Já é recorrente o tema das injustas e cruéis demolições a que são submetidos ícones de nosso patrimônio histórico. Os exemplos são inúmeros, infelizmente: a mansão dos Matarazzo na Paulista, o edifício do Automóvel Club no Anhangabaú, além das incontáveis casas antigas que vêm se tornando cada vez mais raras nos bairros tradicionais de São Paulo. Mas nenhum destes casos é tão revoltante, primitivo e estúpido quanto a demolição do Palacete Santa Helena, um dos mais belos prédios que São Paulo já teve. E perdeu.
Perdemos em 1971 sua fachada única, seu portão metálico impressionante e seu teatro que rivalizava em beleza com o Municipal. Apenas imagino os adjetivos que aqui coloco, já que o Santa Helena morreu antes de meu nascimento.
O ato foi de tamanha estupidez que nem mesmo as esculturas presentes na fachada do edifício foram poupadas da sanha demolidora, em que tudo foi reduzido a lixo e poeira.
Há, sem embargo do caso paulistano, história ainda pior. Um crime cometido no Rio, contra o patrimônio histórico brasileiro.
O Palácio Monroe, cuja origem remonta ao amanhecer do século XX, era uma das mais belas edificações da região central do Rio, sendo verdadeira porta de entrada da Cinelândia e perfazendo, juntamente ao Teatro Municipal, o MNBA, a Biblioteca Nacional e a Assembléia Legislativa, talvez o mais belo conjunto arquitetônico da cidade.
Foi pavilhão de exposições por muitos anos, chegando até a ser sede do Senado Federal. Quando o metrô teve de rasgar o centro do Rio, não poupou esforços para preservar a construção, embora muitos ainda acreditem que ele tenha sido o responsável pela demolição.
Na verdade, uma curva na trajetória do metrô ainda hoje é sentida por quem dele faz uso, exatamente no local em que se encontrava o Palácio. Sua estrutura era verificada duas vezes por dia durante as obras, e sua escada foi removida provisoriamente por especialistas italianos, para não sofrer qualquer abalo pela obra.
Enquanto isso, promovia o governo federal, com providencial ajuda do Jornal O Globo, intensa campanha contra o tombamento do Palácio. Era tratado como um "monstrengo arquitetônico". Isto tudo porque E. Geisel era inimigo do filho do Coronel e Engenheiro Francisco Marcelino de Souza Aguiar, autor da obra, sendo "questão de honra" botá-lo abaixo. E o fez, pouco tempo depois. Seus vitrais, escadarias, mármores de Carrara, foram vendidos a preços exorbitantes, haja vista a qualidade do material. Já vi fotos inclusive do transporte dos famosos leões que adornavam suas escadas principais. Hoje descansam em uma instituição em Pernambuco.
Para quem não conhece o local referido, é onde atualmente se encontra o "chafariz do Monroe" (praça do Monroe). A praça vazia denota o que a região poderia ser em termos de beleza arquitetônica. Assim como poderíamos ter um belo teatro em plena Praça da Sé. Temos, isto sim, uma enorme praça vazia. Sucedem-se administrações sem resolver o problema de "integrar" o espaço urbano da Sé. Ninguém consegue. Não enquanto alguém se lembrar que ali, naquele espaço, houve um majestoso palacete chamado Santa Helena.
Muitos dele já se esqueceram, muitos acreditam que a Praça Clóvis não mais existe, muitos acham que a Praça da Sé sempre foi daquele tamanho.
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