Coisas dos anos 1950

Catadores. Naqueles anos catávamos de tudo para ganhar um dinheirinho: papel, esterco, latas, alumínio, funcho.<br><br>Coleções: selos, figurinhas, fotos de jornais e revistas de artistas e jogadores de futebol.<br><br>BRINCADEIRAS<br><br>- Pula sela. Era uma brincadeira em que um menino ficava curvado e os demais vinham para pular, colocando as duas mãos nas costas dele. Na hora em que alguém vinha pular, aquele que estava curvado pensava em alguma coisa, que era anotada no papel. Aquele que ia pular tinha que pensar algo. Caso coincidisse com o que o outro tinha pensado, aquele que pulou ficava na sela, ou seja, curvado.<br><br>Quando o pensamento era sobre cigarros, eu sempre pensava no Lincon. Quando o cara que pulava falava Lincon, eu gritava sela! E assim por diante. Era uma brincadeira muito gostosa em que a gente dava muita risada. Sempre tinha os mais malvados que, na hora de pular, davam com as duas mãos com força nas costas de quem estava curvado.<br><br>- Mocinho. Consistia em formar dois grupos de garotos. Uns eram os mocinhos e outros bandidos. Os bandidos eram em maior número. Os mocinhos ficavam de costas para que os bandidos se espalhassem para se esconder. Daí os mocinhos tinham a incumbência de procurar os bandidos para prender. Saia "tiros" de tudo o quanto era lado, na verdade em condição sonora. Era um tal de “Bummm” por toda parte. E era preso aquele que fosse surpreendido pelo outro que vinha sorrateiramente. Caso os bandidos prendessem todos os mocinhos, a vitória era do mal.<br><br>A vantagem do mocinho aos bandidos, que eram maioria de garotos, era o fato de que o mocinho tinha o direito de prender o bandido mesmo que ele tenha visto o bandido a uma distância. Já o bandido tinha que prender o mocinho pegando-o em flagrante mais de perto. Era a compensação de haver mais bandidos do que mocinho.<br><br>- Pegador. Também chamado de pique. Era a brincadeira em que os garotos e também as meninas se misturavam. E era uma brincadeira sem malícia alguma. Na verdade, até certa idade. Tanto do lado masculino quanto do feminino. Já na idade dos quatorze anos em diante, a malícia começava a aparecer. Aí era um tal de passar a mão, que muita gente (adulta) já estava prestando atenção.<br><br>Eu e a Lucilia, por exemplo, não dávamos chance para ninguém notar. Nosso papo era debaixo do pé de goiaba, onde tinha uma vistosa árvore de natal, muito boa para se esconder. À noite então, a festa ficava muito bonita.<br><br>JOGOS<br><br>Nem é preciso dizer que, em matéria de jogo, a bola comandava. Eram garotos dos dez até os quatorze anos. Dessa idade para cima o garoto já colocava chuteiras e ia para o time uniformizado. Mas no seio da garotada que gostava de jogar descalça, quando das férias escolares, ficávamos o dia inteiro com a bola nos pés ou nas mãos.<br><br>Tinha dia em que se jogava bola de cabeça. Colocava-se duas traves a uma distância mais ou menos de cinco metros uma da outra. E só valia bater de cabeça. Era uma disputa ferrenha, pois, com o passar do tempo, todos estavam aprimorados tanto na cabeçada como na defesa. Era o jogo em que aconteciam mais disputas e rivalidades. E as gozações eram o motivo de maior rivalidade. Cada um defendia o nome do seu clube. Não é preciso dizer que entre palmeirenses e corinthianos saía até tapas. E o pai do menor ia sempre reclamar com o pai do maior.<br> <br>Outro jogo muito equilibrado era a disputa de pênaltis. Tanto um contra o outro, e também em duplas. Era três pênaltis para cada um. Valia também pegar o rebote, e não só bater de "prima"; podia também tentar driblar o goleiro.<br> <br>Nas duplas, enquanto um chutava, seu companheiro ficava de olho no rebote, podendo chutar ou passar para o companheiro. O que formava a dupla com o goleiro podia também evitar o gol, pegando com a mão somente quando estava dentro da área, que era demarcada por nós mesmos. Chegamos a uma condição de quase perfeição e a trave tinha até rede, que foi doada pelos diretores do São Cristóvão do Itaim por intermédio do Nôno, que lá jogava.<br><br>Outros jogos ficavam sempre para depois do banho e da janta. Baralho e dominó eram os mais freqüentes. No baralho, o que mais se gostava de jogar era 21, ao contrário dos adultos que jogavam mais escopa – principalmente os portugueses ou descendentes.<br><br>Tinha também o baralho com bichos, em que perdia sempre aquele que ficava com o mico na mão. Cada carta perguntava onde estava a parte feminina ou masculina. Exemplo: na carta onde estava estampada a efígie do boi, perguntava-se: “onde está a vaca?”. Aquele que conseguia juntar as duas figuras, masculina e feminina, ia acumulando as cartas. Não ganhava quem tinha o maior número de cartas. Perdia o que ficava com o mico na mão.<br> <br>Gostávamos também de jogar bafinha, que consistia em colocar figurinhas umas em cima das outras e bater com a mão em formato de concha, e fazer com que as figurinhas ficassem do lado oposto.<br><br>Jogo da porrinha. Constava de vinte e cinco números, e cada participante escolhia um número. Os participantes escolhiam um número que era descartado dos marcados. Aquele que tinha o número cantado por um dos participantes saía do jogo como um dos vencedores. Aquele que ficava por último era o perdedor.<br><br>Bolinha de gude, taco e malha eram jogos que gostávamos de fazer aos domingos pela manhã, porque os campos de futebol estavam reservados aos clubes varzeanos.<br><br>Bolinha de gude. Faziam de buracos na terra, chamados de box. Três em linha reta e um formando um L. Começava indo ao último, e voltado ao primeiro, para retornar na formação do L.<br><br>Taco. Era um jogo de duplas. Um ficava com o taco na mão rechaçando a bola (de tênis), que era jogado pelo que estava atrás da casinha esperando que ela caísse para pegar o taco. Fazia pontos quem, ao dar uma tacada, corria de um lado a outro enquanto o outro não pegava a bola. Quando um pegava a bola no ar, quem tinha dado a tacada tinha que entregar o taco.<br><br>Malha também era outra coisa gostosa de jogar. Fazia-se um círculo e a colocação de um pino ao meio. Fazia pontos aquele que colocava a malha dentro do círculo e derrubava o pino.<br><br>Outra coisa também muito comum era a caça. Caçar passarinhos era o que mais gostavam os garotos. Alçapão era colocado em vários pontos. Isso era muito comum. Tinha que se ter muita paciência para ficar à espera que algum pássaro fosse comer o alpiste do alçapão. E paciência todo adepto por pássaro tinha, pois ficavam horas a fio à espera de um pássaro, sem fazer barulho para não os espantar. Tinha gente que assobiava imitando passarinho para chamar outros.<br><br>Os que não tinham paciência e gostavam de pegar passarinhos de "baciada" colocavam visgo em arames. O pássaro que pousava ali não saía de jeito nenhum. Até para tirar o pássaro de lá era difícil. Visgo era composto de um líquido tirado de uma árvore que, misturado a alguma coisa que não me lembro, grudava muito. Tinha uma cor branca que parecia leite.<br><br>Eu não era muito adepto de pássaros. Uma vez só foi que peguei um canário do reino. Peguei-o com a mão, pois ele tinha uma asa quebrada e não voava muito bem. Tinha fugido do viveiro do Hércules, pois a mulher dele tinha esquecido a portinhola aberta. Fugiram todos os pássaros e a maioria foi recuperada, posto que pássaros dentro de gaiolas ou viveiros ficam meio abobados e não se acostumam com a liberdade tão facilmente.<br><br>Caçava-se muita pomba também. Apesar de se dizer que era pecado matar pombas, devido a fato de ela ser o símbolo da santa cruz (coisa de padre), a meninada não estava nem aí. E tinham o apoio dos adultos, porque os pombos ficavam nos telhados, principalmente aquelas telhas arredondadas, que servia de casas para elas. Além da sujeira e do perigo às pessoas (segundo oftalmologistas, perigo de ficar cego), tinha também o barulho que as pombas faziam.<br><br>O que eu gostava mesmo era caçar rã. Porque muita gente gostava de fritar. As pessoas comiam pensando que era frango de leite. Ao dizer que tinham comido rã, as pessoas tinham vontade de vomitar.<br><br>Tinham os catadores. Quem não tinha carriola, pegava uma carrocinha nos depósitos de ferro velho. Catava-se de tudo: latas, papel, alumínio, e tudo que era útil para se ganhar um dinheirinho. Cada qual tinha seu valor por quilo. As latas de óleo – naqueles tempos, retangulares – eram as que tinham valor mais alto dentre as latas.<br><br>O ferro, por ser pesado, era pelo qual se pagava menos. Agora, o que tinha um valor bem alto era o alumínio. Não tanto como o metal e o cobre, que eram pagos a "peso de ouro".<br><br>Outra coisa que a gente pegava era funcho. Poucos gostavam de pegar essa iguaria, pois tinha que se ter muita paciência. O funcho brotava na terra quando de uma chuva e ao abrir o sol. Aquilo brotava quase que instantaneamente. Os bons eram aqueles que tinham o talo grosso e a cobertura, também com uma espessura grossa. Muita gente chamava de cogumelo, mas o nome popular era funcho. Quem gostava muito eram os estrangeiros, que pagavam muito bem quando a gente levava até eles.<br><br>Aos domingos, ficavam as famílias com cadeiras na calçada, as mulheres conversando a respeito dos artistas de rádio ou então comentando as novelas das rádios São Paulo e Cultura. Mas sempre tinha um aparelho de rádio ligado no futebol para deleite dos homens. À noite, quando era verão, as reuniões familiares iam até mais tarde e a molecada ficava brincado na rua até as 22 horas, não mais do que isso.<br><br>Tinha também as coleções. Colecionava de tudo: figurinhas, fotos de artistas, de jogadores de futebol. Páginas de jornais era só A Gazeta Esportiva, porque a molecada era fanática por futebol. Havia aqueles que colecionavam jornais ou revistas inteiras, e outros que recortavam as fotos sem se importar com o texto.<br><br>Os que não eram aficionados por futebol colecionavam selos, moedas, tampinhas de cervejas, e tanto meninos como meninas gostavam também de colecionar maços de cigarros vazios. As marcas que todos tinham eram o Continental sem filtro, Hollywood e Macedônia. Os mais difíceis eram o Fulgor e o Yolanda. Mais tarde surgiu uma marca nova, o Minister. Aí todo mundo queria ter esse maço em sua coleção.<br><br>As meninas moças colecionavam fotos de artistas de rádio e de cinema. Era comum garoto colocar na carteira fotos de artistas. A foto muito vista era da Marli Bueno. Um dia, um adulto chamou a atenção de um amiguinho ao ver a foto da Marli: <br>- Você conhece esta moça?<br>Ao receber a resposta negativa, disse ao garoto:<br>- Em vez de colocar a foto de quem você não conhece, porque não coloca a foto de sua mãe?<br><br>Assim era meu tempo de infância, um tempo em que não se via tanta violência.<br><br>e-mail do autor: [email protected]