Minha irmã e eu fazíamos o cursinho de admissão com o professor Rangel, muito conhecido na época; aliás, muitas escolas adotavam o seu livro.
Eu tinha catorze anos e era bem criançona, mal prestava atenção nas aulas, passava a maior parte do tempo brincando com tampinhas de garrafa, e quando o professor Rangel passava por mim resmungava: “Pobrezinha, tão pequenina!”.
O cursinho acabou e não aprendi nada. Ou aprendi?
Algum tempo depois lá estava eu estudando no Colégio Estadual Alberto Levy. O meu pai nos deixava no cursinho, na Rua Correia Dias, e, depois da aula, com a barriga roncando de fome, subíamos a ladeira até o ponto do bonde.
Nosso colega Julio (nunca me lembrei de seu sobrenome) tinha um motorista que ficava à sua disposição com um belo Mercedes-Benz azul marinho. Todos os dias eles nos ofereciam carona até o ponto e sempre ouviam a mesma resposta:
– Não podemos pegar carona com estranhos.
Então, o Julio e o motorista iam nos acompanhando até o ponto. Inacreditável! Eles no carrão e nós duas a pé!
Um belo dia o Julio me deu uma caixinha toda embrulhada. Muito sem jeito, abri o presente: um anel. Meio sem graça, eu lhe devolvi a caixinha e tentei explicar que eu não podia aceitar. Inacreditável!
Voltando ao nosso trajeto: depois da ladeira, andávamos mais um pouquinho até o ponto, e como o bonde chegava quase sempre vazio, podíamos escolher os nossos lugares.
Andar de bonde era bom demais! O motorneiro, todo uniformizado, muito elegante e sempre simpático com as pessoas. O cobrador fazia a todo instante entre os dentes um assobio estranho e de som bem baixo, trazia quase em todos os dedos muitas notas bem dobradas de dinheiro, e com tremenda facilidade caminhava o tempo todo de um lado para o outro recebendo o pagamento e, se não estou enganada, picotando os bilhetes. Os bancos em madeira pareciam encerados. Era possível reconhecer o homem de terno escuro e a senhora gorducha do dia anterior! O barulho cadenciado das rodas sobre os trilhos e o vento encostando em nossos rostos.
Em alguns dias era só o bonde percorrer um pedaço do caminho que minha irmã super pálida me olhava e dizia:
– Estou mal, vai acontecer.
Muito aflita, eu lhe dizia que ficasse bem, mas de repente ela esmorecia e eu, apavorada, a acolhia no meu corpo pequeno, assoprava o seu rosto lhe pedindo que acordasse.
Um tempinho depois ela abria os olhos e, como se nada tivesse acontecido, dizia:
– Onde estamos? Estou com uma fome!
A essa altura, o bonde já percorria a Avenida Ibirapuera e eu respirava aliviada quando via a Igreja Nossa Senhora da Aparecida, a casa do Castelinho. Mais adiante: o barbeiro, a loja de armarinhos Sulamita, a fábrica de linhas Setta, a tecelagem Indiana, a casa do amigo de meus pais o arquiteto Rui Gama e sua esposa Maria Lucia, o restaurante Winduk e bem ali na Avenida Ibirapuera, esquina com a Avenida dos Eucaliptos, a parada Vila Helena! E esperando por nós, uma senhorazinha pequena, de cabelos grisalhos, nossa avó Mercedes.
Descíamos do bonde felizes querendo saber o que a mãe tinha feito de almoço e qual era a deliciosa sobremesa do dia! E o bonde seguia o seu trajeto até Santo Amaro.
Com gostinho de travessura, catávamos umas pedrinhas e rapidamente as colocávamos sobre o trilho. Pedia paciência para minha avó e, então, nós três, meio que escondidas na esquina, olhávamos o outro bonde passando sobre as pedrinhas e as faíscas surgindo. Ah! Era grandiosa tal travessura!
No ano de 1968 os bondes foram tirados de circulação. Minhas irmãs Marta, Maria Fernanda e algumas amigas chegaram a tirar algumas fotos com o bonde em sua última passagem pela parada Vila Helena. Apesar de todo manifesto feito pelos moradores do bairro para que fosse preservado o trabalho de identificação da Parada Vila Helena, todo feito em azulejos azul e branco no grande muro da esquina, de nada adiantou, pois algum tempo depois essa identificação foi retirada.
Quanto ao problema de minha irmã Me, nada foi diagnosticado. Apenas foi dito que com o tempo esse desmaio não mais ocorreria. E, num momento qualquer de sua vida, nunca mais aconteceu.
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