O Acendedor de Lampião

Memórias do Sr. Bernardino Polcaro, que em 2000, quando deu este depoimento, tinha 82 anos.
"Fui ser acendedor de lampião. Ganhava oito mil réis por dia como sapateiro. Vi um acendedor de lampião e perguntei: “Onde posso arrumar esse emprego?". O homem era um português e me deu o endereço. Era na rua do Gasômetro. Fui lá às seis da manhã. Um sujeito perguntou se eu era italiano, disse que não. “Sou brasileiro, mas vivi com meu pai na Itália”. Aí eu fui acender lampião. Quem me ensinou o serviço foi aquele mesmo que eu tinha perguntado. A cada 40 metros tinha um lampião. Acendia com uma taquara de 1,80 m. mais ou menos, em cima tinha uma espécie de tubo, onde punha o óleo (de lamparina). Vinha uma borrachinha que descia de cima. Embaixo tinha uma bombinha que apertava, assim o fogo subia longe.
Quinze dias treinei com ele. Depois de 15 dias me chamaram. Deram-me o serviço no Paraíso: Abílio Soares, 13 de maio e Cubatão.
Em dias de chuva era um sofrimento. Ficava molhado, a tocha apagava. Eu comprava fósforos, mas os fósforos acabavam se molhando também. Para acender, eu tinha que trepar no poste. Voltava imundo para casa.
O acendedor, que me ensinou o serviço, foi atropelado. Não acendendo lampião, não. Foi atropelado num outro dia. Como eu sabia qual era o quarteirão dele, fiquei também com o serviço.
Como acendedor eu ganhava 150 mil réis. Era dinheiro naquela época. O meu trabalho começava na Brigadeiro Luiz Antonio, 14 de junho. Depois entrava na Rua São Domingos, Rua da Abolição; depois voltava atrás pegava a Brigadeiro Luiz Antonio, Martinho Prado e Rua Augusta. Eram 54 lampiões.
No Paraíso era mais serviço porque era tudo mato. Perdia muito mais tempo. Trabalhava 20 minutos antes de escurecer. Quando acabava de acender já estava tudo escuro. De manhã trazia um gancho e baixava a torneirinha: pum, e o lampião apagava.
Se uma carroça dava uma trombada no poste ou se um menino atirava uma pedra e quebrava o vidro – cada lampião tinha uma numeração – a gente comunicava e eles iam arrumar.
Na Rua Santo Antonio, quando era sábado para domingo, a negrada estava sambando e eu ia apagar o lampião. Eles me diziam "Acendedor, deixa o lampião ligado que está escuro ainda". Eu dizia: “Olha, quando vocês acabarem de dançar apaga aí, é só puxar aquela tornerinha". Eu voltava pelo mesmo caminho porque eu morava no Bixiga. Eles não tinham apagado o lampião. Esqueciam. Eu subia no poste e apagava.
Em 1929, estava ganhando bem de sapateiro. Resolvi deixar a Companhia (de gás de São Paulo) e ganhei três contos de réis, porque estava há quatro anos trabalhando de acendedor. Era dinheiro naquela época…"
Lampião de gás, lampião de gás, quanta saudade você nos traz!

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