Em 1977 fiz dois cursos pelo SENAC: Secretária Auxiliar e Recepcionista Comercial, com duração de vinte horas cada curso. As aulas foram dadas no Liceu Santo Afonso e começavam às 17h00 e terminavam às 19h00.
Além das aulas de redação oficial para a prática comercial, nomenclatura de diversos documentos, como se comportar na empresa, havia também aula de "como se vestir" e "como se maquiar" no dia-a-dia, para que aparecêssemos como moças distintas e nada com extravagância! Aprendemos a ter peças básicas no armário e fazer combinações para a semana inteira, sem repetir o visual.
A aula de maquiagem era só teórica, mas tudo bem, pois o professor nos avisou que no penúltimo dia de aula seria na prática: ele ficaria com uma aluna para demonstração e as outras maquiariam umas às outras.
Foi aí que o bicho pegou! Como tenho a pele bem branca, fui eu a cobaia do professor. Ele dizia que a minha pele, por ser muito clara, tinha de ter muito cuidado com o que se passava no rosto para não ficar parecendo um palhaço. Ele tirou a "minha maquiagem" feita em casa e meteu a mão na massa; disse que seria exemplo para uma festa à noite.
Lá veio com um pancake (meu rosto parecia de porcelana!), batom (não da cor que eu gostava…), sombra azul até a sobrancelha (nunca usei e não gosto) e delineador (também nunca gostei de usar, só uso lápis).
Depois de já ter começado a me deixar diferente do que eu era, resolveu colocar cílios postiços (pois os meus são bem curtos!). Pior de tudo isto foi que não havia nenhum demaquilante para tirar tudo aquilo. Os cílios eram emprestados e eu teria de devolvê-los no dia seguinte. Conclusão: teria de ir para casa daquele jeito mesmo.
O Liceu está perto da igreja da Penha. Eu tomava o ônibus no Mercado Municipal da Penha, na Gabriela Mistral. Tive de atravessar a Rua Penha de França às 19h00 de uma quinta-feira de junho da seguinte forma: calça jeans, camiseta branca, tênis (como toda e qualquer adolescente) e com cara de perua, com pancake, sombra azul e cílios postiços. Só dava eu.
Consegui atravessar o corredor polonês e cheguei ao ponto de ônibus. Me sentia a própria extra-terrestre. Todos olhavam para mim e acho que imaginando: "ela está indo ou vindo de um bordel? Tadinha… tão novinha…". Tinha de fingir que não era comigo!!!
Veio o ônibus. Subi já meio espremida entre os demais, pois o ônibus estava lotado. Como eu descia logo, fiz de tudo para ficar na frente.
Acabou? Não. Um dos cílios ameaçava cair e eu já quase não enxergava, pois ele estava meio colado, meio caindo… Tirar ou não tirar, eis a questão… Não tirei. Fiz malabarismos com minha pálpebra para que ele lá ficasse até chegar em casa.
Quando chego em casa, minha mãe leva um susto. Em poucas palavras mandou que eu retirasse imediatamente aquela meleca do rosto. Cobaia de professor? Nunca mais…
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