Jânio Quadros foi, para mim, o político mais carismático que o Brasil teve. Nunca o vi pessoalmente, mas era um fã de carteirinha. Votei nele todas as vezes em que foi candidato.<br><br>Vício? Não! Era porque foi o político que, apesar de alguns contras, para mim tinha mais prós.<br><br>Sua renúncia foi algo previamente pensado. Pensou numa coisa, deu outra.<br><br>Os ombros do povo estavam mais para carregar jogadores de futebol. Em outra oportunidade tinha tido essa idéia, de renúncia.<br><br>Numa visita do jornalista Rui Mesquita ao palácio dos Campos Elíseos, quando Jânio era governador, ele olhava fixamente para um local, e perguntado onde ele olhava, Jânio disse: – Estou olhando para a casa do futuro governador. No caso, a casa do vice Porfírio da Paz.<br><br>Segundo Rui Mesquita, Jânio estava com o pensamento fixo em renunciar o cargo de governador de São Paulo.<br><br>Ouvi falar em Jânio Quadros pela primeira vez em 1952, quando ele já era deputado estadual. Certa ocasião, com olhos esbugalhados, ele foi à tribuna para dizer que tal projeto seria aprovado nem que fosse a bala.<br><br>Em 1953, ele foi candidato a prefeito da cidade de São Paulo. Era a campanha do “tostão contra o milhão”. Ele, pobre, lutava contra um candidato apoiado por um rico, no caso o ex-governador Adhemar de Barros. Seu adversário era o professor Francisco Antonio Cardoso.<br><br>Estávamos num período de fortes discussões políticas. Seria a primeira eleição pelo povo. Até então, os prefeitos eram nomeados pelo governador do estado.<br><br>Na minha casa, meu pai e mãe estavam, pela primeira vez, rachados politicamente. Anteriormente ambos tinham votado em Getulio Vargas, contra o “burguês” udenista Brigadeiro Eduardo Gomes. Tanto ele como ela votou em Lucas Nogueira Garcês para governador, embora ele fosse apoiado por Adhemar de Barros, figura detestada em casa. Depois ambos ficaram felizes da vida pelo fato de o Garcês quase colocar Adhemar na cadeia, por causa do processo dos chevrolets.<br> <br>Meu pai dizia com todas as letras que ia votar em Jânio. Já minha mãe dizia o contrário. Ângelo, o que é isso, votar num louco, cabelos em desalinho, todo desarrumado, gravata torta, paletó cheio de caspas, olhos esbugalhados, falando coisas difíceis de se entender? Orlinda, se ele é um louco, é disso que precisamos no Brasil. Um louco. Na verdade Jânio é homem de três culhões. Coisa que o Brasil nunca teve.<br><br>Nunca me esqueço de um comício que Jânio fez no bairro do Itaim Bibi, onde eu morava. Foi na Rua Joaquim Floriano, num terreno baldio ao lado da farmácia do seu Brandão, onde o Mazzaropi costumava erguer seu circo teatro. Estava eu com catorze anos de idade, e me lembro como se fosse hoje.<br><br>Jânio estava em cima de um caminhão com carroçaria abaixada. Em meio ao comício pediu licença às muitas pessoas curiosas por conhecer o “louco”. Tirou uma banana do bolso e começou a comer às 21 horas de um dia de semana, dizendo que até aquela hora não tinha comido nada. O povo ria. Muita gente achava que ele era um político diferente e sincero, outros diziam que não passava de um palhaço. Meu pai vibrava como bom jânista que era, assim como o senhor Ângelo Parollo vibrava com Adhemar, como adhemarista de carteirinha que também era. Estávamos num tempo em que dava gosto participar de eleições, como eleitor ou cabo eleitoral.<br><br>Jânio, para surpresa de todos, ganhou aquela eleição por diferença de dez mil votos aproximadamente. Foi uma surpresa. Diziam que Jânio era conhecido apenas no bairro de Vila Maria. A partir daí, passou a ser conhecido por toda a cidade, e estado, pois no ano seguinte renunciou a prefeitura junto do vice prefeito Porfírio da Paz e candidatou-se a governador do estado. Agora ia se defrontar com o político mais forte, o carismático doutor Adhemar de Barros, que tinha sido governador de 1947 a 1950, cuja propaganda política era: Doutor Wardemar, Wardemar doutor.<br><br>Foi outra campanha daquela de não se esquecer nunca. Participei ativamente como cabo eleitoral, pois aos quinze anos de idade estudava na escola Roberto Simonsen, no Brás, e na caminhada da zona sul até a leste dava uma parada nas bancas de jornais da Praça da Sé e lia tudo o que se falava de política.<br><br>Na escola, a rapaziada não estava nem aí para a política, todos liam A Gazeta Esportiva, pois o futebol era mais importante. E naqueles anos iniciais, 1951-54, tinha uma praga no futebol chamado Corinthians que estava sempre na frente.<br><br>Já que os coleguinhas queriam ser analfabetos políticos, eu falava com os professores. O professor Foster, de desenho, era o meu confidente político. Ele achava que Adhemar ganhava com um pé nas costas. Jânio ainda é um aprendiz em política, dizia ele. Eu apenas ouvia, pois não queria confrontá-lo, pois era um prazer ouvir aquele professor.<br><br>Só sei que depois que as urnas foram abertas e a contagem dos votos manual, em que demorava mais de uma semana para se ter o resultado final, era impressionante o interesse do povo em acompanhar a marcha das apurações. Todos os bares tinham o rádio ligado e muita gente ouvindo. A cada urna anunciada dando vitória a Jânio era uma gritaria infernal. Mas quando o rádio anunciou que numa urna da cidade de Perdeneiras Adhemar não tinha tido um voto sequer, além da gritaria, risos em profusão.<br><br>Ao final foi dada a vitória a Jânio Quadros por uma diferença de dez mil votos. O que foi contestado pelo candidato Adhemar de Barros que pediu a recontagem dos votos. O TRE (Tribunal Regional Eleitoral) o atendeu e a recontagem dos votos foi feita no tribunal de justiça para que não houvesse qualquer dúvida. Só sei que a diferença a favor de Jânio foi maior, dezoito mil votos.<br><br>Quando chegou a hora da aula de desenho, o professor Fortes me olhou com o rabo do olho querendo sorrir e, ao mesmo tempo não, perguntou: Tá contente? Lógico professor! Esse cara ainda vai ser nosso presidente. Aí foi demais para o professor, que caiu na gargalhada.<br><br>Jânio fez um governo considerado muito bom. Ele aproveitava todos os acontecimentos para se mostrar um governante ativo e prestante ao povo.<br><br>Quando de um dos muitos acidentes de trem no cruzamento da linha da central com a Rua Vilela, no Tatuapé, de madrugada, Jânio foi lá como estava. De pijama. Tomou as providências necessárias pessoalmente como era de sua maneira de governar.<br><br>Quando seu pai, Gabriel Quadros, foi assassinado pelo marido de sua amante, Jânio também compareceu ao local onde estava o corpo do pai. E disse: – Este senhor matou para defender sua honra. Deve ser processado e absolvido.<br><br>Em 1958, Jânio estava para deixar o governo, não pela renúncia, mas sim por estar findando o seu mandato. E como Jânio adorava homens corretos, apoiou o seu secretário da fazenda Carlos Alberto de Carvalho Pinto. Era a eleição de 1958, eleição que eu ia votar pela primeira vez. E mais uma vez o teimoso candidato Adhemar de Barros seria o adversário, tinha outro, mas era considerado muito fraco: Auro de Moura Andrade.<br><br>Era um tempo em que se colocava no paletó distintivos minúsculos de metal. Jânio tinha sua vassourinha, que ficou famosa por varrer vagabundos do serviço público. Então Carvalho Pinto, que tinha sobrenome do filho da galinha, seu distintivo passou a ser um pintinho que a maioria do povo tinha na lapela do paletó. Já Adhemar, que não gostava de ficar para trás, mandou fazer um distintivo com o galo. O rei do terreiro é o galo, e não o pintinho, dizia ele, o político galhofador que todos conheceram.<br><br>Auro também fez o seu distintivo. Era uma peneira. Perguntado do por que de um distintivo que nada tinha a ver com os outros dois, a resposta foi a seguinte: Vou colocar milho e quirela na peneira, eles vão em cima, ela vai tombar e eu vou ganhar. Como piada foi fraca.<br><br>A campanha foi uma festa, talvez a melhor e mais emocionante, com Jânio soltando seus dardos humorísticos e Adhemar respondendo. Carvalho Pinto ficava na moita.<br><br>No Brooklin, onde estava eu morando, todas as casas tinham uma faixa pequena escrita “esta família apóia Carvalho Pinto”. Os cabos eleitorais pediam licença e, com o sim do dono da casa, a faixa era colocada do lado de dentro para que ninguém a destruísse. Adhemar, que não ficava pra trás, mandou fazer faixas do mesmo tamanho, escrito “Adhemar é nosso!”.<br><br>Nas conversas de ruas, todos diziam que não podia deixar o “Promessão” voltar. Promessão era o apelido de Adhemar, chamado por todos de ladrão, devido ao processo que respondeu anteriormente, do qual foi absolvido. Esse apelido lhe foi dado por causa de um bandido que infernizava a cidade de São Paulo e que tinha o apelido de “Promessinha”.<br><br>Havia uma expectativa tão grande que o jânista fanático Luiz açougueiro (Rua Texas, esquina Arauna) não podia ver meu pai que só falava em Jânio e Carvalho Pinto. Seu Angelo, será que a gente “ganhamos” essa?<br> <br>Quando o dia da eleição foi chegando e os comícios eram mais pelo centro da cidade, a política fervilhava. Naquele tempo, não havia carreatas e sim comícios. Adhemar gostava de fazer os seus na Praça da Sé. Já tanto Jânio como Carvalho Pinto gostavam mais da enorme área da Praça Roosevelt, atrás da igreja da Consolação. Para quem não ia ao local via pela televisão. A Televisão Paulista, Canal 5, do complexo Victor Costa, era a TV que apoiava Carvalho Pinto.<br><br>Na entrada da rádio, na Rua Sebastião Pereira 218 (Santa Cecília), tinha uma faixa. Manoel de Nóbrega pede seu voto para Carvalho Pinto, e o galã Walter Foster narrava uma propaganda de Carvalho Pinto com a mão em cima da bíblia. Com sua voz forte dizia: Vote em Carvalho Pinto.<br><br>Já os comícios de Adhemar podiam ser visto pela TV Record. Na sexta-feira, último dia de campanha, os comícios estavam na ordem do dia, tinha gente que virava o seletor de canais, do cinco para o sete, depois voltava só para ver e ouvir os dois candidatos, era um tal de sentar e levantar.<br><br>Lá em casa não. Era só o cinco. E na tela do nosso televisor Windsor se via a Praça Roosevelt lotada. O palanque lá no fundão da praça e gente quase no telhado da igreja, tinha também pessoas interrompendo o trânsito da Rua da Consolação.<br><br>Enquanto não chegava quem interessava para o povo, deputados estaduais e federais “enchiam linguiça”.<br><br>Mas quando pinta Jânio e Carvalho Pinto, a ovação era total. O último pronunciamento ficou para Jânio. Parecia que ele era o candidato. Quando ele começou a falar se viu algo diferente até então. Um enorme silêncio tomou conta da praça. Era o respeito e a vontade de ouvir o já maior líder político do estado de São Paulo.<br><br>Ao final do seu pronunciamento, Jânio não deixou de dar uma espetada em Adhemar de Barros: “As faixinhas de Carvalho Pinto foram colocadas nas residências com a autorização de seus moradores. Agora, aquelas faixas que dizem “ele é nosso” foram colocadas na calada da madrugada com pregos de cortiça”. Aí o silêncio acabou, aplausos, gritos e gargalhadas foram o som da praça.<br><br>Aí, aquilo que eu dissera ao professor Fortes viria a se tornar realidade quatro anos depois. Jânio presidente, numa eleição que nem teve graça. Quase seis milhões de votos o levaram a Brasília, sendo o primeiro presidente a ocupar o palácio do planalto depois do fundador.<br><br>Jânio adotou o sistema de bilhetinhos para se dirigir a seus ministros. Muitos desses bilhetes se tornaram decretos. O mais interessante de todos os seiscentos bilhetes enviados foi este:<br><br>Ao diário oficial! (diretor)<br><br>Indago:<br><br>a) Consta do original (ministério da Viação dia 6, página 7, despachos do ministro, um acento grave na palavra maquinaria?)<br>b) Ter presente que o referido vocábulo ao longo do ensinamento dos gramáticos de escola não leva acento nenhum. A pronúncia correta, aliás, é maquinaria. No que concerne à tônica, ela incide sobre o “i” e não sobre o “a”<br>c) Quem quiser acentuar o “a ” que mude o sexo da palavra: escreva maquinário.<br>d) Elucido, ainda, que maquinário ou maquinaria indica, e só, conjunto de máquinas;<br>e) Aliás, maquinário é vocábulo horrível. Usar maquinaria. Ou maquinismo. Maquinário, não!<br><br>Sete meses depois ele fez aquilo que Rui Mesquita disse que ele teve vontade de fazer quando era governador do estado. Renunciou. <br><br>Voltou a se candidatar em 1962, a governador, mas corroído pela renúncia perdeu para Adhemar de Barros, sem o apoio do governador Carvalho Pinto.<br><br>Quando foi confirmada a vitória de seu maior rival, mandou um telegrama ao vitorioso: “Tradicional adversário de V. Excia, apresento meus cumprimentos pela vitória obtida, formulando votos para que realize um bom governo, a bem do povo paulista”. a) Jânio Quadros.<br><br>Em 1964, quando os militares tomaram o poder e saiu a primeira lista de cassações, não estava o nome Jânio Quadros. Então o ministro da guerra Artur da Costa e Silva olhou, foi logo dizendo: – Está faltando alguém nessa lista, e com sua caneta Bic, colocou Jânio da Silva Quadros.<br><br>Jânio, quando se referia a esse assunto, tirava um sarro: E, euuuu, passei a ser dele!<br><br>Para encerrar sua carreira política, candidatou-se a prefeito da capital de São Paulo, em 1985. Quando todo mundo dava como favas contadas a vitória de Fernando Henrique, que já havia inclusive sentado na cadeira de prefeito para fotos, eis que a vitória pertence a Jânio Quadros. Na hora de tomar posse, pegou um spray e desinfetou a cadeira. Explicando: – Nádegas indevidas sentaram aqui.<br><br>Jânio da Silva Quadros. Nasceu dia 25 de Janeiro de 1917, em Campo Grande, Mato Grosso. Faleceu dia 16 de fevereiro de 1992. Se vivo fosse, Jânio estaria fazendo 91 anos.<br><br>e-mail do autor: [email protected]