Em 1952, o Colégio Gitema funcionava na Avenida Paula Ferreira, quase esquina com a Rua Antonieta Leitão, e o seu proprietário e diretor era o Professor Antonio Ortolan e sua esposa Dona Judite.
Nessa época, eu e meu amigo Mario, mais seu mano Carlos Roberto (Beto), juntamente com o nosso vizinho Aguinaldo (Gatão ou Ado), estudávamos todos no mesmo horário, das 13h00 às 17h00, na admissão ao ginásio do colégio acima citado. Na época tínhamos a mesma idade, ou seja, perto de catorze anos.
Um dia, uma vizinha nossa e amiga chamada Haydee recebeu para passar umas férias em sua casa uma prima, de nome de Doroti e que morava no vizinho bairro da Lapa.
Doroti, já no terceiro dia, conquistou a simpatia minha e dos meus três amigos, e os três, sem a coitada saber, ficamos apaixonados por ela. Ou seja, cada um dos quatro se dizia namorado da visitante, que por sua vez ignorava a paixão dos quatros amigos.
Depois daquelas férias, Doroti voltou para sua casa, deixando para trás aqueles jovens corações apaixonados – e todos os quatro a se vangloriar de ser o namorado da Doroti.
Voltaram às aulas e os quatro apaixonados não pensavam em outra coisa a não ser tornar a ver a bela Doroti.
Com a nossa amiga e vizinha Haydee, conseguimos o endereço, que era na Rua Moxei, na Lapa de Baixo, e então não deu outra: marcamos um dia da semana para cabular as aulas e irmos até a Lapa ver a nossa amada.
E então, no dia marcado e por nós escolhido, faltamos às aulas e fomos para o bairro da Lapa. Cortamos caminho pela futura Vila Arcádia, que na época estava ainda sendo loteada pelos proprietários da chácara que um dia seria a Vila Arcádia, vizinha da recente Vila União, as duas vilas mais antigas da região do Piqueri, que iniciavam, nessa época, sua missão de fazer a grandeza da Freguesia do Ó e de São Paulo.
Atravessamos de forma perigosa todo um braço do Tietê, chamado de Tietê antigo. O rio era fundo e nós atravessamos pisando sobre uma floresta de aguapés, que se acumulara nesse braço de rio, transformado em um comprido lago onde os jovens, no quente verão, nadavam e mergulhavam do alto da ponte velha do Piqueri, que era de madeira.
Chegamos, olhamos a casa onde ela morava, mas ninguém teve coragem de bater e perguntar por ela. Resultado: faltamos à aula, ficamos com fome, pois deixamos nossos lanches e o material escolar escondido no mato, e não vimos a Doroti. A volta foi uma frustração só.
Para minha desgraça, minha mãe, antes do término das aulas, foi até o colégio pedir para que eu pudesse sair mais cedo para levar-me à casa de uma tia, que fazia aniversário justo nesse dia.
Apanhei, fiquei de castigo, e acho que sou o único dos quatro que se lembra dessa história. A única vantagem é que esqueci a Doroti, nunca mais cabulei e, de certa forma, descobri que apanhar faz muito bem para a memória. Pois é coisa que a gente não esquece jamais.
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