Uma pizza diferente

Pizza no sábado à noite é tradição do paulistano. Milhares de pizzarias, recheios inusitados, entregas em domicílio, de pizzarias sofisticadas a portinhas de entrega rápida. Pizza americana, quase doce, de carne seca ou champignon e até de brigadeiro, numa babel de gostos que escandaliza os "oriundi" e reflete toda a mistura de gente que é esta São Paulo.<br><br>Há uma pizza que ficou registrada no folclore da família. Sábado, final de tarde, a Mari, uma então adolescente, quer de qualquer jeito ir à feira da Vila Madalena, numa mostra, hoje famosa, de arte, artesanato, música, um point dos descolados que estava começando.<br><br>Nossa família tinha acabado de se mudar para a Vila Beatriz, um bairro encravado no Alto de Pinheiros, vizinho da Vila Madalena. Estávamos ainda perdidos na região e preocupados com o programa da Mari na Feira da Vila Madalena, pensando na sua volta para casa, já que não poderíamos ir buscá-la – afinal, pais também têm seu programa de sábado à noite além de comer pizza.<br><br>A solução encontrada foi levar a jovem, toda produzida, até o local da feira, após a solene promessa de procurar voltar cedo, até às nove horas da noite, e de tomar um táxi se necessário.<br><br>Nosso compromisso gorou, celular ainda não existia e, como pais preocupados, ficamos à espera da Mari. Começamos a ficar inquietos quando já era quase dez horas da noite e nada dela chegar. Onde estaria essa menina num bairro desconhecido? O jeito era esperar e segurar a ansiedade.<br><br>Parece que passou um tempão, mas, que alívio, a Mari estava chegando. Eis que a moçoila abre a porta, sorridente, com uma pizza na mão.<br>- O que é isso? Por que essa pizza?<br>- Sabe, descobri o ônibus que deveria tomar, o Vila Ida, que me deixaria aqui perto de casa. Fui para o ponto indicado e nada de passar ônibus, nem mesmo um táxi. Comecei a ficar com medo, estava sozinha e vi que, frente ao ponto, do outro lado da rua, havia uma pizzaria bem movimentada, pois a todo instante saíam entregadores nuns volks verdes. Atravessei a rua e perguntei para a senhora do caixa: “Se eu comprar uma pizza, a senhora entrega a pizza e eu?”.<br><br>Rindo do pedido inusitado, a simpática senhora concordou. Uns dez minutos de espera e lá sai a Mari com uma pizza de muçarela (a mais barata) ao lado do solícito entregador, que também era o motorista do volks verdinho, que a deixou prazerosamente em casa e nem esperou pela gorjeta.<br><br>Coisas desta São Paulo fria, distante e impessoal, mas que sabe ser amiga e solidária quando necessário.<br><br>Obs.: A história é verídica. A pizzaria e o ponto de ônibus, passados quase vinte anos, continuam no mesmo lugar.<br><br>e-mail do autor: [email protected]