Morreu Lourenço Diaféria.
O cronista e jornalista faleceu na noite desta quarta-feira, 17 de setembro, em sua casa em São Paulo, em decorrência de problemas cardíacos. Pai de cinco filhos, apresentava problemas de saúde há cerca de um ano.
Como descreveu Roniwalter Jatobá:
Lourenço Diaféria nasceu no bairro paulistano do Brás em 28 de agosto de 1933. Filho de um italiano libertário que, segundo ele, "nunca usou relógio de pulso e que só me bateu uma vez e depois chorou", e de uma mãe portuguesa, mulher de fibra, que batia nele de tamanco, "mas que nunca esteve ausente quando eu precisei", viveu sua infância frente a frente às paisagens dos subúrbios da Central do Brasil. Adolescente, o pai queria que fosse estudar Direito, mas ele sempre quis ser jornalista e cursou a Faculdade Cásper Líbero e a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (cursos que não chegou a acabar). Teve os empregos de correspondente comercial e fiel de cartório antes de ingressar na Folha de São Paulo, como preparador de textos, por meio de um concurso público.
A carreira de cronista no jornal, no entanto, só começou em 1964, quando a direção da redação gostou de suas divagações em torno de como festejar o São João dentro de um dos minúsculos apartamentos que infestavam a cidade. Do período, duas memoráveis lembranças. Uma boa: a gratidão ao jornalista Hélio Pompeu, secretário de redação na época, que o fez reescrever dez vezes uma matéria de dez linhas, quando entrou na Folha, como processo de aprendizagem. Outra ruim: em setembro de 1977, os militares não gostaram da crônica "Herói. Morto. Nós", sobre um sargento do Exército que havia pulado no fosso das ararinhas, no zoológico municipal, a fim de salvar um garoto de catorze anos das presas dos roedores; o menino é salvo, mas o sargento morre.
O texto era uma homenagem ao sargento, herói na batalha campal cotidiana, mas referia-se também à estátua do Duque de Caxias, no centro paulistano, em cujo pedestal se aninhavam garotos de rua. Era os anos verde oliva de Ernesto Geisel (1974-1979), de mais um general-presidente no poder e, por isso, Lourenço Diaféria foi preso pela Polícia Federal e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. A história mostra que a direção do jornal não agiu de forma digna, mas o autor, felizmente, foi absolvido pelo Supremo.
Mais tarde, Diaféria lembraria que o episódio foi um oceano que passou em sua vida. "Prejudicou-me em algumas coisas e ajudou-me em outras", disse. "Eu me senti melhor porque a pior coisa de quem tem uma coluna de jornal é ter ímpetos e se auto-censurar".
Disse Jorge de Sá:
"Consciente de que sua função era prestar atenção ao banal, ele foi costurando retalhos de informações até transformá-los em um relato verossímil, estruturado de acordo com as leis da coerência do texto, as peças ajustadas como num quebra-cabeça. Diaféria foi cumprindo o exercício da crônica como um testemunho do nosso tempo, contando as tragicomédias diárias, fazendo o leitor recuperar seu senso crítico enquanto se diverte, alcançando o que está além da banalidade".
Lourenço Diaféria escreveu na Folha de São Paulo, sobretudo no caderno "Ilustrada", entre 1973 e 1977. Pelas páginas do jornal passa o talentoso e múltiplo Diaféria, que um dia observa uma cobradora de ônibus ajudar uma mãe a trocar a roupa de seu bebê e, no outro, manda uma carta ao general de plantão avisando que algo cheira mal nos porões da ditadura militar. E nessa multiplicidade de olhares, o autor torna-se, como diz Jorge de Sá, testemunho do nosso tempo e o leitor termina a leitura sentindo-se mais próximo do homem, dos outros homens, enriquecido em sua consciência e emoção.
Brás – Sotaques e desmemórias
O Brás talvez seja o bairro paulistano mais retratado em histórias, fotos, filmes, memórias, músicas e outras narrativas. Porta de entrada dos imigrantes estrangeiros, que tinham sua primeira parada na Hospedaria dos Imigrantes, prédio hoje transformado em um museu que registra a história dos movimentos migratórios, o Brás é também o berço do mais popular esporte brasileiro, o futebol. Foi lá que nasceu Charles Miller, paulistano filho e neto de ingleses que, ao voltar de seus anos de estudo na Inglaterra, trouxe ao Brasil as primeiras bolas de "capotão" com as quais ensinaria as poucas regras do "esporte bretão" aos funcionários da primeira ferrovia paulista, a São Paulo Railway, onde iria trabalhar.
O escritor e jornalista Lourenço Diaféria, ao retratar o bairro do Brás, evitava atribuir-se o papel de historiador ou de sociólogo. Preferia o registro em forma de testemunho, e apresentava ao leitor um pedaço vasto e extremamente pessoal de São Paulo, sem falsos sentimentalismos ou saudosismos. Percorria as ruas da região com a mesma sem-cerimônia com que descrevia as pernas de Isaurinha Garcia, os milagres do Padre Eustáquio, o assassinato do sapateiro Martinez durante a greve de 1917, as pizzas do famoso restaurante Castelões e as lojas da Rua do Gasômetro.
Lourenço evitava o pitoresco, o típico e o exótico. Com simplicidade e leveza, reviu o lugar em que nasceu com os mesmos olhos do garoto que não fazia idéia de que aquilo fosse um bairro. Não por acaso, preferia chamar suas lembranças do Brás de desmemórias, e destacou a sonoridade dos diferentes sotaques do bairro para registrar as falas e as vidas dos muitos homens e mulheres, desde os portugueses, espanhóis e italianos dos primeiros anos do século XX, até os nordestinos de tempos mais recentes, que ajudaram a fazer do Brás um lugar que foi redescoberto e recriado pelo texto sensível de Lourenço Diaféria.
Pessoas como o Lourenço Diaféria não deveriam morrer jamais. Como a morte é certa para todos e esse é o nosso destino, fica a certeza de que o Lourenço e a sua obra serão eternos em nossa história.
Em minha juventude, peguei gosto pela leitura das formidáveis crônicas do Lourenço. Certa vez, há muitos anos, nas inúmeras oportunidades de um breve contato com ele, dei-lhe parabéns por ser a pessoa e o profissional admirável que era. Diaféria será sempre lembrado na memória de quem pôde conhecê-lo pessoalmente, ou por meio de a sua obra.
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