Roldan

Sempre que eu passava por aquela esquina, por mais que me eximisse, acabava arriscando um olhar. Mesmo que de canto de olho, tinha que ver se ainda estava naquela janela.

E bem naquela esquina, talvez na mais importante de São Paulo. Cantada em prosa e verso pelo grande poeta Caetano Veloso. Bem na Ipiranga com a São João.

Bendita, ou maldita, imagem naquela janela do segundo andar. E com tanta coisa pra se olhar naquela esquina, eu tinha que cismar com aquela placa na janela.

Quando passava de ônibus, o tempo de observação era mais curto. Torcia pro farol abrir rápido e o ônibus largar, deixando a imagem pra trás. Se dava a sorte de ir sentado no ônibus e ainda do mesmo lado daquela calçada, tinha um melhor controle daquela perturbadora situação. Podia medir a intensidade do ataque visual. Mas mesmo que estivesse de pé, com o coletivo cheio, não me esquivava de me esgueirar entre os passageiros para ver a tal placa.

Quando passava a pé por ali, rumo a minha escola na Praça da República, é que era um martírio. Me sentia muito mais vulnerável que no interior do ônibus. Sentia o coração acelerado, não só pela tensão daquele encontro, mas também pela própria velocidade que eu imprimia aos meus passos, pelo meu esforço físico, tentando reduzir o tempo de exposição àquela imagem deletéria.

Às vezes, cruzava rápido a rua, mesmo com o sinal vermelho para mim, reles pedestre, até correndo o risco de ser atropelado, sempre na tentativa de evitar o olhar fulminante daquela figura desenhada na placa.

Aquela imagem me era instigante demais. Um homem de corpo musculoso, exibindo seu bíceps ultra hipertrofiado. Figura de meio corpo. Não lembro se tinha bigode, pois a musculatura chamava tanto a atenção que ofuscava o restante. Nem lembro direito da sua fisionomia, na verdade. Aquele bíceps se acentuava. E compunha a placa de identificação do estabelecimento localizado naquele prédio. No segundo andar dele. Andar inteiro: o Instituto de Fisiculturismo Roldan.

Tempos depois, tentei buscar na ciência as razões do meu perturbado comportamento. Qual a causa daquele mal-estar? Por que tanta insegurança diante de uma simples placa? Na busca por essa resposta, procurei me consultar com uma amiga, estudante do curso de psicologia, ciência apenas engatinhando na época.

Depois de um certo constrangimento em expor o meu caso e a custa de muito diálogo em noitadas de bar regadas com muita Brahma (ainda brasileiríssima), abri meu coração. Relatei aquele fato que me atormentou durante bom tempo da minha tenra adolescência e que ainda se fazia presente em meu subconsciente.

Ela, como boa consultora, aprendiz de psicoterapeuta e melhor amiga e companheira de cervejada, me ouvia atentamente. Observava todos os detalhes da minha narrativa. Não perdia nenhum gesto sequer, procurando entender não apenas minhas palavras, mas também minha linguagem corporal e expressões faciais. Fazia uma rápida leitura gestáltica para poder melhor analisar o meu caso.

Eu, ansioso por uma abalizada opinião, constantemente a interpelava. Ela se negava a formar um juízo com base em relatos superficiais – coisa de psicólogo, eu pensava! Então várias sessões de terapia informal foram feitas no intuito de descobrirmos a causa daquele meu trauma pueril.

Depois de muitas conjecturas, em mais uma noite à mesa daquele nosso bar-consultório, parecia finalmente que minha amiga conseguia desvendar a chave de tamanho mistério. E se, para mim, aquilo era uma equação intrincada, para ela a razão desse comportamento era uma coisa muito evidente.

Após dissertar sobre as últimas teorias e tendências da psicologia moderna, após me dizer dos mais modernos avanços e descobertas da ciência sobre a fisiologia do cérebro, sua explicação veio contundente em resposta aos meus anseios.

Muito simples, segundo ela. Eu via naquela imagem da placa, aquele atleta imóvel, ali incansável, fitando os transeuntes com seu ar de superioridade, um padrão a ser seguido. Eu, que era franzino, esquelético, magro e alto, quase uma figura quixotesca. Eu que era submetido a uma dieta super calórica rigorosa, com muita batata e massas. Eu que recebia uma suplementação vitamínica com muito suco de abacate batido com leite e açúcar a esmo. Eu que tomava um frasco de óleo de fígado de bacalhau e de Biotônico Fontoura por semana. Eu que não havia jeito de encorpar, como dizia minha mãe, me atormentava inconscientemente com aquela imagem.

Com a brilhante análise da minha amiga psicóloga, chegando à identificação das causas profundas desse meu infortúnio, mesmo tardiamente descobertas, procurei reverter essa situação. Dias depois, me matriculei em três cursos de atividades físicas que eram graciosamente oferecidas aos alunos da faculdade: remo, karatê e capoeira (coisas muito semelhantes por sinal). Passava mais tempo na raia olímpica e no tatame que nas salas de aula. Conseqüência disso: um nariz fraturado, um ligamento de tornozelo rompido e quatro DPs pra fazer no semestre seguinte.

Mas, pelo menos, as sessões de terapia no bar-consultório da minha amiga psicóloga serviram para dissipar aquela imagem, aquela sombra perturbadora do meu subconsciente e para desenvolver fisicamente uma proeminente musculatura: a da barriga.

Salve a Psicologia e principalmente a Brahma! Que diga o Zeca Pagodinho.

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