UM CURSO CHAMADO LOURENÇO
É sexta-feira à noite. Há música na casa de esfiha da esquina. As vozes de dois cantores invadem a sala. Lourenço fala lá na frente, embalado pelo fundo musical externo, e a platéia responde às gargalhadas. Palhaço – penso -, com todo o respeito. Tirou a maquiagem e exibe agora sua pele rosada. Os olhos são os mesmos. A boca, dá para se imaginar como era quando pintada.
Alegria! Um palhaço dos domingos na minha infância. Por isto esse ar tão familiar. Que ele não se ofenda. Penso que não, porque acaba de prestar uma homenagem a Piolin, um grande palhaço injustiçado. Sincronicidade, graças a Deus. Será que ele lê pensamentos? Não, é apenas sensível e humano.
Agora vai passando o lixeiro na rua e faço um esforço danado para ouvir. Não quero perder nada. O clima doce de lembrar infância e simplicidade se atenua pelo som das crianças brincando na rua, apesar de ser noite. E pensar que há dezessete anos atrás trabalhei aqui perto, na Rua Mário de Andrade…
E continua Lourenço, numa crônica atrás da outra, sempre rindo com a gente para não perder o pique. Abre o baú e vai desenrolando milhares de lenços coloridos, mas não perde o fio da meada: é a novela das oito, o Jornal da Tarde com suas dicas de restaurantes, a Malu, a Bruna, o ovo de pomba no jardim de uma casa no Sumarezinho, com direito à imagem da empregada velha (de casa) enxugando as mãos no avental, enquanto olha o encanto do sobrenatural que invadiu o quintal. Parece até que Mário de Andrade virou o rosto, na foto ao lado do quadro negro, para prestar atenção. Por dentro deve estar "rachando o bico".
Perdoe-me, Lourenço, mas eu precisava desta gíria para ilustrar melhor a simpatia que você irradia. Foi um prazer participar desse exercício de viver e, se possível, escrever com a mesma desenvoltura. Acho que esta crônica virou carta, então falta o abraço.
Vera Lúcia de Angelis, 1991.
Escrevi este texto no final do curso de crônicas que tive com Lourenço Diaféria, na Oficina da Palavra (conforme já comentei em outro texto meu neste site), tentando registrar o clima contagiante de suas aulas.
Lourenço Carlos Diaféria nasceu em 28 de agosto de 1933, no bairro do Brás, e faleceu agora, em 16/09/2008, aos 75 anos de idade.
Começou sua carreira na Folha da Manhã, atual Folha, onde foi colunista. Colaborou para o Jornal da Tarde, Diário Popular e Diário do Grande ABC. Escreveu também para as rádios Excelsior, Gazeta, Record e Bandeirantes. Publicou livros e muitas crônicas, mas tornou-se famoso com a publicação de "Herói. Morto. Nós", em 1977, que provocou sua prisão, ameaça do fechamento do jornal e demissão de Cláudio Abramo da Folha.
A atitude radical dos militares chamou ainda mais a atenção dos leitores e estudantes. A crônica tornou-se um ícone de luta e protesto. Trata-se da história do sargento Sílvio, que foi ao zoológico com a família e pulou no poço das ariranhas para salvar um menino de quatorze anos que lá caíra. O menino se salvou, mas ele faleceu, três dias depois, de infecção generalizada.
De maneira sutil, porém clara e contundente, Lourenço Diaféria trata sobre a diferença entre o militar e o herói, provocando a ira dos fanáticos.
Segue, na íntegra, a crônica citada, publicada em 1977, para quem se interessar em ler e talvez se emocionar como eu, que tenho gravados na memória o seu sorriso e a sua precisão para observar e também narrar pérolas.
HERÓI. MORTO. NÓS.
Lourenço Diaféria
Crônica publicada em 1º de setembro de 1977
(Neste texto foi mantida a grafia original da época)
“Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.
Que nome devo dar a esse homem?
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói – como o santo – é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.
O herói redime a humanidade à deriva.
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.
Está morto.
Um belíssimo sargento morto.
E todavia.
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.
O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer – oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.
No instante em que o sargento – apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher – salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.
Esse sargento não é do grupo do cambalacho.
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.
É apenas um homem que – como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem – não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas – como você tirou o menino de catorze anos – mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis – tarde demais.”
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