O Colégio Santa Marcelina de São Paulo, onde eu estudei, o mais tradicional e antigo colégio religioso particular das Perdizes e Pacaembu, pertence ao Instituto Internacional das Irmãs de Santa Marcelina, fundado em 1838 na Diocese de Milão, Itália, pelo Monsenhor Luiz Biraghi e Marina Videmari.
Foi inaugurado em São Paulo pela empreendedora Superiora Sophia Marchetti em 1927, a mesma que inaugurou o Hospital Santa Marcelina, em Itaquera, no ano de 1961, e a Escola de Auxiliar de Enfermagem da Casa de Saúde Santa Marcelina em 1969, das quais participamos intensamente, fazendo rifas, festinhas para arrecadar fundos, doações em dinheiro, aparelhos e móveis hospitalares, até mesa de cirurgia, como a que foi doada pelo pai da minha amiga e colega de classe Maria Eugenia Cardamone, além de meu pai mandar sempre grandes quantidades de amostras de remédios que eu entregava para a Irmã Aparecida.
Lembro-me bem da Senhora Superiora, como era chamada, com seu porte majestoso e senhorial, sempre ereta, e que permaneceu nesse cargo até a sua morte em 24 de setembro de 1971, quando a Escola de Enfermagem que fundou passou a chamar-se E.F.P.S. Sophia Marchetti.
Quando o Colégio instalou-se ali a rua já se chamava Cardoso de Almeida, porém, anteriormente, até dezembro de 1907 era a antiga "Rua Thabor" das Perdizes, em homenagem ao pequeno monte Tabor da Palestina, o local da transfiguração de Cristo, que ali é representado pelo topo da região. Seu nome foi mudado para homenagear o advogado José Cardoso de Almeida, também Deputado Estadual, Secretário da Justiça, Chefe de Polícia e membro da Diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que ali possuía uma propriedade de certa relevância, e onde viveu até seu falecimento em 1933.
Na Rua Caiubi, que em tupi guarani significa folha azul anil, além de ser o nome do Cacique, irmão de Tibiriçá, foi o local onde se instalou a Igreja e Convento dos Dominicanos.
Sempre no mesmo endereço, o belíssimo prédio do Colégio Santa Marcelina, em estilo Gótico Lombardo, ocupa quase meio quarteirão, entre as ruas Itapecuru – do tupi guarani Itape=lage; curú = áspera, cheia de caroços, protuberâncias –, Paraguassu atualmente grafada Paraguaçu, que em tupi guarani significa rio grande, é também o nome da filha de um chefe Tupinambá da Bahia, casada com Diogo Álvares Corrêa, o Caramuru – e Dr. Alberto Torres – homenageando o advogado carioca Dr. Alberto de Seixas Martins Torres, fundador do centro abolicionista de São Paulo, Ministro da Justiça e do Supremo Tribunal, um dos maiores e mais profundos pensadores da América, falecido em 29 de março de 1917.
Como contei em outra história a característica desta região são nomes indígenas e de pessoas. Boa parte do quarteirão de trás, onde era a Chácara das Irmãs, um lugar bucólico que visitávamos e onde fazíamos algumas festas, com uma passagem subterrânea para que as irmãs não necessitassem atravessar a rua, atualmente foi transformada nas novas e atuais edificações das Faculdades Santa Marcelina.
Ali se aprendia de tudo o que uma boa formação exigia. Naquela época era apenas para meninas, e mantinha uma linha tradicional e rígida de educação e disciplina que incluía ordem, polidez e comportamento: estes itens que descumpridos poderiam causar sérias dores de cabeça para a aluna e para seus pais.
Para se ter uma idéia, as três notas de comportamento, ordem e polidez eram tão consideradas que, descumpridas, a aluna podia ser punida perdendo um ponto na média geral mensal e para receber a medalha de quadro de honra, que eu tive a satisfação e o orgulho de receber, a aluna tinha de obter a média geral do mês acima de 9 e ter 10 nas três notas citadas.
A aparência também era um fator importante: os cabelos deviam ser curtos ou presos, amarrados com fivela ou fita marrom, pois não podiam tocar a gola da camisa branca de mangas compridas, com acabamento de uma gravatinha do mesmo tecido “pie de poulle”, que compunha o uniforme, cuja saia media exatos 47 cm do chão, conferidos bimestralmente, com régua de costureira, aquela que fica em pé no chão.
As unhas cortadas rente e escovadas e os sapatos marrom perfeitamente engraxados.
Casaco e boina marrom na tonalidade café e luvas ABSOLUTAMENTE brancas, sim porque não podiam estar sujas e nem encardidas nas pontas dos dedos, conferidas diariamente na porta de entrada da sala de aula pela mestra de classe, que na menor falha, mandava a desleixada de volta para casa, ou para a pequena salinha, onde uma caixinha de engraxate, a ajudava a ficar como devia para retornar à classe, com a nota de ordem rebaixada!
Ao se falar assim parece rabugicem, mas era muito bonito de se ver aquele mar de alunas realmente uniformizadas.
A fila indiana de cada classe só começava a andar mediante um mínimo sinal dado pela Superintendente do ginásio, Irmã Aparecida, com uma castanhola, toque que se repetia na classe a cada início de aula quando recebíamos a Irmã professora de pé e sentávamos num só movimento, sem fazer barulho, após cumprimentá-la no idioma que lecionava e rezar uma pequena oração.
Lembro-me da Irmã Eugénie Jeanne Villien, vice superiora e coordenadora do Colégio nessa época, conhecida e chamada por “Ma Soeur” que, ao cruzar comigo no corredor, falava com sua costumeira amabilidade: “Bon Jour, comment allez vous?”, ao que não deveria esquecer de responder: “Très bien, Ma Soeur, merci”, e ela sorrindo e balançando levemente a cabeça, continuava a caminhada.
A maioria das alunas gostava muito dela, porém algumas, as mais bagunceiras a temiam, pois era extremamente exigente e sabia ser brava.
Outra Irmã que deixou saudade, também muito brava e eficiente, era a temida Irmã Odete, que lecionava latim e matemática, o que já dá para entender o porquê, com seu olhar de lince, que assustava algumas alunas especialistas em cola, como em todo colégio. Sem dar um passo fora da sua mesa durante as provas, ela permanecia sentada e às vezes lendo ou corrigindo provas de outras turmas. De repente só a ouvíamos falar: “Fulana, entregue a prova!”, sem sequer levantar a cabeça, e nada mudava a sua atitude, nem o zero imediatamente anotado no livro de chamada e notas, porque podia se procurar que ali tinha cola. Ela era terrível.
Irmã Terezinha Araújo, magrinha e delicada, lecionava inglês e francês, numa dicção tão perfeita quanto o seu português, falando sempre no mesmo tom, com palavras bem escolhidas e bem pronunciadas, conseguia uma disciplina incrível, até das alunas mais bagunceiras.
Irmã Assumpção, foi uma professora que deixou saudade também, pela sua educação e amizade com que se dirigia às meninas, pela dedicação que impunha a tudo o que fazia e, depois de ser Superiora do Colégio, atualmente é a Superiora Geral das Marcelinas do Brasil!
A magnífica Capela do Colégio com seu altar esculpido em mármore de Carrara consagrado a Sta. Marcelina e sua abóbada gótica, onde observamos os finos pilares sustentando os altos arcos ogivais que elevam a Terra ao Céu. Nas aulas de piano no Conservatório de Música do Colégio, onde segui meus estudos de piano, a suave Irmã Ângela e a severa Irmã Laura, que tornou-se a superiora Maria Laura Isabel Regos, depois do falecimento da Superiora Sophia, entre outras, pacientemente nos orientava, enquanto batalhávamos naquelas intermináveis e difíceis escalas.
O que mais me lembro e com prazer, talvez por ter sido o que mais me chocou quando troquei as seguras e limpas salas de aula do colégio, pelas apenas varridas madeiras do chão da Faculdade de Direito, era o chão do Colégio, reluzindo de cera, as carteiras brilhando, tudo impecavelmente limpo, tão limpo que não sujávamos as mangas brancas da camisa, embora esfregássemos o braço nas carteiras para escrever!
Os banheiros? Pareciam acabados de ser construídos, de tão intactos que permaneciam, apesar do movimento de 320 alunas do ginásio durante cada período que o utilizavam… Bons tempos de educação.
Nas mesas das professoras um arranjo fresco de flor colocado diariamente, e no canto do quadro negro uma frase escrita a cada dia transmitia a “boa palavra”. Que saudade! Com o passar do tempo elas tiveram que modificar alguns de seus hábitos para adequar-se à época, e a primeira coisa que caiu em desuso foi a nossa gravatinha.
Foi num final de aula no finzinho da década de 50, acho que talvez em 1958, que a Superintendente do Ginásio Irmã Aparecida comunicou ao ginásio, científico e colegial, que estudavam no mesmo horário pela manhã, que a partir do dia seguinte não seria mais usada a gravatinha no uniforme diário das 2.600 alunas. Sim, porque tínhamos o uniforme de gala, usado em missas e ocasiões solenes.
Foi uma festa, todas ficaram super-alegres. Hoje penso que nem sei por que aquilo fez tanta diferença, mas, na saída, quase todas as alunas, tiraram as gravatinhas dependurando-as nas árvores da Rua Cardoso de Almeida, a medida em que iam caminhando para casa.
Dessa maneira, quem passou por ali, nesse dia e nos dois ou três seguintes, podia ver algo bastante inusitado: árvores floridas de gravatinhas “pie de poulle”.
Logo depois, as grossas meias de algodão, longas até a metade das coxas e usadas com cintinha ou liga de meia, foram substituídas por práticas por meias ¾, dando início a uma série de mudanças e atualizações que iriam suceder-se, como as mangas da camisa transformadas em blusa de mangas curtas e a utilização das boinas e luvas que passaram a fazer parte exclusiva do uniforme de gala.
Trocaram também o hábito das irmãs, o bonito e charmoso chapeuzinho preto com jabot nas bordas e fitas pretas foi substituído pelo prático véu, o que lhes proporcionou um alegre e fresco hábito, curto e branco para o verão, usado também pela Superiora Geral Irmã Assumpção, em substituição ao longo e pesado preto.
A partir de 1972 o Colégio passou a ser misto, de acordo com a nova lei utilizando uniformes adaptados para os tempos modernos, abrigos e tênis, só mantendo a tonalidade marrom.
A moderna edificação da Faculdade de Belas Artes, que tive o privilégio de freqüentar, e as novas adaptações pelas quais passou nesses anos, o colocaram entre os modernos estabelecimentos da cidade, bem diferente dos moldes que vivemos no século passado, nos chamados anos dourados… No tempo das gravatinhas!
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