Os Botecos da Vila Olímpia

Quando vagais encostavam o umbigo no balcão, muita conversa fiada vinha na boca de todos quando tomavam pinga ou cerveja. Além do Bar do Maluf na Avenida Santo Amaro, perto da Rua Firmino Ladeira (Santa Justina), onde o ceboleiro deu um tiro na boca de Zoraide, tinham outros. Entre goles e arrotos, muitos chapados, outros mais ou menos bebachos, ficavam no Bar Deixa de Onda ou no Bar do Waldemar, naquela Vila Olímpia muito louca, com gente contando tudo o que vinha na cachola. Mentiras mil.<br> <br>A maioria garganteava e outros carteavam. Em frente ao bar do Valdemar, Rua Casa do Ator, esquina Ribeirão Claro, tinha o bar do Vieirinha, só que lá a turma moderava porque sempre estava o padre Jeremias, amigo do Vieirinha, que era congregado mariano da igreja do Divino Salvador ao lado do bar. Por isso o padre jamais pagava o rabo de galo que tomava quase todos os dias.<br><br>A Vila Olímpia era uma zona de cima em baixo. Um dia, eu estava fazendo a coleta de dinheiro na missa matinal de domingo. O Gato, que nunca entrava na igreja, lá estava, para espanto de todos. Quando o coador vermelho estava cheio de grana, o Gato, de leve, encostou e lascou: “Ô Branco, me arruma uns trocados aí”. Fiz de conta que não ouvi e, ao desviar de uma mulher super apetitosa, derivei meu corpo para a esquerda e minha mão ficou à direita, o bastante para ele enfiar a mão e pegar o quanto dava. Sei lá quanto levou naquela empreitada. As pessoas davam, quando muito, dois cruzeiros, a maioria era nota de um. Tinha gente que tinha medo de dar pouco com medo de ser castigado por Deus.<br><br>Num batizado para o qual fui chamado para acender as velas e segurar a bacia de água benta e o sal, o padre falou que o batizado era de graça, mas quem quisesse ajudar a igreja era só jogar uns trocos na cestinha de vime. Quando o batizado terminou e comecei a recolher os apetrechos, ouvi uma mulher perguntar para o marido, que tinha sido com ela o padrinho da criança:<br>- Você deu dinheiro? <br>- Sim, dei! <br>- E quanto você deu? <br>- Dei cem cruzeiros.<br>- Você tá louco? Já vai lá e pega de novo!<br>- Eu não vou fazer esse papelão!<br><br>Só sei dizer que ela nem quis saber. Foi lá, ciscou a mão na grana e tirou os cem cruzeiros que o marido tinha dado. O fez na maior cara dura, em frente a todos que por ali estavam:<br>- Vê se pode, tirar da boca dos filhos para dar à igreja – dizia ela, com os olhos acesos de raiva.<br><br>Isso também era dito no balcão dos bares. Foi quando chegou o tenente Orlando da força pública. Meganha que era, e bravo – tanto que ninguém ousava em chamá-lo assim. Assim que o colored militar deu entrada no bote, ouve-se aquele silêncio.<br><br>Antes mesmo de o tenente Orlando pedir, Soares, o fiel balconista do bote do Valdemar, pegou a garrafa de Ferro Quina Bisleri e já foi jogando copo adentro. Essa bebida era mais amarga que fel. Tenente Orlando dava uma golada só e fazia uma careta que Deus me livre. Mas logo se recompunha.<br><br>Ficava pouco tempo no boteco. Considerava-se um homem de respeito para ficar perto de pinguços do dia-a-dia. Antes de ir, olhava na cara dos presentes e dizia, em tom alto: “Onde está a maconha?”. Como a resposta era um silêncio só, ele saía como se tivesse realizado sua tarefa de pegar os maconheiros da Vila Olímpia. Sua ausência era como um bálsamo, e aí as piadas recomeçavam. Sabe aquela do português? Pára com isso. De português não!<br><br>Dizia Mario Asdrúbal Aguiar que tinha acabado de treinar com sua bicicleta caloi, de corrida, para mais uma prova ciclística nove de julho, representando a Portuguesa de Desportos. Ele tinha dado entrada no bar somente para mijar; também não ficava por muito tempo para não ter que olhar na cara de pessoas com a cara e olhos vermelhos.<br><br>Zé Caipirinha, então, estava com os olhos mais inchados do que adversários do Cassius Clay quando levavam porrada. Carteava que era são-paulino e entrava de graça nos jogos por ser "conselheiro" do clube. Pouca gente acreditava no que ele falava, por encher a cara todos os dias.<br><br>Um dia ele falou tanto nesse papo que comecei a dar risada. Então, ele disse que, se eu duvidasse, era só ir com ele no Morumbi para ver se era verdadeira ou não a história que sempre contava.<br><br>Numa noite jogava São Paulo x Portuguesa de Desportos. Era a primeira partida da decisão do campeonato paulista daquele ano de 1975. E lá fui eu para ver se o que ele dizia era verdade.<br><br>Chegando ao estádio, ele entrou e me puxou pelo braço catraca adentro, sem pagar o ingresso. A primeira etapa do que ele dizia era verdade. Subindo degraus da arquibancada azul, todo mundo o chamava pelo seu nome. Ninguém sabia que ele, na Vila Olímpia, era o Zé Caipirinha. “Fala aí, Zé Ângelo”. Seu nome no registro de nascimento era José Ângelo. Não tinha local por onde passava que não tinha uma pessoa que não fosse seu amigo. <br><br>Até que, chegando próximo à tribuna de honra, teve um que gritou: “Fala Zé Louquinho!”. Quando fui sentar ele me disse: “Oi, cara, levanta daí”. Convidado de Zé Caipirinha no Morumbi é tribuna de honra, meu. E não deu outra. Na tribuna de honra, todos os diretores do São Paulo eram seus amigos. Sentei-me perto de Constantino Cury, superintendente de A Gazeta, jornal e rádio, um são-paulino roxo. Constantino, um gordo muito brincalhão, era o cara que mais se identificava com José Ângelo. Digo, o Zé Caipirinha. Conversa vai, conversa vem, e ouve-se a explosão da torcida. Era Pedro Rocha que tinha marcado um gol. O único da partida, 1 X 0. O bastante para trazer de volta à casa o são paulino que, pela primeira vez, me mostrou que não era mentiroso.<br><br>Era meia-noite e meia. Ele no seu Opala, comigo no banco do passageiro e bastante sóbrio. Se justificava. Quando o São Paulo joga, é dia de muito respeito.<br><br>e-mail do autor: [email protected]