Revivo a memória. Desperto os arquivos da minha alma. Volta-me a alegria. O respeito que havia. A cortesia aos mais velhos. O lugar era sempre deles. Um período de educandos. Tempo de educado.
Ao completar três anos de idade fui para a o parque infantil Dom Pedro II, e me deparei com mais pessoas, com mais tipos diferentes, em um novo conjunto de qualidades as quais fui desenvolvendo, apreendendo e recebendo um tipo de educação não-escolar para crianças pequenas, de famílias operárias. Foi-me garantido o direito à infância. Por meio de vivências das tradições populares, da arte e dos jogos tradicionais infantis, tive a possibilidade de ser criança, de viver a especificidade dessa fase da vida.
O privilégio de brincar, a não trabalhar, e expressar-me das mais variadas formas e intensidades, promovendo o exercício de todas as dimensões humanas (lúdica artística, e a do imaginário).
O maior tempo de meu entretenimento gastava no parque infantil. Parque Infantil Dom Pedro II, frequentado pelo atual Governador de São Paulo José Serra, nos anos 50 (cinquenta), mesmo que ele não recorde o nome.
Localizava-se onde hoje habita a estação Dom Pedro II do metrô. Em frente havia a Comgás, na Rua da Figueira, que na época chamávamos de gasômetro. A região era bastante arborizada, muita vegetação ladeada pelo rio Tamanduateí. Em frente o quartel militar, cujo prédio resiste até os dias atuais.
Hoje o ex "Parque Infantil Dom Pedro II" é uma área agitada, um vai e vem de pessoas, alguns assaltos repentinos e muitos vespertinos.
O tempo já passou, mas revivifico dos arquivos da minha memória: ternura, serenidade, solidariedade, pedagogia, didática e ensino das antigas professoras. Diversas professoras que nunca foram nossas tias, chamávamos de donas.
Dona Laide, negra alta, de coque brilhante e sorriso alvo, exalando o perfume do talco Ross. Irina, professora de educação física, todos aprendiam a nadar sob seu comando, na redonda piscina. Vitalina, essa nos ensinava Canto Orfeônico, dando ênfase ao folclórico nacional (no canto lembrado, siriri do Mato Grosso vem aqui pra capital). Comandava o lazer no salão central, traziam da sede da prefeitura um projetor de filmes. Passavam os filmes do Carlitos, do Gordo e o Magro e desenhos do Pica-Pau, dentre outros, era tudo muito divertido. A cada final de filme aplaudíamos com palmas e gritos ruidosos.
Observávamos a luz que saía do projetor. As imagens projetadas na tela retrátil branca e o zunido sibilante da máquina.
Dona Lais, a diretora, nos reunia nesse salão para falar de algum comportamento que não estava adequado ao grupo. Recordo que prestávamos atenção, cabeças apoiadas nos joelhos, olhando e ouvindo. Junto, um respeitoso silêncio para ouvir todas as palavras profundas, que representava uma nova lição.
Aparecida, célere igual ao um menino veloz: "Maria Aparecida Ferrari", conhecida como Ferrari. Excelente jogadora de basquetebol, quarenta e oito pontos na seleção brasileira feminina de basquete, Brasil 4o colocado, em mundial disputado no Chile. A professora Aparecida, Dona Aparecida, assim tratávamos a exímia cobradora de pênalti. Ensinava a todos sua destreza, batendo os pênaltis de bica.
Quando os meninos eram pegos a espreitar as meninas nuas, nos vestiários a tomar o banho diário, era ela quem lhes aplicava nas nádegas um cascudo com três dedos ou com ramo de árvore, fino e flexível, extraído das próprias plantas do parque. A avidez dos garotos era pra ver "os xôxos" (deve ser do espanhol castiço). Hoje chamadas "genitálias femininas".
No parque infantil não havia segregação, a pobreza unia a todos. Apenas um grupo de negros e pardos se distinguia dos demais, e só se separava na hora do batuque, que pela própria natureza formavam. Um conjunto de exímios passistas, a "Turma da Gafieira". Com suas principais figuras: Moacir, Antenor, Edson e seu irmão Chiquinho, o chefe, uma espécie de zumbi da turma. Coordenava toda a batucada após a hora do lanche. Esses batuqueiros, na sua maioria filhos das negras e mulatas que os deixavam no estabelecimento infantil da prefeitura enquanto iam trabalhar na metalúrgica, do velho Ciccilo Matarazzo.
Os instrumentos utilizados pelos precoces passistas eram latas vazias de marmelada cascão, algumas frigideiras velhas e galhos das árvores dos jardins do parque, onde se exibiam a dançar o samba com muita desenvoltura e graça.
A disciplina era rígida. Após o banho a vistoria. Formava-se a fila indiana, e qualquer vestígio de sujeira encontrado o retorno ao banho era imediato. A professora examinava as orelhas até os ouvidos, dentro e fora. O pescoço, pés e joelhos, tudo deveria estar limpinho.
Em seguida era o lanche, pão e leite, o Toddy ou Vic Maltema para juntar ao leite, trazido por mim de casa, embrulhado num papel de pão, já misturado com o açúcar Os copos eram de alumínio, e todos relutavam a ficar com o copo do "baboso", um copo mais velho, amassado, cheiro de ranhuras que diziam ser de um garoto magro, raquítico, com os olhos estrábicos e os dentes tortos e salientes, que o faziam babar (o garoto residia em um dos porões da Rua Capitão Faustino de Lima).
A rua dos casais de namorados, ficavam imprensados nos cantos das portas dos armazéns, esfregando-se as coxas e outros órgãos. Desses cantos surgiram muitos casamentos, eternos, abençoados pelo padre e algumas decepções. Outros vínculos conjugais com as enérgicas bênçãos do delegado: “Vai casar ou não vai? Seu sem vergonha! Você deflorou a moça! Desonrou, vai ter que casar!”. Não se admitia que ela houvesse consentido, que havia ofertado a "flor".
No parque infantil, após o lanche, o pequeno sono, a cabeça inclinada sob a sacola de brim cinza, com o número bordado em vermelho. O silêncio era sepulcral, e a liberação à hora de brincar era feita por ordem. Os primeiros ficavam mais tempo em silêncio.
Após a dispensa, a corrida para a liberdade, escolher os brinquedos que se quisesse, a quem chegasse na frente. O corre-corre era uma forma de voar e sonhar. Selecionar as brincadeiras: afinar galhos para derrubar jenipapo, balanço, escorregador, bola ao cesto, o já predileto futebol, e o ensaio da turma da gafieira. O fim das brincadeiras era comandado pelo soar do sino, tocado pelo servente, Senhor Lagoa.
O time de futebol era um esquadrão. Simples com os pés descalços, no chão. Camiseta branca e calção vermelho, o uniforme de uso diário. O número identificador, bordado na frente da camiseta. Não havia adversário que vencesse nosso time. João Dalila no gol, Silvio Macaco, o Gragnano, Sergio Mágico, o malabarista, Squidum, gingava como poucos, Otávio e Carlinhos, o filho da servente mais antiga, Dona Ripalda. Não jogava nada. Vivia oculto nos telhados do parque. Mais tarde se tornou exímio bailarino de figurado, nos bailes das noites paulistanas.
Frequentei o parque nos dois períodos, diurno e vespertino, dos três até os seis anos. Essa guarda permitia que minha mãe trabalhasse fora, do lado da residência, na sacaria, costurando saco de fibra, ou nas fábricas. Tecelagens dos bairros: Labor, Mariângela, e na fábrica de cigarros Castelões. O trabalho ajudava nas despesas, o que o pai conseguia ganhar não dava para pagar tudo.
Nesse parque infantil mantido pela prefeitura municipal da cidade, havia até a presença diária do médico. Na época, Doutor Mário, homem claro de tez avermelhada e óculos de grau forte. Assistido pela enfermeira dona Vera, morena de cabelos negros cacheado, e queixo saliente. Atendimento exemplar, com desvelo e apreço, exceto naquela fatídica manhã:
Os primos, que residiam próximo, frequentavam aquele estabelecimento: Manoela, Zé Luiz, Manolo, Toninho, Angustia, Carmem, e a saudosa Neuza que estava a ser atendida pelo médico. Ouve-se um burburinho na sala ao lado. Percebe o doutor Mário ansioso. Este solta o estetoscópio do pescoço, deixa cair ao solo o termômetro, que se quebra, coloca as mãos na testa dela e diz:
– Pode ir, você somente está com febre…
A prima pequenina fica imóvel como estátua, com seus diminutos olhos verdes a observar o doutor, sem entender nada.
Após esse atendimento o tumulto das pessoas, andando e circulando no parque, foi aumentado. O ruído do sino tocado era insistente, alto e estrondoso. As professoras foram ordenando as crianças em grupos, pequenos, médios e grandes, orientando-os a desocupar o parque, fomos dispensados. Dia 24 (vinte e quatro) de agosto de 1954, chegara a notícia: o presidente Getúlio Vargas suicidou-se no Palácio do Catete.
Naquele dia, caminhamos de volta para casa, cumprimos a recomendação de ir direto para casa… Mas, e acabou-se a história, morreu a vitória, entrou por uma porta e saiu por outra, quem quiser que conte outra…, mas prossigo esta estória… na continuação da narrativa… talvez na próxima semana… quiçá em outra história.
Anotações (pesquisas), de um Paulistano do Brás: Mário de Andrade: 09/10/1893 – 25/02/1945.
O grande poeta brasileiro Mário de Andrade foi um dos idealizadores e diretor do Departamento de Cultura (DC) (1935-1938) da prefeitura do município de São Paulo na gestão do *prefeito Fabio Prado, quando criou, dentre outros programas, o Parque Infantil (PI), inclusive o Dom Pedro II, onde freqüentei dos três aos doze anos.
Destaque-se aqui o trabalho realizado nos PIs apenas com as crianças pré-escolares de três a seis anos.
Mostra-se aqui a contribuição do referido poeta para as atuais reflexões voltadas à elaboração de propostas de programação educativa.
Mostrar a contribuição do referido poeta que permitam a todas as pessoas de pouca idade tornarem-se crianças e permanecerem como tal durante essa fase da vida.
Criticando as teorias que priorizam o crescimento dos pequenos transformando-os precocemente em alunos, futuros adultos, entendendo que o espaço coletivo (com adultos e crianças) como ambiente de educação e cuidado das crianças de zero a seis anos tem por objetivo garantir seu direito à infância. Em vez de refletir sobre o desaparecimento da infância, como vêm fazendo alguns estudiosos estrangeiros, parto da criança como produtora e consumidora de cultura, tendo no espaço coletivo das creches e pré-escolas o local privilegiado para permanecer criança; será, portanto aí que uma nova descoberta da infância pelo adulto ocorrerá, podendo dar continuidade ao trabalho iniciado nos Parques Infantis.
Os parques infantis criados por Mário de Andrade em 1935 podem ser considerados como a origem da rede de educação infantil paulistana (Faria 1995) – a primeira experiência brasileira pública municipal.
Não parece desprovido de sentido o comentário feito por uma ex-professora do PI: "Havia o momento do repouso e, quando o dia estava bonito, iam ficar deitadinhos na grama, à sombra. O repouso era o que mais eles gostavam" (Escola Municipal op. cit.).
Eis dois depoimentos de (ex) frequentadores dos parques infantis:
“Nós, crianças, brincávamos na rua. Agora, com o parque, meus pais podiam trabalhar mais tranqüilos, ele na SP Railway e ela na fábrica de tecidos”;
“O parque para nós foi a liberdade. Aqui podíamos nos divertir sem vizinhos brigando: ‘Não faça isso, não pule o muro, não suba na cerca’”;
“É porque no parque eu tinha tudo o que precisava: as professoras que tomavam conta, aulas de música, crochê, bordado. Era tanta coisa boa que eu ficava por aqui mesmo, não voltava para casa”. (Escola Municipal 1985, pp. 6-29)
Será que foi justamente por ser inovadora que se isolou e daí a não-continuidade? (Lembremos que os PIS também foram analisados como disciplinadores da classe operária; no entanto, Mário de Andrade demitiu-se do DC pressionado por Getúlio Vargas.). Será que é por isso que tem sido ainda ignorado por muitos educadores o caráter avançado do projeto de Mário de Andrade, que colocava a criança em primeiro lugar, seja como oportunidade de os adultos conhecerem-na melhor, seja valorizando a própria infância por meio das tradições culturais brasileiras e possibilitando o imprevisto e o novo que nascem aí?
1937: É contra o Estado Novo.
1938: Transfere-se para o Rio de Janeiro.
1941: Volta a viver em São Paulo.
1944: Escreve Lira Paulistana, poesia.
1945: Morre em São Paulo – Publicação de Lira Paulistana.
*Fabio Prado pretendia construir ao todo setenta e quatro Parques Infantis, deixando para seu sucessor (Prestes Maia). O novo prefeito deixou essa tarefa ao estado, dedicando-se somente a construções de ruas, avenidas, e viadutos e monumentos.
“Nós recebíamos material nas reuniões, além de exemplos e sugestões. Por exemplo, roda cantada ele [o Maestro Braunwieser, conselheiro de educação musical] dava uma e a gente pesquisava para ampliar o repertório. Era preciso trabalhar com todas as turmas, com números diferentes de acordo com as faixas etárias, adequando o trabalho. E, nessas atividades, ele fazia muita questão que se desenvolvesse o folclore brasileiro porque era um ardoroso amante do Brasil. Dava-se muita música folclórica, cantigas de roda e se fazia muita questão das bandinhas rítmicas. Alguns instrumentos a gente recebia, outros a gente construía com latinhas de fermento, cabo de vassoura, tampinha, casca de coco. Nesta bandinha, a gente era orientada para incluir até os pequenininhos, porque era todo um trabalho de desenvolvimento rítmico. A gente ensinava a letra das canções, ritmava e as crianças iam falando. Também desenvolvíamos a percepção auditiva e a linguagem, dentro da Educação Musical. O maestro fazia questão que a gente não aceitasse que dissessem que ‘ensinávamos musiquinhas’, por causa do trabalho que estava por trás”. (depoimento da ex-professora Vitalina, Escola Municipal, op. cit, p. 22)
Lira Paulistana
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na Rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
e-mail do autor: [email protected]