Os sinos da Catedral

Que doce lembrança me trazem aqueles velhos sinos instalados no alto da torre da nossa Catedral, a velha Igreja Matriz de Santo Amaro! Seus badalos anunciavam o crepúsculo dos dias no momento em que o sol, com seus raios avermelhados, começava se esconder por trás das montanhas, que se mostravam verdes nos arredores do também velho Largo da Bola, hoje o nosso Largo Treze de Maio. Tudo anunciava a hora sagrada da Ave-Maria, chamando os antigos e simplórios sitiantes da região que, cansados e carregando seus pés pesados, resultantes de mais um dia de trabalho, iam reverenciar a Deus naquele templo sagrado da esperança. Após o terço, homens e mulheres sentavam à porta de suas casas, momento em que apreciavam o burburinho da criançada brincando no meio das ruas empoeiradas do velho Centro do nosso Paraíso, a terra onde nascemos. As brincadeiras eram o pega-pega, a ciranda, esconde-esconde, o bate-lata.
Essas crianças, ofegantes e cansadas, transpiravam em seu suor momentos de felicidade que jamais foram apagados de suas lembranças. Aparecia a enorme lua no céu e o assunto mudava entre os adultos que, automaticamente, passavam a contar as histórias de seus antepassados, sobre lobisomens e mulas sem cabeça, que soltavam fogo pelos olhos. O deslizar da lua no alto parecia exercer um misterioso fascínio naquelas humildes pessoas, que era por elas exteriorizado através das lendas conhecidas desde os tempos de seus avós. Tais histórias deixavam todos arrepiados de medo, mas na verdade, apenas alimentava o romântico folclore que sempre existiu em torno dos provincianos lugares da época. Após esse culto à amizade, iam todos dormir, para serem acordados em um novo dia, pelo barulho da carroça do leiteiro, do canto do galo e o gorjear dos pássaros nos arbustos da vizinhança. As janelas se abriam e a vida continuava, sem que todos pudessem desconfiar que um dia, tudo isso iria se acabar.

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