Flanelinhas do Trote

Nasci em uma rua defronte ao Trote da Vila Guilherme e residi naquele local até o meu casamento, que se deu em maio de 1967.

Lá pelos meus nove a treze anos havia as corridas de cavalos. Eu e mais outros colegas de infância nos conduzíamos ao portão e, pela rua lateral do Trote, hoje Avenida Nadir Dias de Figueiredo, como o movimento de pessoas que afluíam para lá jogar era muito grande, os carros podiam estacionar dentro do Trote. Os caminhões, por sua vez, ficavam do lado de fora, e o local possível para que eles pudessem estacionar era a lateral da avenida mencionada.

Ficávamos de plantão e assim começavam a chegar inúmeros feirantes que, de longe, vinham para fazer as suas apostas. Mal chegavam e nós os procurávamos para fazer a eterna pergunta dos flanelinhas: “Podemos tomar conta?”. A maioria deles era de nacionalidade portuguesa; uns permitiam que tomássemos conta de seu veículo, outros nos diziam uma série de impropérios típicos da raça, e assim não nos autorizavam.

E aí os garotos não deixavam por menos. A lateral da Sociedade Paulista de Trote era toda cercada de bambus vivos, e havia uma cerca de bambus cortados, tipo lança, que eram entrelaçados com arame, deixando a cerca bem fechada, para que as pessoas que quisessem assistir às corridas pagassem entrada, pois, daquela forma, não conseguiam visualizar a pista de corridas pelo lado de fora. Não nos fazíamos de rogados: munidos de um alicate, cortávamos os arames da cerca, abríamos o local e escondíamos toda a carga dos caminhões dentro das dependências do Trote. Fechávamos a cerca e aguardávamos a saída do proprietário do caminhão.

Quando vinha chegando, procurávamos nos afastar bem do local. Ele, então, vinha nos procurar: “Ei, moleques, vocês viram quem foi que me roubou toda a minha carga?”. Carga essa que, às vezes, eram verduras, outras vezes frutas, e chegou uma vez que era um caminhão carregado de bananas. Logicamente, a resposta era pronta: “Lógico que não, o senhor não nos autorizou a tomar conta de seu caminhão! E quando isto acontece, se aparecem ladrões por aqui, a gente aponta os veículos que não estamos tomando conta, e aí o senhor já sabe como funciona”.

Seguíamos indo para mais longe do local, e o proprietário do caminhão nos seguia. “Olha gente, dou-te dez contos se me disserem onde acho a minha carga”. Ficávamos bem quietos, por vezes ainda retrucávamos: “É muito pouco dinheiro”.

E eles ali ficavam oferecendo mais valores, até decidirmos quanto era o suficiente. Fechávamos o negócio, mas o dinheiro teria que ser adiantado. Nova discussão, mas eles acabavam sempre concordando. Entregue a importância, chamávamos todos os garotos que por ali estavam, abríamos a cerca e então carregávamos o caminhão com toda a mercadoria, deixando o português bem feliz!

Já na corrida seguinte, eram eles quem nos procuravam para que guardássemos o seu caminhão, ocasião em que também lhe oferecíamos o programa do Trote, com todas as corridas, anotadas todas as "barbadas" (possíveis páreos vencedores) que nós conseguíamos junto aos tratadores de cavalos, uma média de dez ou doze páreos. Havia um índice de acerto médio de 40 a 50%.

No fim das corridas, a maioria vinha toda feliz e nos dava uma gorjeta mais polpuda. Quando era a primeira vez de alguém, geralmente se esquecia de nos agradar. Ficávamos bem quietos, mas na corrida seguinte, mal ele chegava, a primeira coisa que perguntava era se tínhamos o programa; quando lhe dizíamos que não, em razão de que, na corrida anterior, ele não nos deu nada e ainda havia acertado quatro ou cinco páreos (e não pudemos dar nada aos cavalariços que nos forneciam as informações), ele insistia e acabava por nos dar uns trocos. Aí lhe fornecíamos o novo programa. E dessa vez, no fim das corridas, eles nos dava uma importância bem melhor, deixando-nos bem satisfeitos.