José residia na Rua Paraná, na altura do número 200. Junto à Rua Piratininga e Rua da Alegria. Era alegre e belo o José.
Jovem, ainda era o xodó das garotas do Brás. Umas o achavam parecido com o Agnaldo Rayol, outras com Tony Curtis, apesar de, à boca pequena, muitas meninas, que haviam saído com ele pelos lados da Rua Capitão Faustino (rua dos namoros nos portões dos armazéns fechados), o comparar com Marcelo Mastroianni, interpretando o personagem "Bello Antonio" no filme do mesmo nome. Um sujeito bonito, vistoso, mas que, na hora do "vamos ver", não era de nada.
Exímio bailarino, apesar de no bairro não apresentar seu elegante figurado, somente o "Passo do Quatro", um tipo de dança solta que surgiu na década de 60 (sessenta), assimilada, como espectador atento, no Clube Internacional do Cambuci, na Rua Silveira da Mota, ao assistir Nenê e Ricardinho, dois exímios bailarinos desse tipo de dança.
José casou-se. Os anos foram passando.
Preocupava-se, agora, ao ver a juventude esvair-se. Cinco anos de casado, um filho, e planejando novo filho para os próximos meses do ano seguinte (1979). Esperava o segundo herdeiro para março desse ano. Homenagearia o mês, dando o nome ao filho.
Começou a meditar nu, embaixo da água do chuveiro. Olhou a vasta barriga, de relance, pelos espelhos do banheiro, antes que esmaecesse pelo vapor d'água. Vestiu o pijama e segurou-o pela cintura, o elástico já cessara sua serventia. Limpando o vapor condensado no espelho, no desejo do retorno da imagem refletida, olhou as marcas do rosto, os riscos nas faces. Pensava em assumir o grisalho dos cabelos, deixar de tingi-los.
Mudou de cômodo, passou ao dormitório, desnudou-se das vestes. Novo reflexo, agora corpo inteiro defronte da lâmina refletora do guarda-roupa. O desespero tomou conta dele: o antigo vestígio de saliência abdominal afigurava-se agora como ostensiva barriga. Recuperou a auto-estima flexionando os músculos do antebraço, gesticulando halterofilia. Desesperou-se ao recordar a academia abandonada havia sete anos. Lembrou o corpo esguio quando atleta do infantil do Nacional A.C.
Na fronte, evidenciava-se uma prematura calvície.
Novo ânimo o reconfortou, afinal, o sexo o mantinha vivo, continuava a praticar amor duas vezes por mês, mesmo que a esposa não soubesse. Estava na média, devaneava.
De súbito, o filho entrou no quarto e ficou rindo de seus movimentos, apontando para o pênis quase oculto, a dizer:
– Olha o dedinho do papai!
À espreita, na porta, estava a esposa, que não se conteve e soltou sonora gargalhada. Ruborizado, argumentou e acusou o inverno de ser a causa do miúdo órgão.
Toda vez que essa história era lembrada na roda de amigos, ele se defendia, sem perder a macheza dos tempos de juventude no Brás:
– Era o frio de julho, era o frio de julho!
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