Nos anos 50 meu pai comprou um cavalo de corrida. O nome do cavalo era Durvalino. Assim, o animal ocupava uma cocheira do Jockey Club de São Paulo, com todas as mordomias que lhe eram devidas. Alimentava-se com aveia, cenouras, alfafa de boa qualidade, remédios apropriados, fisioterapia, um tratador diário. Escovação era o que não faltava, e diariamente dava aquela estirada em torno das pistas do Jockey.
Custava um dinheirão manter o Durvalino, e era exatamente esse o problema. Meu pai comprou o Durvalino juntamente com um sócio, mas como o cavalo não ganhava uma corridinha sequer, esse sócio acabou desistindo e deixou o cavalo para meu velho. As despesas aumentavam e meu pai não podia mais sustentar o bicho, pois o orçamento doméstico era precário. Era a família ou o cavalo.
Não é que num belo domingo o Durvalino acordou inspirado e correu como nunca, chegando em primeiro lugar? O velho saiu na foto segurando a rédea do cavalo, ambos sorridentes, e logo em seguida alguém bateu no ombro de meu pai de perguntou:
– O senhor quer vender o cavalo?
Não lembro quanto foi a oferta, mas diante da necessidade meu pai não pensou duas vezes:
– Fechado!
E lá se foi o Durvalino, puxado por um novo proprietário.
Bom, vocês vão perguntar o que aconteceu a partir daí. Meu pai ficava desesperado cada vez que ouvia pelo rádio as transmissões das corridas, e ouvia o locutor falar:
– E atençãoooofoidadaapartidaparasegundopareodoprograma. TomaapontaDurvalino.
Meu pai não acreditava no que estava ouvindo. O que teria acontecido com aquele cavalo?! E o desespero era total quando o locutor falava:
– …ecabeçaacabeçacruzamodiscofinal. Durvalinovenceu porumfocinho!
Pasmem! Meu pai teve de ouvir a vitória do Durvalino por dezoito corridas.
e-mail do autor: [email protected]