Desde criança eu ouvia falar na Cantareira. Quando a minha avó falava dali existia um gosto de saudade e de ternura. Logo aparecia a minha mãe ou algum dos meus tios e entrava na conversa, falando especialmente e com muito prazer do mercadão.
Eu ficava imaginando como era ali, as pensões, os bares, as pessoas andando apressadamente cumprindo à risca os seus horários. Imaginava os homens com seus ternos, muitas vezes puídos, e também o local sem muita cor. Eu sei o porquê da ausência de cores no meu pensamento: é que a família da minha avó chegou para morar naquela região no final da II Guerra, com o sentimento dividido, a insegurança de quem sai do interior de Minas para uma cidade grande com os filhos ainda muito jovens e todos precisando trabalhar. Fim de guerra, a ditadura do Getúlio dando os seus últimos suspiros, como diria um dos meus tios, “no pau da viola”. Era hora da economia se reorganizar, da vida se ajeitar em todos os aspectos, com todas as incertezas, necessidades e expectativas. Tudo junto.
Ali a família da minha avó começou a ter uma nova visão de realidade. Já, naquele tempo vinham buscando estudo para os filhos e, com muito orgulho, minha mãe foi aluna do colégio Caetano de Campos, na Praça da República, onde também estudaram o grande Sérgio Buarque de Holanda, a Cecília Meirelles e tantos outros notáveis da cultura brasileira.
A minha avó era filha de imigrantes italianos. O sogro da minha avó, imigrante também, figura na lista dos pioneiros da imigração italiana em Minas Gerais.
Trouxeram valores magníficos: amor ao trabalho, ao conhecimento, um enorme amor à leitura e uma profunda manifestação de respeito ao próximo sem muitas palavras, sem muitos detalhes, mas com atitudes pacíficas. Nunca vi nem ouvi a avó reclamando ou desdenhando dos outros, apenas do governo militar, afinal lucidez nunca lhe faltou.
Tinha verdadeira compaixão pelos mais pobres, pelos sofridos.
Quando na Revolução de 30 paulistas e mineiros passaram a se desentender em função da instabilidade política e econômica os meus avós souberam se posicionar a favor da vida e da dignidade, e não a favor de diferentes segmentos políticos. Na ocasião o governo do mineiro Antônio Carlos de Andrada se aliou a Getúlio Vargas do Rio Grande do Sul para a formação da Aliança Liberal contra São Paulo de Júlio Prestes. Era período eleitoral e o então presidente Washington Luís (“o paulista de Macaé”) tentava dar um golpe a favor de São Paulo, com fraude eleitoral e tudo. Bem, aqueles jovens soldados paulistas marchavam em direção a Minas e quando chegaram ao sul do estado, cambaleando, enfraquecidos e famintos os meus avós cuidaram das suas feridas, fizeram chás, não os vendo como supostos inimigos ou ameaçadores à ordem. Eram apenas jovens soldados, “quase sempre perdidos de armas na mão”, diria Vandré.
Quando eu perguntava para ela das lembranças da guerra o Mussolini me vinha rapidamente à memória. Eu perguntava para ela: “Vó, a senhora se lembra do Mussolini?” Ela nem se dava ao trabalho de responder, apenas dava um leve sorriso debochado e prolongado, mas se lembrava do rei Vitor Emanuel III, que antecedeu a ditadura fascista…
Foi com minha avó que aprendi muito: o respeito à vida em qualquer circunstância, a tolerância, a arte do encontro. O respeito e o profundo amor pelo mais velho.
Há alguns anos eu participava de um grupo que se reunia para debates de filosofia e religião, análises de textos e então o nosso orientador pediu para que citássemos uma pessoa com grande competência para viver. Falou-se muito, de São Francisco de Assis, de Gandhi, de Chico Xavier. Quando o orientador me perguntou: “E aí,Vera, quem você conheceu com grande competência para viver?”. Respondi, sem titubear: “minha avó”.
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