Passeios de Bonde

Nos anos 50, um bonde vermelho e fechado como só vemos em fotos antigas da cidade, conhecido como "camarão", vinha do centro da cidade pela Avenida São João e no Largo Padre Péricles, nas Perdizes, onde nós o tomávamos. Ele virava e subia a Rua Cardoso de Almeida até o topo na Rua Caiubi, onde, numa estranha manobra sobre os trilhos em T, ele virava à direita, voltava de ré até a extremidade contrária dos trilhos e, voltando de frente até a virada dos trilhos, descia de novo a rua, rumando até o centro outra vez.

Esse bonde nos levava até a frente da casa de Dona Mary, onde descíamos para ir à aula de arte e interpretação. Apesar de termos automóveis, o passeio de bonde era muito gostoso e cheio de amiguinhas.

Ali morava a famosa poetisa e professora de música chamada Mary Buarque, que nos aguardava carinhosamente. Muitas meninas, das famílias do Pacaembu e Perdizes, tiveram com ela a sua iniciação cultural e musical, como a nossa famosa e adorável colega contemporânea Inesita Barroso, que, na época, deixava sua mãe pensativa por sua paixão e insistência em cantar apenas músicas caipiras!

Aprendendo declamação (que, segundo meu pai, além da parte cultural, aprimorava a dicção e o canto), primeiro acompanhando-me no cavaquinho, devido ao meu pequeno tamanho e depois ao violão, dei meus primeiros passos artísticos, participando de seu grupo de apresentações na Rádio Tupi, de São Paulo. Lá me tornei a locutora do grupo e, depois, nos programas da recém-inaugurada Televisão Tupi Difusora, em 1950, no Sumaré.

O programa infanto-juvenil chamava-se Pequenópolis, cuja origem veio de seu bonito, antigo e homônimo Livro de Poesias Pequenópolis.

Outras vezes, cantávamos e declamávamos acompanhadas pelo Maestro Dórse, da Rádio e Televisão Tupi-Difusora, canal 3 (se usava por extenso), apresentadas por Homero Silva, no Clube do Papai Noel, nas manhãs domingueiras.

Durante as aulas, Dona Mary, numa dicção perfeita e elegante, curvava sua esguia silhueta em nossa frente, para corrigir carinhosamente a nossa interpretação. A poesia fluía de sua boca em versos sonoros numa entonação muito agradável, como na poesia que ela me escreveu e declamou no dia do meu casamento, numa emocionante interpretação, nos cumprimentando e felicitando, na saída para a Viagem de Núpcias.

Nos apresentamos em diversos locais e teatros nos anos 50, incluindo o deslumbrante Teatro Municipal de São Paulo, como ainda podemos constatar.

Na saída da aula, tomávamos o bonde em sentido contrário, carregando nosso violão, para descermos no ponto do bonde, como era chamado, situado numa ilha no centro da Avenida General Olimpio da Fonseca, no Largo Padre Péricles.

Íamos de volta para casa ao som incrível das rodas de ferro rodando sobre os trilhos de aço. As janelas abriam na vertical, metade para cima e metade para baixo, com uma tripla barrinha de metal que nos impedia de debruçarmos na janela. Os trilhos fincados nos paralelepípedos, que cobriam a maioria das ruas da cidade, eram utilizados por alguns automóveis para não sacolejarem nas irregularidades das pedras, embora o vão do trilho deformasse o pneu com esta prática.

Quando acabava a energia elétrica, que era fornecida pela Light & Power, os bondes paravam onde estavam até que ela retornasse! O curioso é que a maioria das pessoas permanecia sentada no bonde, esperando a luz voltar, conversando e sem reclamar! Inacreditável.

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