Eu a vi, menina, com 369 anos de vida. Menina eu também era. Vim ao mundo nesta cidade e amei-a desde o primeiro instante.<br><br>Cresci saboreando o seu progresso, minha São Paulo, minha querida e eterna amiga. Observando o seu dia a dia, dei com o seu progresso incessante, assustando-me então, por achar que desse jeito eu não a acompanharia nunca.<br><br>Achei-a ainda mais corajosa, por enfrentar a Revolução Constitucionalista de 1932 que a atingiu, mostrando o valor de seu povo, o povo paulistano, numa expectativa vibrante, onde seus bravos soldados a defenderam com todo o ardor.<br><br>Com nove anos, eu fantasiava que pertencia a Cruz Vermelha e atuava como enfermeira toda vestida de branco, na ajuda aos soldados.<br><br>Morava na casa em que nasci, na Rua dos Estudantes no bairro da Liberdade. Cursava o 3º ano primário do Grupo Escolar Miss Browne na Rua Frederico Alvarenga no centro.<br><br>Invocando esse tempo, para você eu conto: "o ensino público era excelente; sem os avanços tecnológicos que tivemos de lá para cá, qualquer criança já estava alfabetizada, e ao término do curso primário já se sentia preparada para prosseguir no ginásio em ótimas condições”.<br><br>Quando ia findando o período de aulas, eu ficava ansiosa para chegar em casa, tomar lanche e brincar na rua, com as amiguinhas, aproveitando o que você, São Paulo, proporcionava de melhor: tranquilidade e alegria.<br><br>As cantigas de roda nas vozes da criançada eram aceitas com prazer pelos adultos e a alegria contagiava toda a vizinhança. Era muito gostoso "bambolear" com as demais amigas, cantando o "Samba Lelê está doente…".<br><br>Nove horas da noite era o limite permitido pelas famílias para encerrar as brincadeiras. Antes de entrar para ir para a cama, era a minha hora sagrada de olhar para o céu e prestar atenção na luminosidade da lua, que naquela época ajudava a iluminar você, minha querida São Paulo.<br><br>A iluminação era a gás e você se preparava toda para receber os acendedores dos lampiões. Aí, então, você ficava linda, toda iluminada.<br><br>Havia um "quê" nostálgico em seu semblante, um mistério, e eu pensava: "é o mistério de ser bela, de ser acolhedora para os seus moradores”.<br><br>Tudo isso você nos proporcionava; a certeza de progredirmos junto com você, minha doce São Paulo.<br><br>E hoje, você completa mais um ano de existência, sem a tranquilidade de outrora, mas com a beleza de quem cresceu e tornou-se a maior cidade da América Latina.<br><br>Parabéns, São Paulo!<br><br>e-mail do autor: [email protected]