As vacas amarelas do Tiro de Guerra 71

O Serviço Militar sempre foi obrigatório no Brasil.Hoje os jovens se alistam aos dezoito anos e aguardam um sorteio para servirem o Exército.
Nos anos 40, não havia sorteios nem mutretas. O rapaz completava a maioridade e ia servir em algum quartel. Podia, isto sim, escolher a Arma, profissão especializada: Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Engenharia e Intendência.
Tinham de prestar serviços durante dois anos. Se quisessem poderiam seguir carreira militar. Curso para cabo, sargento ou escolher a Academia Militar das Agulhas Negras.
Não tinha escapatória . Nenhum jovem fugia do trabalho militar. Se acontecesse isso, eram considerados desertores e cumpriam o tempo presos nas cadeias dos quartéis.
Ainda naquele ano de 1943 quando o Brasil tinha acabado de declarar guerra ao Eixo-Alemanha-Itália e Japão e se colocado ao lado dos Aliados, havia uma grande preocupação de convocação dos rapazes para a guerra. Entretanto, como tudo na vida encontra-se uma saída, bastava o moço que não desejava servir a Pátria fazer um curso de preparação militar chamado Tiro de Guerra.
Ainda hoje me pergunto: porque Tiro de Guerra? Título curioso. Mas era isso mesmo.
Apenas necessário ter mais de dezesseis anos. Em um ano, recebiam o Certificado de Serviço Militar e ficavam isentos de servirem o Exército.
Como Maneco, não queria nada com fardas, aos dezessete anos, imberbe ainda se inscreveu no Tiro de Guerra 71 de Infantaria, com sede instalada em baixo das arquibancadas do Sport Club Corinthians Paulista, no fim da rua São Jorge.
Ali os rapazes aprendiam as aulas práticas sobre armas de fogo, combates, biografias dos nossos heróis militares. Conheciam os postos da hierarquia. De soldado raso até marechal. A ordem unida, exercícios de passos militares com cadencias e evoluções em desfiles e cerimônias. Formação de Grupos de combates, pelotões, companhias, batalhões, divisões e tudo mais.
Manobras, marchas de média e longa distância. As marchas com fanfarras ou bandas eram feitas nas ruas do bairro e acompanhadas pelo povão com grande emoção. Vivíamos em tempo de guerra e havia um grande espírito nacionalista e orgulho patriótico.
Aos domingos faziam treinamento de tiro e guerrilhas simuladas no lado de lá do rio Tiete. O chamado Parque Novo Mundo não existia. Era o local entre o rio e uma grande rodovia que estava sendo construída. Diziam que iria chamar-se Via Dutra. Diziam. Era um matagal com apenas algumas picadas de lenhadores e carvoeiros. Viviam ali porcos do mato, macacos e algumas pessoas já tinham visto até onças. Vinham da Serra da Cantareira.
Os jovens eram obrigados usar farda , um uniforme completo. Quepe amarelo com o brasão das Armas da República, com pala envolvendo toda à volta da cabeça e aba de plástico preto.
Uma jaqueta ou dolmam com mangas compridas, culote, perneiras e botinas de couro preto.
Na gola um cordão acompanhando o colarinho e em suas pontas algarismos em latão dourado. O número 71. Um cinturão de couro, com uma grande fivela de metal dourado e uma tira transversal no peito chamada talabarte. A farda era de brim grosso, amarelo caqui.
Brim Coringa. Cor de hepatite . Isso para ser diferenciada da farda usada pelos recrutas do Exército que era verde oliva.
Por isso esses soldadinhos eram chamados de Vacas Amarelas!
Andavam em manadas.Odiados pelos soldados do Exército e Aeronáutica. Filhinhos de papai. Três vezes por semana participavam de exercícios militares. Quando havia treinamentos na cidade de São
Paulo, para a defesa de eventuais bombardeios aéreos. Eles patrulhavam a rua em plena escuridão. Eram manobras chamadas Blackout. Era mais farra do que guerra.
Depois de terminados os exercícios de rua ou as aulas teóricas, todos atiradores, como eram
chamados, se reuniam no campo de futebol do Corinthians (imaginem isso hoje) e cantavam o Hino Nacional. Sabiam na ponta da língua o Hino à Bandeira, o da Independência, e ensaiavam o mais novo dos hinos: o do Soldado Expedicionário Brasileiro. A Força Expedicionária Brasileira. FEB já lutava na Itália. Meninos Hinocentes aqueles Vacas Amarelas.

Depois de toda essa cantoria, vinha o tenente Juracy Pocú de Aguiar, diziam que ele era neto de índios, filho de cacique, e dava a última ordem da noite: Companhia, sentido! Dispensar!
Todos, cerca de mil soldadinhos saiam do clube para suas casas. Iam pelas ruas do Parque São Jorge cantando entusiasmados. Em bandos, rebanhos de Vacas Amarelas. Saiam a pé e seguiam pela rua até chegarem na Avenida Celso Garcia, para tomarem suas conduções. Muitos eram da região. Moravam por ali mesmo. Alegres, festivos, moleques, faziam sempre suas travessuras, contudo respeitavam os transeuntes e os moradores.
Uma noite resolveram fazer uma zombaria de rua. Era tarde, por volta de meia noite. Naquele tempo era madrugada, hoje é horário de noticiário de televisão. Pouco além dos portões de saída do clube, um deles, mal sabíamos quem, começou a urinar no meio da calçada andando normalmente. Urinou perto de vinte metros de extensão em linha reta. Outro molecão, gostou da brincadeira e continuou a mijadinha por outros vinte e tantos metros.
Outro mais aderiu ao segundo e procedeu da mesma forma, urinando também. E assim foram os demais. Pode-se imaginar uma fila de mais de cinqüenta rapazes fazendo aquela carreira urinária em parar. Foram mais de dez quarteirões mijados no capricho. Parecia obra de caminhão-tanque quando vaza.
No dia seguinte o cheiro estava insuportável. Uma catinga invadiu todo o bairro. O Tatuapé. Cheirava a mictório de boteco. Nove horas da manhã um grupo de moradores da Rua São Jorge reunidos comentavam o acontecimento. No Bar do Jácomo, os bebuns matinais experientes mijantes não acreditavam no que viam e no bodum que sentiam.
Era uma descarga de bexiga tão escandalosa que hoje apareceria no Fantástico ou Jornal Nacional. Mijada quilométrica. Até as comadres comentavam: "Absurdo quem fez isso devia ser preso. É uma vergonha, é essa molecada. Esses vacas amarelas do 71. Urinam em todos lugares."
-"Na frente do meu jardim, outro dia urinaram no meu cachorrinho que latia pra eles, dizia outra. Precisei dar banho nele três vezes e ainda ta cheirando mal ".
Arrematando os comentários uma senhora distinta e sábia falou :-"O que impressiona é que entre eles existe um que urinou desde o Corinthians até a esquina da Rua Vilela. Doze quarteirão,
Mais de cem litro. Imagine o tamanho da bexiga desse rapaz. Parece bexiga de cavalo… "

Não era cavalo. Eram os saudosos Vacas Amarelas.