Re-visitando o centro da cidade

Neste sábado de 23 de agosto, fui ver como estava a cidade de São Paulo, cujas ruas, até o ano de 1969, eu tinha como a passarela dos meus passos.<br><br>Era um tempo em que fervilhava de pessoas nas Avenidas São João, Ipiranga, Duque de Caxias, Rio Branco. As ruas Don José de Barros, 24 de Maio, Barão de Itapetininga, Conselheiro Crispiniano e Sete de Abril formavam um autêntico quadrilátero do Footing, imitando uma praça qualquer do interior de São Paulo.<br><br>Cinemas lotados e, às 22h00, os bares, lanchonetes e pastelarias tinham pessoas disputando lugar para comer ou beber algo. Pessoas alegres, cada qual contando detalhes do filme assistido. Ou então comentando os resultados do futebol, já com o Jornal da Tarde na mão, ele que saía aos domingos às 19h00, a partir do ano de 1966.<br><br>Neste sábado vi tudo ao contrário.<br><br>Pequeno número de pessoas passando por essas ruas. E essas pessoas não estavam passeando como nos anos 1960, época em que eu desfilava como um curioso, à procura de um programa, que podia variar entre ir ao cinema, ou ver uma boa fita, jogar bilhar no Maravilhoso, ou tentar a conquista de uma moça, das muitas que, exuberantes, desfilavam suas silhuetas. Agora, as pessoas andavam com pressa; na certa estavam deixando o trabalho e buscavam chegar mais cedo em casa.<br><br>Cinemas, nem pensar. O Metro virou igreja. O Art Palácio não é mais o mesmo – ficou dividido em salas de filmes duvidosos. Na Avenida Ipiranga, um cinema de pequeno porte, Cine Paris, com filmes suspeitos. Os cines Ipiranga e Marabá, um de frente para o outro, estão fechados.<br><br>Ainda bem que daí surgiu uma boa notícia. Segundo Cláudio Ribeiro (o Cotonete), camelô que vende fichas de telefones e envelopinhos de incenso na Avenida Ipiranga, há coisa de vinte metros da Avenida São João, os cines Ipiranga e Marabá voltarão a funcionar. O Marabá já está sendo reformado pela PlayArte, devendo reabrir no próximo mês de abril, dividido em cinco salas.<br><br>Depois virá a reforma do Cine Ipiranga, também pela PlayArte. Ainda fiquei sabendo que o Cine Ipiranga foi sondado, tempos atrás, para ser uma igreja de crente. A dona dos cinemas, que também é dona da PlayArte, disse “não” em tom alto. “Jamais meus cinemas se tornarão templos religiosos”, segundo Ribeiro.<br> <br>Quando disse a ele que ia no Maravilhoso jogar um bilhar, freqüentado por grandes jogadores, como Praça e Carne Frita, relembrando os tempos em que eu era o andarilho da Paulicéia, ele riu, quase engasgando, e perguntou: “Você tem carro?”. Ao ouvir a resposta “sim”, disse: “Então deixa seu carro lá, agora é um estacionamento e tem seguro contra roubos”. Então, gente, saibam que na Avenida Ipiranga tem um estacionamento Maravilhoso.<br><br>Bem, como antes pensei em molhar o bico e salgar a boca, e estava no cruzamento mais famoso da cidade de São Paulo, pensei logo na Salada Paulista, que deixou muita saudade. Em seu lugar estava o Habib’s, completamente fora dos padrões da antiga casa de lanches, com aquele bonito mural de azulejos com as efígies do casal de portugueses, fundadores da casa.<br> <br>Não deu para comer nada. Quem estava acostumado com a antiga lanchonete não podia nem pensar em comer ali. Uma casa toda descaracterizada, tanto pela reforma do prédio quanto pela comida.<br><br>Como estava bem próximo ao Jeca, fui correndo nele. Vi algo de estranho. O Jeca não mais existia. Fiquei saudoso daquela lingüiça assada naquele rolete, com vários cilindros girando com as lingüiças em cima, como também se fazia na Salada Paulista, e o chope geladinho de colarinho saudoso.<br><br>Ao ver a placa na fachada, vi que o ex-Jeca agora é uma casa de sucos, com o titulo Uva e Caju. Como queria rever o velho chope, olhei do outro lado em frente, esquina da São João, no sentido Duque de Caxias. Ali ficava o Bar Avenida. Estava fechado, com as paredes todas rabiscadas por vândalos. A seguir, ainda na São João, várias portas fechadas com os mesmos rabiscos. Porém, o Rei do Mate continuava resistindo, e com gente saboreando o chá gelado mais gostoso da cidade. Mas eu não queria chá, e sim chope.<br> <br>Do outro lado continua o imponente City Bank, do outro lado o Bar Brahma, porém com preços bem caros. Só para entrar custa R$ 50,00, por causa de um show musical, fora o chope, ou salgado, que descer amídalas abaixo.<br><br>Então faltava só a Kibelândia. Pensei naqueles kibes grandes bem fritos que saboreava toda vez que por lá estava, ou então o kibe cru, numa botija quadrada, que eu demorava para comer todo.<br><br>Também a Kibelândia já era. Em seu lugar, um pequeno shopping de sacanagens. Uma bela iluminação e vendas de perucas, consolos, capas penianas, vaselina e cremes amaciantes. Ah. Tinha uma escada que levava ao patamar superior, onde se podia assistir a alguma peça pornográfica.<br><br>Na minha cabeça, então, estava a pastelaria do chinês, na esquina da São João com o Vale do Anhangabaú, ou então aquele formidável bar de baixo do Cine Cairo, Rua Formosa, ou quem sabe o Guanabara, também na esquina da São João, em frente ao Correio central.<br><br>Caminhando pela São João, que nos meus tempos de andarilho era uma via normal com carros e ônibus, agora está mais um calçadão, com uma canaleta imitando uma rua por onde passa praticamente um veículo. Mas desisti de chegar até lá, pois debaixo de uma fachada mais avançada tinha muitos colchões, panos e cobertores, com muita gente deitada cheirando a fezes e urina. Realmente São Paulo está uma cidade limpa. Parabéns Giba.<br><br>Voltei à esquina mais famosa, em que um dia Caetano Veloso pensou ter descoberto a paulicéia e, bestamente, esqueceu o nome da cidade, e disse apenas Sampa. Na metade do "enredo" falou que as nossas meninas eram isso mais aquilo, pensando que ele era o Deus da cidade.<br><br>Ali voltei a conversar com Ribeiro, o cotonete. Olhando de esgueio você pensa tratar-se de um mendigo. Cabelo pixaim alto, mas com um turbante de tricô na cabeça em formato redondo; chama muito a atenção das pessoas. Bem falante, Cotonete ia dizendo, que foi um dos fundadores dos Gaviões da Fiel, em 1969. Hoje está fora das atividades, e o motivo não disse – e nem me passou pela cabeça perguntar. Já foi a várias copas do mundo, com o dinheiro que ele ia juntando na venda de camisas de rock and roll que fabricava. Foi nas copas do mundo de 1978, na Argentina; 1982, Espanha; 1986, México; 1990, Itália; 1994, Estados Unidos; 1998, França; e em 2002, Japão.<br><br>Desejava ter patrocinadores para ir na próxima copa, que era na África. É um personagem com quem vale a pena se fazer uma reportagem para o rádio ou TV, mas ele cobra por isso. É bastante procurado, mas ninguém quer pagar. Sua raiva foi pelo fato de uma pessoa ter conversado com ele e ouvido toda sua história. Era um estrangeiro que, sem ele perceber, tinha um gravador por dentro da roupa gravando toda a conversa. Em Londres, lançou um livro com sua história, e vende a 25 dólares cada exemplar. Ele não consegue receber nada, pois um advogado cobra muito caro – então ele deixou pra lá.<br><br>Há não muito tempo, artistas do programa Pânico começaram a rodeá-lo em seu local de trabalho, quando a japonesa – dito por ele – (a Sabrina) o agarrou por trás, pegando-o de surpresa. Ele deu uma cotovelada nela, que o soltou na hora. Vieram seguranças dos artistas, e quando ameaçaram tirar o turbante da cabeça dele, aí a coisa ferveu. Ele correu para o cone que tem na entrada do Cine Paris, pegou um pedaço de pau e disse que se tentassem tirar o turbante de sua cabeça levariam uma paulada na moleira. Foi um fuzuê do baralho. Muita gente parou para ver o "barraco", e quando a polícia veio deu inteira razão para ele.<br><br>Cotonete é muito querido por todos que freqüentam ou passam por ali, pois trabalha lá já há 35 anos. Além de vender fichas telefônicas, cuida também dos dois telefones públicos sem ganhar um centavo algum da Telefonica. Para compensar o que ele espontaneamente faz, colocaram sua efígie num dos cartões vendidos ao público. Limpa os telefones todos os dias para não ficarem sujos, empoeirados ou com maquiagem das mulheres ou homossexuais, que usam os aparelhos a todo momento.<br><br>Como se vê, São Paulo sempre tem histórias a contar.<br><br>e-mail do autor: [email protected]