Marcos Rey e o Paribar

Por volta de 1994, quando eu trabalhava na Folha da Manhã e fazia uns “frilas” para outras publicações, conheci o grande Marcos Rey, mestre dos contos urbanos. Fui incumbido de fazer a matéria sobre suas andanças pela cidade. Queria saber qual a relação de Marcos Rey e o Paribar. Foi quando recebi este artigo do jornalista Furi Lonza, que transcrevo aqui:

Meio dos anos 50. Um clima meio cool, as notas sustenidas do piano de Dick Farney pairavam no ar e sublinhavam a cálida noite paulistana.

Encravado num prédio da Praça Dom José Gaspar, com um recuo providencial de 4 a 5 metros e uma extensão de uns 25, estava o Paribar, feito de encomenda para os boêmios que gostavam de ficar flanando ao ar livre, mas, ao mesmo tempo, protegidos da chuva, trovoadas e demais intempéries da trepidante Paulicéia – na época, já não mais tão desvairada.

Foi nesse bar, nesse clima e nesse tempo intimista, que as personagens mais hilariantes e ferinas da obra de Marcos Rey começaram a fermentar, criaram raízes, delineavam suas personalidades, seu caráter, tiques nervosos e tiradas humorísticas, saíam da realidade para entrar na história, nos contos e romances do maior cronista da noite.

Num íntimo parentesco com os saltimbancos da Comédia dell'Arte, que deixavam para trás o obscurantismo da Idade Média italiana e davam duro para pegar uma carona no bonde da Renascença, os gigolôs, cafetinas e boêmios errantes de Marcos Rey trafegavam permanentemente na contravenção, no lado escuro da história da cidade, criando um teatro ambulante e mambembe, resultado por um humor densamente caricato.

Passado quase que inteiramente no Paribar, com algumas rápidas e fugazes escapadelas, o conto “O bar dos cento e tantos dias” dá bem o clima da coisa, pois, como dizia o narrador, “desempregados sim. Sóbrios nunca”.

Para Marcos Rey, o Paribar era a ante-sala da noite, uma espécie de trampolim para vôos noturnos mais altos. Era na parte externa, ao ar livre, porém, que se concentravam os mais representativos personagens – jornalistas e publicitários que elegeram o bar como um tipo de bolsa de empregos, uma vitrine de profissionais. Drincavam, contavam casos, falavam da vida (especialmente dos outros), filosofavam e, graças a essas aproximações, de um casual apenas aparente, muitos conseguiam sair do buraco e dar a volta por cima na carreira e na tão combalida conta bancária.

Nos fins da tarde, lá pelas 5 e meia, 6 horas, tomavam assento nas cadeiras e mesas Franco Paulino, publicitário, jornalista, sobrinho do Josimar Moreira, diretor geral do jornal Última Hora, muito dedicado à música, jurado de vários concursos e festivais; Heitor Carillo, compositor ligado à Bossa Nova; Rodolfo Lima Matersen, o então papa da publicidade; Lenita Miranda de Figueiredo, jornalista e pianista; o escritor Antonio Torres e a trinca mais famosa de boêmios que Marcos Rey conheceu: Cláudio Curimbaba, Julinho Boas Maneiras e Egas Muniz.

Tomava-se muito whisky importado. De preferência, escocês – pois tomar o nacional era de muito mau gosto. Marcos Rey tinha o seu: Queen Anne, não por ser um emérito conhecedor do néctar, mas simplesmente porque diziam que era bom. Uma dose custava uma fortuna. E era invariavelmente acompanhado de generosas porções de amendoim. O whisky, com gelo, durava horas no copo, pois, afinal, dizia Marcos Rey, já que era para tomar um escocês, todos deviam saber. Tomar whisky sem testemunhas é mau negócio.

Os publicitários, em geral, eram da Norton (na época, na General Jardim), Thompson, MacCann Erikson, Standart (aposto todos meus dedos, para nunca mais teclar neste site, se o Luiz Simões Saidenberg, ao deixar seu escritório no Edifico Martinelli, não participava desta confraria, pois, criativo é criativo); os jornalistas escreviam nos Diários Associados, Estadão, revistas da Abril e alguns poucos na Folha – o Carlos de Freias, por exemplo, era um habituê. Além disso, havia o pessoal do MASP (na Rua 7 de Abril) e do Clubinho dos Artistas.

As mesas mais disputadas, contava Rey, e que comportavam ao seu redor maior número de cadeiras, eram as dos chamados homens providenciais, publicitários bem-sucedidos (Olha o Saidenberg ai de novo), donos de invejáveis currículos e guarda-costas de grandes contas, muitas das quais tinham salvo do caos e do vermelho quando tudo parecia perdido. O Paribar era, em resumo, um hall da fama. Freqüenta-lo e saber onde sentar significava ingressar na listagem dos vitoriosos ou ser identificado como um daqueles caídos em desgraça, que se expunham à espera de um milagre.

Marcos Rey experimentou os dois sabores desse coquetel, o doce e o amargo, sentado confortavelmente naquelas cadeiras de vime, na mira das oportunidades ou à espera simplesmente de que a sorte, talvez disfarçada de pedinte, passasse pela praça.

Sérgio Millet, diretor da Biblioteca Municipal e famoso crítico literário do Estadão, era freguês assíduo do Paribar. Sua presença dava classe ao endereço. Suas conversas e temas eram instigantes, particularmente quando dissertava sobre sua baudelairiana e exótica fixação por negras.

A época também era instigante. Discutia-se muito sobre a construção de Brasília ou sobre a ensandecida idéia de Juscelino dar o sinal verde à indústria automobilística nacional. No teatro, Maria Della Costa, Ziembisnki, Cacilda Becker e Sérgio Cardoso detonavam. Nos bastidores, Adolfo Celi namorava Tônia Carrero.

A Manchete era a grande revista nacional. Era chique ler Manchete naquela época. Rolava nos rádios muita música brasileira: Lúcio Alves, Antonio Maria, Vinícius, Fernando Lobo. Na TV, Raul Tabajara narrava as partidas de futebol de forma brejeiramente anglo-saxônica, onde pontificavam muitos beques, corners, pelota, goal-keeper, corta-luz, half, linha média, chaleira e muito sururu no meio campo. Neusa Amaral (a mecha branca e personagem de Marcos Rey no romance “Café na cama”), Idalina de Oliveira e Wilma Chandler faziam anúncios de refrigerantes e eletrólas. Tudo ao vivo.

Nas mesas do Paribar, Marcos Rey e Antonio Torres também falavam de literatura: Hemingway, Doroty Parker, Fitzgerald e Budd Schulberg eram os heróis e modelos. E o jovem Truman Capote, que ainda não tinha escrito seu famoso “A sangue frio”. Carlos Heitor Cony, era o grande best seller, mas falava-se muito de Campos Carvalho.

Mas o Paribar, na opinião de Marcos Rey, tinha um grande defeito: mulher gostosa não era seu forte. Talvez por isso que os habitues, lá pelas oito da noite, o trocavam por outros bares, restaurantes e inferninhos. Não os publicitários bem casados e com altos salários: estes iam para casa cedo. Oito e meia, máximo nove, já estavam no aconchego do lar, fazendo cafuné em suas patroas.

De qualquer forma, depois de trocarem as figurinhas sobre as possibilidades profissionais nas agências de propaganda, vagas eventuais de redatores, substituições, desistências e prováveis demissões, o assunto era um só: mulher.

O Cláudio Curimbaba, por exemplo, um boêmio histórico de São Paulo dos anos 50, fixava suas narrativas em suas próximas conquistas. Fazia de tudo para conseguir as mulheres que desejava, virava até quiromante quando a ocasião o exigisse, lia as mãos das mocinhas, adivinhava o futuro e deduzia o passado. E mentia muito. Suas histórias eram, em geral, muito engraçadas e picarescas.

Já o Egas Muniz atacava em outras frentes. Por ser um dos primeiros cronistas da noite – tinha uma coluna no Correio Paulistano sobre o assunto – conseguia boca livre nos principais bares, boates e restaurantes. E tinha muito fôlego e fígado para tanto: freqüentava de oito a dez locais por noite, terminando a maratona gastro-etílica, invariavelmente no Parreirinha, lá pelas cinco da matina.

E lá dentro do Paribar, o restaurante, como era! Marcos Rey não se lembrava. Poucas vezes jantou lá, mas conta-se de um mítico rosbife de dar água na boca até em vegetarianos empedernidos. O ambiente era discreto, sóbrio, de bom gosto, muito bem decorado, com alguns quadros elegantes nas paredes. E só. O forte era mesmo as cerca de vinte mesinhas com toalhas quadriculadas com cadeiras de vime, separadas por duas grossas colunas ovaladas brancas e lisas, estilo meio romano, que sustentavam a marquise do prédio e o recuo do bar.

Lá fora, ao ar livre, vendo as pessoas que passavam, era possível encontrar o narrador do conto “O bar dos cento e tantos dias” embebedando o Fontana, dono de uma agência de publicidade, e conversando com o inseparável amigo Lorca sobre o futuro da boemia na cidade de São Paulo, no Brasil e no mundo.

Quase sempre desempregados. Mas sóbrios, nunca.

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