Jogando futebol no inferno

Em 1960, mais precisamente mês de dezembro, bem próximo ao Natal. Os diretores do Juventus da Vila Olímpia tinham trocado ofício com a penitenciária do estado, no Carandiru, para uma partida de futebol contra o time dos presos. Era assim, como dizer que era uma festa de congratulação de Natal, onde estariam presentes os familiares dos presidiários.<br><br>Naquele sábado fomos num ônibus especialmente alugado para levar os jogadores e dirigentes. Ao chegar no presídio, ficamos todos no pátio, à espera do diretor da penitenciária para a preleção, que era feita a todos que em caráter coletivo lá compareciam.<br><br>Não demorou muito e lá veio ele para nos dizer que teríamos de tomar cuidado com algumas atitudes, pois os presos eram muito sensíveis, inseguros e desconfiados até com uma maneira de olhar que achassem esquisita.<br><br>Também para que não os encarassem, ou fizessem qualquer comentário a respeito desse ou aquele que fosse reconhecido por causa de alguma reportagem. Queria ele dizer a respeito de Promessinha, um facínora que tinha feito misérias roubando e matando muita gente naquele tempo.<br><br>E na nossa passagem pelo corredor nós o vimos. Um rapaz magrinho, não muito alto – custava a acreditar que ele tinha feito tanta barbaridade em São Paulo.<br><br>Depois da preleção do diretor, fomos convidados a entrar e, no término de suas palavras, Zé Pretinho disse em tom alto: “Muito beeem”, batendo palmas solitariamente. O diretor solicitou que um dirigente do clube o retirasse, pois ele estava embriagado. Zé pretinho ficou das 14h00min até as 18h30min na rua nos esperando.<br><br>Um policial chamou um dirigente e mandou ele dizer o nome de um por um que ia adentrando a porta. Ele foi dizendo o nome de todos que iam passando por ele. Sabia o nome de todos, mas quando chegou a hora do Gato, ficou sem saber o que falar. Caso ele citasse o apelido haveria o perigo de Gato ficar por lá mesmo, pois se tratava de um ladrão cujo nome era procurado pela polícia, que nunca havia botado a mão no cangote dele.<br><br>Ninguém sabia o nome do Gato. Muito menos o dirigente. O soldado da guarda civil perguntou: “algum problema, senhor?”. “Não, é que este jogador é novo e não sei o nome dele”. “Mas ele é do time?”, perguntou o guarda. Com a resposta afirmativa, todos nós respiramos aliviados.<br><br>Depois de entrar pelo primeiro portão, tínhamos que esperar o carcereiro fechar para depois ir para a segunda porta, que era aberta e fechada com uma chave que tinha uns dez centímetros.<br><br>Foi uma repetição de dez vezes até chegar no fundo, onde se localizava o campo. Um gramado de fazer inveja a qualquer estádio onde jogava os profissionais. No muro do lado da lateral oposta onde estávamos, estava escrito: “O bom comportamento é a chave que abre mais rápido a porta da penitenciária”.<br><br>Quando estávamos trocando de roupa, ficamos sabendo que não íamos jogar contra os presos que foram punidos por uma indisciplina qualquer durante a semana. Também os parentes não se faziam presentes, aqueles deveriam comparecer no dia seguinte, que era um domingo, dia normal de visitas. Isto quer dizer que a punição aos presos foi dupla, pelo menos para aqueles que iam jogar.<br><br>O alto falante do presídio tocava, insistentemente, num tom moderado, música natalina, que dava uma certa nostalgia.<br><br>Os apenados assistiam ao jogo pelas grades das selas que ficavam à direita, já que do outro lado tinha somente o muro bem alto onde tinha guardas vigiando. Eles gritavam muito, falavam palavras de baixo calão. Xingavam os funcionários e acho que torciam por nós. Dava gosto jogar naquele "tapete verde", mas foi só a satisfação de pisar no capim, pois tomamos uma tremenda goleada de 6 x 1.<br><br>Tudo correu bem, ao ponto de sermos cumprimentados pela direção do presídio pela disciplina. Ao nos retirarmos, passando pelo meio do presídio, os presos estavam se preparando para o jantar. Alguns presos que trabalhavam na cozinha passavam com aqueles carrinhos com vasilhames enormes de comida para macarrão, que com o trepidar do carro dançava como se uma gelatina fosse.<br><br>De recordação daquele cotejo, ficou a flâmula – coisa normal naqueles tempos, coisa que não se tem mais hoje quando do início da porfia. Mesmo nos jogos entre profissionais.<br><br>e-mail do autor: [email protected]