Início dos anos 60, moleque de tudo, fui morar no Sumaré. Bairro tranqüilo, onde a gente podia andar de bicicleta sem medo do trânsito nem de outros pavores tão comuns hoje nas grandes cidades.
Fomos viver num sobrado novinho, que minha mãe tinha adorado, na Rua Dois, número 43, uma travessa da Rua Plínio de Moraes. A nossa rua e a Rua Três, na seqüência, haviam sido recém-abertas. Ainda eram de terra batida, apesar das primeiras e bonitas casas que estavam sendo construídas por lá, naqueles primeiros anos dos 60. A nossa, embora não fosse a maior, nem a mais bonita, era uma casa gostosa, ensolarada, agradável. Palco da melhor fase da minha infância.
A proximidade da nossa rua – hoje Rua Prof. Paulino Longo – com a extinta TV Tupi alimentou muitas de minhas ilusões dos tempos de menino.
Era no depósito de lixo da TV Tupi que eu e a molecada íamos garimpar pedaços de cenários, objetos de cena e figurinos descartados pela emissora. Pulávamos o muro e ficávamos um tempão ali, vasculhando o lixo artístico, à procura de espadas de mentira, paisagens pintadas em painéis, restos do que havia sido parte daqueles programas que a gente assistia.
Uma vez, achamos alguns fotogramas dos Flintstones, o desenho. Foi uma briga pra ver quem ficava com aqueles poucos centímetros de celulóide. Eu perdi, não me lembro quem levou o troféu.
Nas tardes livres íamos para a porta da TV Tupi e para a Padaria Real, na esquina da Alfonso Bovero com Dr. Arnaldo ver, emocionados, os artistas de perto, pra depois contar pra todo mundo que tínhamos visto o Carlos Zara, a Beth Mendes, a Natália Thimberg, o Walter Stuart, o Homero Silva, a Vilma Bentivegna, a Ana Rosa, o Sérgio Cardoso…
Naquela época, o Ayrton Rodrigues e a Lolita se mudaram para a Rua Três, hoje, Maria Vidal, humorista que morava num casarão velho na Alfonso Bovero e que morreu pobre, se não me engano suicidou-se em meio aos gatos que criava. Houve polêmica quando, em sua homenagem, rebatizaram a Rua Três de Rua Maria Vidal. A classe média emergente do bairro arrancou as placas e se recusava a chamar a Rua Três de Rua Maria Vidal.
Lolita, muito bonita na época, e Ayrton tinham uma filha, a Silvinha, que brincava muito com a molecada da Rua Dois. E, de vez em quando, íamos a alguma festinha na casa dela, com o coração acelerado, pois era sempre certo encontrar por lá um monte de artistas conhecidos da Tupi e da Excelsior.
Aquele mundo da televisão, tão perto da nossa realidade, mas ao mesmo tempo tão mágico, tinha um encanto inexplicável. Eu me lembro de colecionar as cintas do sabonete Palmolive para enviar numa cartinha para a TV Tupi, sonhando ganhar – se fosse sorteado – um filhote do Rim-Tim-Tim, ou um uniforme do Cabo Rusty.
Eu me lembro de mentir em casa que iria à missa de domingo na Igreja Nossa Senhora de Fátima e parar quarteirões antes, na Tupi, para assistir ao Programa Júlio Rosemberg, quando vi pela primeira vez um tal de Roberto Carlos, meio tímido e pouco expressivo, começando sua carreira.
Os artistas da Tupi tomando café e comendo sanduíche na padaria da esquina, ainda maquiados e com as roupas de seus personagens, os restos de cenários, o agito na porta da emissora, e à noite, tudo aquilo transformado em programas em branco e preto, toscamente produzidos, foram elementos que povoaram o mundo da minha infância no Sumaré.
Eu não perdia um episódio do Papai Sabe Tudo. Nos domingos de manhã, ainda de pijamas, via o Flash Gordon, patrocinado pela Aveia Ferla – que ia bem no mingau, na vitamina e na papa de banana.
À noite, acompanhava meu pai assistindo ao Repórter Esso, ao Clube dos Artistas, e a minha mãe às primeiras novelas. Se o Mar Contasse era uma delas, com a Ana Rosa e o Henrique Martins.
Bons tempos aqueles. Não voltam mais. Foram-se junto com a nossa ingenuidade. Hoje são tão distantes que fica difícil acreditar que realmente existiram.
Não foi só a TV Tupi que desapareceu. Aquele Sumaré-Hollywood do começo dos anos 60 também é outro. Como eu e você também somos. Cada um com suas doces lembranças de criança. Quase tolas. Sempre nostálgicas.
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