No dia 08 de junho, o bairro do Brás comemorou mais um aniversário.
Alguns pseudo-historiadores dão ao bairro apenas 190 anos de vida, enquanto outros pesquisadores alegam que o Brás, por estar mais próximo do centro de São Paulo, tem sua história ligada ao início da fundação da cidade.
Há de se enfatizar que a Avenida Rangel Pestana e a Avenida Celso Garcia foram a antiga Estrada da Penha. Dizem que a Mooca tem mais de 400 anos; o Belém, próximo a isto. A Penha e o Tatuapé, também. Então, não há como o bairro, passagem para todos estes, ser considerado o caçula.
Controvérsias à parte, quero deixar aqui registrada a poesia de Antonio Fernandes Michelassi, mais conhecido por Midelandi, nascido em 1927 na Rua Carneiro Leão. Foi Presidente da Associação Paulista de Imprensa e integrante dos quadros do Movimento Poético em São Paulo.
Tal poesia tem a grafia da época que foi escrita, 1965.
Feliz aniversário ao Bairro do Brás.
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O Bairro do Braz
Bongiorno! É o Braz que disperta
ao bater dos sinos
da Matriz Bom Jesus do Braz!
Começa a sinfonia dos imigrantes:
das cabras, os sinos irritantes,
o pasticceiro, o cabriteiro,
o afiador de facas, o tripeiro,
o peixeiro com a pescada e a lula;
Há sognato? Pergunta o bicheiro…
É arrivatta la fanfulla!
Passa a carroça do carvoeiro…
O turco que vende de tudo;
o japonês tintureiro
e o portuguez em outras bandas
chacareiro do Braz – vendedor de galinhas!
O pizzaiolo às costas leva o tambor
e grita: "Comam a minha pizza caseira…
o sabor dura a vida inteira"!
A polenta, comida de pobre
que se faz no tacho de cobre
e se corta com fio de linha;
a macarronada da mamma
e a gostosa sopa minestrône;
café com zambucca pra se ficar quente!
o pucchero, as paellas, os cozidos
de Hespanha e o churro com café
e leite fervente!
O hespanhol ferro-velho
na década de trinta, domina
toda rua Piratininga, com sucata,
garrafa e jornais velhos!
As churreiras – outra mina!
Dançam a Flamenca,
sapateiam e tocam castanholas,
É a festa hespanhola!
Se divertem à beça!
Nas esquinas festivas,
os hurros e os vivas;
o patrão e soto e a cinquina;
a gente alegre e tagarela
que canta e dança a tarantella!
Em mil novecentos e vinte e sete,
no Braz, a Companhia de Gaz,
gerando luz, calor e energia;
das bocas-de-lobo a fumaça
que se diz asma e bronquite curar!
Começa, a era do lampião de gaz!
Em mil novecentos e trinta e setembro
da América Latina, São Paulo,
o maior centro industrial!
Os estrangeiros de além-mar,
coisa nunca vista,
forjam em têmperas de aço
o grande povo paulista.
Eles e seus filhos fazem o Braz
Constroem São Paulo. Ninguém mais!
Surgem os grande cinemas:
Universo, Oberdan e Glória,
Mafalda, Ideal e Babylonia,
Olympia e Braz Polyteama
e, na rua Piratininga,
o lindo Theatro Dom Bosco.
Com lenço e chapéu
na cadeira se guarda lugar!
Nada some. Se vive no céu!
Lembro-me desses tempos
abençoados de outrora,
como se fosse agora:
No Largo da Concórdia,
o coreto, o lambe-lambe,
as temporadas líricas
no Theatro Colombo e, na sacada
do Club Minas Gerais,
emocionando corações,
Orlando Silva,
o cantor das multidões!
De Madona Casaluce e São Vito,
as quermeses tradicionais;
por toda parte as serestas
e os grandes sucessos musicais;
Manolita e Rapaziada do Braz!
Pelas porteiras do Braz, o vaivém…
Os Coca-Cola, da Escola
Técnica de Aviação, alunos
Invejados, apanham como ninguém!
João Gibin, vence o grande Caruso,
Concurso Mundial de Bel-Canto
e vai para o Scala de Milão!
Cantantes de músicas italianas,
Marco Antonio e Lívio Del Maré,
Alegram as noites paulistanas.
Nelson Gonçalves e Paraguassú,
agradam cada vez mais!
Na rua Caetano Pinto,
as indústrias promissoras:
Luiz Pásqua, Matarazzo
e, o Biotônico Fontoura,
que fortalece o Jeca Tatu!
Na Claudino Pinto,
a Metalúrgica Mar.
Nessas ruas e na Carneiro Leão,
Berços da imigração,
os grandes cortiços habitados
por italianos e hespanhóis.
Por perto, o Alumínio Couraça,
a Copag, a Metalurgia Crê,
e a Escola Técnica Getulio Vargas.
Na avenida Rangel Pestana,
o Grupo Escolar "Romão Puiggari",
onde aprendi o A B C!
E, nas Lojas Paschoal Bianco,
Pizzimenti, Diana e Pirani;
as lotéricas Fazanello,
a Preferida e Vale-Quem-Tem
e, como tudo que é belo,
a Pharmacia do Rega
e a Confeitaria Guarany,
onde o italiano com sua Carmella;
o hespanhol com sua Lolita,
Mangiam Sfogliatella,
vendo fita!
O tostão vale Dinheiro,,,
A comida é suculenta
nas Cantinas do Marinheiro,
Castelões, Adega do Braz,
Balilla e Milisessenta.
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Explodem as paixões políticas:
Marcham os Integralistas,
os galinhos verdes facistas…
Anauê,,,Anauê!… a saudação!
Republicanos e Franquistas,
Hespanhóis, entre si, peleando.
A frente de um protesto,
sempre o Scarparo anarquista.
Não faltam os estudantes.
A polícia especial, com energia,
dispersa os manifestantes!
Persiste em cada menino
a incontida vontade de crescer
e, calças compridas ganhar!
A Professor Batista de Andrade,
a rua predileta e de lazer,
é só mato, é o matinho,
Se empina capucheta;
se brinca de mocinho;
bola se joga com bola de meia,
a "taça", a bala mistura,
e o pequenino chocolate Gardano!
Para os "riquinhos"
fazem os sobradinhos
e se acaba a alegria…
Toda garotada chora!
…e la vem Izabelita…
atrás dos niños…
Lá vem Concceta
atrás dos bambinos!
Em casa não se fala vovó:
se fala nonna ou abuelita!
Que saudades
do Braz do Arco-Da-Velha;
do Braz do porca miséria;
dos hespanhóis-Torcedores
do Corinthians, que chamam
os italianos de carcamanos;
dos italianos-Torcedores
do Palestra Itália, que chamam
os hespanhóis de maledêttos ciganos!
Parecem inimigos mortais.
Entre os filhos, casamento jamais!
É só chiacchiera… madona mia!
Tudo dá em nada!
Já não se vê mais
a antiga e bonita gente do Braz.
Acabou-se a bela época da palheta,
da bengala e do cachecol;
do imigrante italiano
e do imigrante hespanhol;
do bonde cara-dura;
do português, Dim-Dim…
um pra Ligth, dois pra mim.
Do "veja ilustre passageiro
o belo tipo faceiro
que ao seu lado está,
entretanto, acredite:
quase morreu de bronquite,
salvou-o o Rum Chreosotado!"
Do "ciranda-cirandar,
se esta rua fosse minha
eu mandava ladrilhar",,,
Acabou-se il Vecchio, dileto
e saudoso Bairro do Braz!
Mas, aquele Braz fraterno
que vive dentro de cada um de nós,
jamais deixará de existir: é eterno.
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