O calhambeque, bí-í!!!

Hoje, lendo um relato sobre as Marias gasolina da vida, veio à memória um ocorrido na década de 60. Tempo dos Reis do Iê-iê-iê. Era dos perfumes Pino Silvestre, Lancaster, Rastro. Imperavam os Beatles, bailinhos de luz negra, Roberto Carlos e seu calhambeque!!!

Ah, o calhambeque. Meu primo Celso, que era apenas alguns meses mais velho do que eu, descobriu num posto de gasolina um calhambeque: um Fiat "coupè" 1927. Bordô. Sem brilho, completamente fosco, com um estofamento em estado lastimável. E o mais incrível: estava à venda.

Meu primo usava o cabelo à "la Beatles", usávamos calças cigarretes, botinhas de camurça e zíper, cintos com fivelas Tremendão, cinturas "saint-tropez". Enfim, andávamos na moda e frequentávamos os melhores bailinhos do Alto da Lapa. Nada mais correto do que ter um calhambeque para impressionar… Custasse o que custasse!

Nem é preciso dizer que juntamos nossas economias para comprar o tal calhambeque. Claro que tivemos que recorrer a um dinheirinho extra gentilmente cedido pelo meu tio Armando, pai do Celso.

E lá fomos buscar o tal veículo.

Pagamos ao dono do posto e, felizes da vida, entramos no carro para dar a partida e retirá-lo dali. Fazê-lo dar a partida e pegar foi um caos, nem com a manivela abaixo do radiador o raio da "ximbica" pegava. Foi preciso empurrar. Mas estávamos tão felizes com nossa aquisição que nem reparamos em tal dificuldade.

Ao chegarmos em casa, meu tio quis ver o veículo e pela primeira vez o capô do Fiat foi aberto… Era uma profusão de arames e grampos no lugar de molas e cabos… Tudo era improviso. O carro estava em péssimo estado… Mas andava. E, mesmo assim, começamos a exibir o veículo pelas ruas mais importantes do bairro.

Lembro que, uma noite, numa festa de quinze anos de uma amiga, resolvemos colocar nossos ternos pretos e chegar esnobando descendo daquele meio de transporte tão em moda na época. Morávamos na Lapa e o referido baile era no Alto da Lapa. Foi um caos, a maior parte do caminho tivemos de empurrar, pois era um veículo covarde em subidas, só rodava em descidas e no plano. Para frear usávamos as solas de nossos sapatos. Chegamos ao baile com nossas roupas sujas de fuligem e de graxa.

Mas na volta, ele foi brilhante na descida e nos levou imundos, mas orgulhosos, até nossas casas.

Um belo dia meu primo, muito exibicionista, fez uma proposta. Desceríamos a Rua Mercedes a toda velocidade, e no final faríamos uma curva em duas rodas. O Celso queria exibir-se para uma das garotas que morava na casa, que ficava exatamente na curva do final da rua. Ele já havia previsto a hora em que ela e a irmã estariam no jardim, observando o movimento da rua. E assim fizemos. Empurramos aquela caixa velha até a Rua Duarte da Costa e demos um empurrão violento no Fiat assim que o colocamos na Rua Mercedes. Tivemos que correr para entrar no veículo devido à velocidade que adquiriu, causada pela inclinação da ladeira. O veículo foi que foi uma beleza.

Ao chegarmos quase no final da rua, pudemos ver as duas moças no jardim. Veio a curva, meu primo exterçou o volante a toda para que o carro inclinasse e cantasse os pneus… Tudo parecia certo… Mas exatamente em frente ao jardim das moças, o carro curvou, inclinou e… tombou!

Foi um verdadeiro vexame. Não sabíamos que os raios da roda, pintados na cor alumínio, eram de madeira, que devido ao tempo não resistiu a tal inclinação e se rompeu. Precisamos chamar um guincho para retirá-lo dali e levá-lo até o quintal de meu primo.

Compramos quatro cavaletes e o depusemos com honra num lugar onde poderíamos nos propor a recuperá-lo. Escrevemos para a Fiat na Itália na esperança de encontrar peças para a reposição. Recebemos apenas um manual.

O tempo foi passando. Quase um ano depois de sua UTI improvisada. Minha tia chamou o ferro velho e mandou recolhê-lo. E assim, o sonho de dois adolescentes saiu vergonhosamente nas costas de um caminhão, para ser dissecado e transformado em retalhos de metais.

Eram os anos dourados da ferrugem!

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