Foto: Jose Cordeiro/ SPTuris

Como virei violeiro

Cleber Vianna
O Homem da Viola

Olá! Sou Cleber Tomás Vianna, mais conhecido por Cleber Vianna, O Homem da Viola. Tenho 52 anos e sou paulista de São José do Rio Pardo, interior de São Paulo, onde nasci numa fazenda chamada Ouro Branco. Meu contato com viola foi desde o meu nascimento, pois venho de uma família de artistas.

Meu finado pai, Laurindo Thomaz Vianna (Zé Taquara), fazia dupla com seu irmão Arlindo Vianna, e meu sono era embalado nas cantorias deles, principalmente nos dias de festanças lá na roça. Nosso tio Zelão era radialista em Guaxupé/MG, divisa de nossa cidade. Ensinou sua filha Pininha a cantar e formaram um trio chamado Zelão, Pininha e Cidinha. Zelão no papel de apresentador da dupla e animador dos shows delas.

Posteriormente, com a saída da Cidinha do trio, entrou a Verinha, que até hoje, de volta ao meio artístico depois de um tempo afastadas por motivos pessoais, está cantando com a Pininha. Em 1958, aclamadas pela famosa Revista Sertaneja, receberam o troféu Viola de Ouro.

Tínhamos na família também outra prima, a falecida Nilce, excelente acordeonista que muito nos animava. Por força das circunstâncias, ainda menino fui morar em São Paulo com minha mãe e irmãos e perdi contato com meu pai, que fora fazer shows por este mundão de Deus. Com quatorze anos de idade aprendi tocar violão com o finado amigo Itamar Gustinelli, e tempos depois me juntaram com a viola e não larguei mais (até que a morte nos separe).

Nosso tio Zelão foi para São Paulo e retomou a função de radialista nas Rádios Nove de Julho, Bandeirante, Nacional e Boa Nova de Guarulhos, onde ficou por mais de doze anos até o seu falecimento. Neste interregno de tempo, sua filha Pininha parou de cantar e Zelão, além do seu trabalho na Rádio, era circense e fazia apresentações musicais, além do espetáculo da dança com a "Nega Maluca". Muito conhecido no meio artístico, tornou-se amigo dos melhores violeiros e duplas do Brasil. Compositor que era, tem parcerias em músicas com Roque de Almeida (Sou Eu), um samba caipira, com Tião Carreiro (Viola Chic-Chic), com Francisco Lacerda (Moço Bonito) e com Jeca Mineiro (Desconfiada), além de outras de sua autoria solo.

Reencontrei meu pai, e aí então nasceu a dupla de violeiros. Zé Taquara & Taboquinha.

Não tivemos a oportunidade de gravar discos, mas não faltaram shows pra gente animar.

Nosso contato era constante com o tio Zelão e isto nos levou, face ao meio que convivia, a ter um perfeito entrosamento com os violeiros Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Luizinho e Limeira, Palmeira e Biá, Ranchinho Segundo, Dino Franco e Morai, dentre outros tantos que já se foram, e com eles, também se foi meu pai.

Na oportunidade, ensaiei um repertório e, formando um duo, Cleber e Roserli, gravamos em 1982 um disco com o carro chefe, Esquina do Mundo (Luiz Bonança e Maracaí) pela Itaipu, nos estúdios da Gravodisc (Chantecler). Disco com arranjos e produção feitos pelo meu amigo-irmão Santiago (Flor da Serra e Santiago) e escritos pelo maestro José Juvenil de Lacerda, o Pinóchio.

Tivemos a participação do João Mulato (João Mulato e Douradinho) na criação do arranjo da música O Boiadeiro, e contamos com a presença de ilustres músicos, como o maestro Oscar Nelson Safuan (viola, violão quinto e harpa paraguaia), maestro Evêncio Ranã Martinez (piston), Walter Antonio Barreto (violões), Lázaro Lopes (Pirulito), João Batista Lemos, o Escurinho do Viola Minha Viola (ritmo), Ivan Soares de Oliveira (berrante), maestro Alexandre Ramires, Glauco Masahiro Imasato, Helena Akiko Imasato e Aldemir Téo B. Salinas (violinos).

Com o disco debaixo dos braços, saímos em viagens a outros estados do Brasil, gravamos clipes pela Rede Globo (TV Morena), TV Tupi (programa do Picarelli), TV Bandeirantes (programa do Flôr da Serra), fizemos inúmeras audições na grande maioria das rádios deste Brasil, alcançando o primeiro lugar durante uma semana na cidade de Campo Grande/MS com a música Manhã de Primavera (Santiago e Cleber Vianna).

Em Fátima do Sul/MS, tivemos a oportunidade de dividir o palco com o Almir Sater, que se apresentava com Alzira Spíndola, irmã de Tetê Spíndola.

Em São Paulo, era constante o contato com os violeiros. Coisa de atração fatal (risos). A viola reúne os violeiros e, como canta o João Mulato… Vou aonde tem amor, onde tem ódio não quero ir, no lugar que tem viola eu chego e não quero mais sair…

Fazendo valer esta moda, a gente se reunia no Café dos Artistas, na Praça Júlio Mesquita, ao largo da Avenida São João, lugar frequentado por violeiros, duplas, donos de circos, empresários, compositores, enfim, numa busca mútua de entrosamento e diversão. Não faltavam os jogos de carteado, os toques de viola e as cantorias e as trocas de informações sobre as viagens a lugares ainda desconhecidos pelo outro.

Tantos anos nesta lida dariam pra escrever um livro sobre a peculiaridade de cada violeiro. Cada artista, cada barzinho daquela região, lembra um detalhe, um momento vivido com um companheiro.

Quando estava preparando repertório pro meu disco, fui com o Tião Carreiro na casa do Lourival dos Santos pegar uma letra sua, inédita, de parceira com Arlindo Rosas. Por motivos outros não a gravei, mas a guardo até hoje comigo como relíquia e recordação.

Do Bambico trago na mente o dia em que, no intervalo de um show que fazíamos, no festival de violeiros de Santo Amaro, tomamos quentão e ele falava de sua paixão pela viola caipira, parece que prevendo que dias depois iria tocar viola em outro lugar mais distante da gente.

Acompanhei bastante tempo o João Mulato nesta transição pós-morte do Bambico. Viajamos pra Lençóis Paulista, Bauru, Fernandópolis, onde morava seu pai, e ainda tive o prazer de levá-lo a conhecer minha querida terra São José do Rio Pardo e os meus queridos primos Vianna (tinha time de futebol completo e reservas dos Viannas). Aow, povo bom. O João Mulato tinha uma paciência de Jó, pois cada repicado que dava num pagode pedia pra ele repetir, pois tava doido pra fazer ao menos algo parecido com o toque dele.

E o amigo Goiano era outro que me aturava nos ponteios das violas. A gente também andou bastante por aí. Nos shows políticos, na Loja do Derço Lopes, do Mário no Brás, na Praia Grande, nas churrascadas nos sítios por aí, shows em Mairiporã, na casa dos tios do Paranaense. No Recanto Goiano, no Viola de Ouro do Vital (compositor da música Obras de Poeta), no Recanto Goiano, na Bela Vista. Ali também cantavam os amigões Joselito e José Vitor, até o Tião Carreiro e Pardinho cantaram lá na inauguração da casa.

O João Mulato às vezes vinha na minha casa, outras ia a casa dele e o mais legal era quando a gente se encontrava na fábrica de viola e violão D'Valeo, do Valério e Gentil, na Alameda Eduardo Prado. Estes amigos me cederam uma sala e lá tinha meu escritório de representações comerciais. Imaginem que beleza, unir o útil ao agradável. Os violeiros vinham testar as violas e violões, e aí cadê que eu trabalhava mais? Largava a caneta na mesa e me juntava com o povo no salão da fábrica. Defronte tinha um bar onde invariavelmente, entre um toque e outro, um teste nesta ou naquela viola, pra matar a sede de tanto trabalhar nas cordas, a gente mandava buscar a geladinha e o "pau caía a foia". Mas pra isto alguém tinha de sair da folia pra ir buscar a cerveja, era uma briga pra saber quem é que iria. Todo mundo tava doido pra matar a sede, mas ninguém queria buscar.

O Ronaldo Viola sugeriu ao Valério, sócio da fábrica, dado ao grande espaço que a fábrica tinha, que colocasse ali um freezer (cheio delas), uma fritadeira elétrica pra rolar uns petiscos (lingüiça, batata frita) e algumas mesas e cadeiras. Pronto… A fome com a vontade de… Beber!

Dois dias depois, a entrada principal do salão da fábrica estava com um tapume tapando a visão da rua, mesas e cadeiras espalhadas, freezer e fritadeiras a postos e o melhor: o Valério fez um palco. Coloquei o meu som que usava nos shows, microfones nos pedestais, violas, violões e cavaquinhos pendurados à disposição do violeiro que chegasse. Virou ponto de violeiros.

Tivemos ilustres cantadores naquele palco: João Mulato e Douradinho, Tião do Carro, Adauto Santos, Manoel (Joaquim e Manoel), Santarém, Joselito e Jose Vitor, Zé Matão, Zé Barqueiro, Santiago, Ovelha… Enfim, até eu, né? Também dei minhas palhinhas por lá. Ô saudade! Quem mandou eu me mudar de lá?

Tantos destes amigos já se foram e eu não pude estar perto deles pra despedida final, um último repique na viola. Tá marcado pra quando eu me juntar com eles. Vai ser uma festança!

Bom, vamos lá! Com o fim do Duo Cleber e Roserli, fui passar uns tempos em Pirajuí, interior de São Paulo, próximo a Bauru, no sítio do Derço Lopes, com o inseparável amigo-irmão Santiago, e começamos a preparar um repertório pra gravar um CD, ficamos lá uns seis meses.

O destino me arrastou pra outra direção, tô em Salvador, longe de São Paulo uns 2500 km. O Santiago e o cd me aguardam para desfecho final há uns onze anos. Mas ele me disse que ainda tem o tempo todo do mundo para isto acontecer.

Então meu povo, logo, se Cleber Vianna e Santiago juntarem-se com as violas e num uníssono cantarem o que o povo quer… Sairá coisa boa!

Distante do povo meu, continuei com a viola no peito. Com a crescente demanda virtual, me enveredei pela internet afora. Descobri que nunca é tarde para aprender. Com esta maravilhosa e fantástica ferramenta internética, reencontrei velhos amigos, fiz novas amizades e tive a oportunidade de ver de novo meu sonho em alta perspectiva de realização.

Vejam a página que ganhei da amiga Lílian: http://www.lilianpoesias.net/cleber_vianna.htm

Inicialmente, por intermédio de um site de relacionamento de afinidades, pude conceber e idealizar a Casa dos Violeiros, com o propósito de congregar em seu seio violeiros, amantes e aficionados pela viola caipira, na finalidade de fazê-los participar de suas atividades virtuais por meio do seu site http://www.casadosvioleiros.com/, no qual se divulga, de forma ampla, a história da viola e dos seus principais expoentes, os grandes violeiros que fizeram a história da viola caipira.

A Casa traz métodos, indicando formas e jeitos de se aprender a tocar a viola caipira, com dicas de professores especializados no assunto, a luthieria com profissionais reconhecidamente qualificados, e traz ainda as dicas da famosa cozinha caipira, contribuindo assim, de forma ativa, na preservação da cultura regionalista e folclórica do nosso país.

O site foi desenvolvido e cuidado pelo violeiro e webdesigner Cleberson de Carvalho, que teve o incondicional apoio de outros violeiros membros da comunidade, como o luthier e violeiro Luciano Queiroz, o violeiro Daniel Viola, o violeiro Jociano Brait, a eleita carinhosamente madrinha da Casa dos Violeiros Uxélia (Lucy Figueiredo), além de outros tantos amigos e violeiros que daria uma lista telefônica se os fosse mencionar no momento. Seus nomes estão gravados na mente e no coração.

Hoje a Casa dos Violeiros toma novos rumos. Além de manter a sua tradição virtual, projeta-se construí-la fisicamente. Fato que estamos cuidando com bastante esmero para que ela possa ser usufruída por todos os violeiros que nela queiram habitar.

Pois é, meus amigos, taí um pedaço de minha vida. Reservei algumas gravações que disponibilizo para audição, algumas do disco que gravei, outras, gravações caseiras bem antigas, outras feitas no computador e algumas do próximo disco que pretendo gravar.

e-mail do autor: [email protected]