistano de nascimento e italiano por descendência, e ela, mulher de fibra, natural de Sorocaba, desbravando corajosamente a nossa São Paulo. Pronto, estava feita a combinação perfeita pra se assistir a um bom entrevero.

Os ensaios aconteciam na garagem da casa do Laerte, lá na Capote Valente, e nestes encontros ele, sempre muito criativo e talentoso, adorava improvisar, e isto tirava do sério a nossa não menos brilhante Elvira, e daí para o início de uma discussão era questão de tempo. Aqui posso descrever o diálogo, no qual o Laerte, acabando de fazer uma das suas improvisações, e a Elvira prontamente parando o ensaio, e dizendo:

Elvira: – Mas, Laerte…

Laerte interferia, não a deixando terminar a frase: – Elvira, eu acho que a cena ficaria melhor se.

Elvira: – Laerte, vamos continuar o ensaio e depois.

Laerte, de novo, já com a voz alterada: – Elvira, não dá pra continuar porque esta fala não cabe na minha boca, tem que mudar. E…

Elvira: – Conversamos depois, mas agora.

Laerte gesticulando: – Tem que ser agora por que.

Elvira: – Laerte, não se esqueça que eu.

Laerte, gesticulando: – Elvira…

Após mais algumas frases, nas quais um não escutava mais o outro e aí:

Elvira: SOU EU QUE ESTOU DIRIGINDO ESTE ESPETÁCULO!! OU NÃO???

Bom, neste ponto assistíamos à famosa saída da Elvira, procurando a sua bolsa na sua grande retirada à la vaudeville. Isto aconteceu em alguns dos ensaios ou reuniões de produção, sempre havia uma discordância que tomava proporções homéricas, finalizando com a saída indignada da Elvira e sua bolsa.

Na realidade, Elvira e Laerte eram amigos de longa data e a amizade deles era inquebrantável, estas habituais desavenças não eram nada mais, nada menos, que um misto de duelo de titãs com pinceladas do humor astuto dos irmãos Marx. Era um processo de criação não muito ortodoxo, mas uma química teatral que só funcionava entre eles. E passou a ser pra nós um "tudo acabava em pizza", pois na estréia do espetáculo, brilhantemente interpretado pelo Laerte e sucesso na direção, ator e diretora já estavam fazendo planos para um próximo projeto.

Laerte era assim, com suas improvisações geniais, adorava instigar os nervos da Elvira, e esta, por conseguinte, rebatia defendendo sua cria, o espetáculo. Penso que no fundo ela adorava as "cenas" do Laerte e os dois juntos adoravam suas cenas polêmicas, tendo como audiência uma pequena platéia, nós, os seus colegas de trabalho.

O último encontro que os dois tiveram nos palcos de São Paulo foi no espetáculo "O Montador", em 1996. Na vida real, o último encontro infelizmente também já aconteceu e foi numa visita da Elvira a um Laerte Morrone hospitalizado, mas não menos "Laerte". Ela, naquele dia, ainda comentou que ele tinha que sair logo, pois havia mais alguns projetos novos pra eles trabalharem juntos. Contudo Deus tinha outros planos e levou o nosso querido Laerte para os palcos celestiais e, conhecendo-se este, com certeza já deve estar discutindo com São Pedro e até com o próprio Deus. A Elvira continua com suas produções artísticas, mas nunca mais encontrou um ator à altura do Laerte pra fazer ela pegar a bolsa e sair.

Aqui faço esta pequena homenagem a estes dois gênios que assisti do camarote da minha vida.

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