Vila Lageado (Rio Pequeno), sub-distrito do Butantã, é um bairro não muito novo, mas nos últimos quinze anos sofreu uma radical transformação urbana, trazendo enormes mudanças em seu mapa. Está localizado na zona oeste de São Paulo.
A Avenida Cândido Mota Filho corta o bairro, antes uma pacata via de acesso a Osasco e às quadras de golf da família Matarazzo, com seu hotel "Solarium", paisagem bucólica, arborizada e tranqüila flanqueando nas laterais das ruas sem calçamento. Caracterizando um pedaço de qualquer cidade do interior, a poucos quilômetros do centro de São Paulo, se transformou numa via de intenso tráfego, revigorando o comércio de imóveis na região.
Essa Avenida Cândido Motta Filho começa na Corifeu de Azevedo Marques (homenagem ao prestigiado jornalista que, nas décadas de 40 e 50, apresentava na rádio Tupy o famoso "Grande Jornal Falado Tupy”, em que batalhou pela formação do Distrito Industrial do Jaguaré) e vai até a Martin Luther King, já em Osasco.
Paralelamente, foi rasgada uma impressionante via, a Avenida Escola Politécnica, seccionando o bairro para desafogar um trânsito caótico, que liga a Marginal de Pinheiros (USP) à Rodovia Raposo Tavares, atravessando a Corifeu, facilitando enormemente o acesso aos municípios da região de Cotia. Tudo em poucos anos, fenômeno que só poderia ocorrer numa metrópole como nossa espetacular São Paulo.
Tenho um neto muito inteligente, esperto e… malandro (no bom sentido…), muito bonito, a coqueluche das meninas do colégio, que mora nesse bairro há doze anos. Dentre meus sete netos, Matheo é o mais "feio", numa visão totalmente destituída de paternalismo (ou nepotismo).
Tem dezessete anos, nasceu nos Estados Unidos, no exílio espontâneo de meu filho Maurício, que lá morou por nove anos; a família voltou quando o Matheo tinha três anos de idade. Na preocupação de o filho falar o idioma de nascimento, Maurício e a ex-esposa Simone cuidam para que o Matheo aprenda o inglês. O resultado é excelente e repentino; Matheo, hoje, fala, lê e escreve fluentemente o idioma.
Amálgama à nova experiência de vida, rapidamente cresce aprendendo tudo com natural facilidade, percebendo logo que assimila facilmente quase tudo, e que isso proporciona um desleixo nos deveres escolares. Perfil idêntico ao do pai – o que não é vantajoso pra nada, se não for bem administrada essa aparente exceção.
Ao atingir sete anos, assiste pela TV o filme "Caçador de Andróides". Tem uma amiguinha da mesma idade chamada Carolina, "Cacá", e ganha um cãozinho preto e quer dar o nome de "Caçador de Andróide" no cão. Depois de uma semana, o cão desaparece, foge, não sendo mais encontrado.
Matheo se encanta com documentário sobre o ursinho Panda e pede ao pai que compre um pra ele. Maurício explica que não se encontra à venda e, se estivesse, custaria muito caro; que eles, os ursinhos, vivem num país onde cai gelo e que aqui, no Brasil, não resistem ao calor, não cai neve.
Gosta tanto de sua amiguinha Cacá que, quando o pai lhe dá outro cachorro, branco, malhado, de manchas pretas, coloca o nome da Cacá em homenagem a ela. O pai da garota, amigo do Maurício, não gosta da "cortesia". O nome da filha num cão, onde já se viu isso? Matheo atende ao pai e põe o nome de Panda, aparentemente não dando pelota à queixa do pai da Cacá.
Um dia, Maurício, em casa, passa pela cozinha e ouve um grunhido esquisito, mas não sabe de onde vem. Apura o ouvido mais um pouco, tenta descobrir donde vem o lamentoso rosnar. Finalmente descobre: vem da geladeira. Abre a porta e não vê nada. Fecha e o lamento continua. Tem um leve estremecimento do que vai encontrar ao abrir a porta da parte do "freezer" do refrigerador. O Panda, encolhido e tremendo como "vara verde", dentro do pequeno cubículo gelado.
Retira o pobre animal, reanima-o e dá um berro, chamando o filho: "Matheo, você colocou o Panda no refrigerador?”. Matheo aparece e diz que o Panda é parecidíssimo com o ursinho Panda, só lhe faltando um pouco de gelo… “Você não precisa gastar mais dinheiro pra ter um Panda legítimo”, disse candidamente Matheo. O Panda da casa sobreviveu à experiência.
A praticabilidade de certas pessoas ultrapassa o bom senso da racionalidade. Matheo se esqueceu que, pra se chegar a um resultado positivo, ele tinha que agasalhar o "futuro" Panda…
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